O Labirinto do Fauno: quando desobedecer é um dever

fevereiro 16, 2019

O Labirinto do Fauno (2006) é, para muitos, a obra-prima do diretor Guillermo del Toro, o filme que melhor representa o seu cinema, a sua paixão pela fantasia. O sucesso do longa foi indiscutível: obteve vários reconhecimentos, dentre os quais se destacaram três prêmios Oscar: melhor fotografia, melhor direção artística e melhor maquiagem.

A trama nos situa em um dos momentos mais tristes da história da Espanha: em 1944, o período logo após a Guerra Civil Espanhola. Um momento em que a fome e a miséria causavam estragos na sociedade, um momento no qual era difícil imaginar, sonhar ou acreditar em contos de fadas.

O isolamento internacional, a submissão a uma ideologia única (o fascismo) e a miséria caracterizavam o cotidiano de grande parte da população espanhola.

O Labirinto do Fauno nos mostra duas histórias dentro de uma, que vão acabar se fundindo. A simultaneidade das histórias acontece desde o início: enquanto uma voz em off fala de uma princesa que vivia há muito tempo em um reino subterrâneo, nós nos situamos na Espanha, logo após a Guerra Civil, onde “escondidos nas montanhas, grupos armados continuam combatendo o regime fascista, que luta para sufocá-los”.

Além disso, escutamos ao fundo uma melodia que inspira a mais pura fantasia e, ao mesmo tempo, a respiração agitada de uma menina que está sofrendo. Essa menina é Ofélia, o elo de união entre as histórias.

Da realidade mais dura, da submissão a um regime e da resistência dos maquis, O Labirinto do Fauno nos transporta para a fantasia mais inocente de uma menina, para a imaginação e a ingenuidade que muitos perderam depois da guerra.

Del Toro consegue nos fascinar com a sua estética, com o seu mundo subterrâneo que, assim como o mundo dos humanos, também não está livre de perigos. Fantasia e realidade, contos de fadas e miséria, mas, acima de tudo, desobediência; isso é O Labirinto do Fauno.

Por que Ofélia?

O nome Ofélia faz com que, imediatamente, pensemos em Shakespeare, em Hamlet. Ofélia, a filha de Polônio e a irmã de Laetres, é a noiva do príncipe Hamlet; ela perde a razão depois da morte de seu pai (assassinado por engano por Hamlet), e sua loucura a transforma em uma personagem infantil, inocente e trágico.

Sua morte, nunca representada no palco, é narrada por Gertrude, a mãe de Hamlet, e é considerada uma das mais poéticas da literatura. Ofélia é uma mulher destruída pelo amor, trágica devido à morte de seu pai.

Trata-se de uma personagem que inspirou uma infinidade de quadros do Romantismo por ser uma representação do feminino, da inocência, do amor e da morte. A narrativa de seu fim é mágica, é uma fusão com a natureza; não é uma morte angustiada, mas muito serena.

Mulher com o corpo submerso em rio

A Ofélia de Shakespeare aparece submissa e obediente diante do mundo dos homens; no entanto, ao perder a razão, esta submissão começa a desaparecer e a veremos acompanhada por uma mulher, a Rainha Gertrude. A imagem da morte de Ofélia é associada a algo místico, quase fantástico, como se um ser do outro mundo retornasse ao seu estado natural.

Dessa forma, a escolha do nome em O Labirinto do Fauno não é uma casualidade, mas pretende que o espectador associe a inocente menina com a personagem de Shakespeare.

Da mesma forma, podemos ver certas semelhanças entre Carmem, a mãe de Ofélia, e a Rainha Gertrude. Ambas, ao ficarem viúvas, casam-se com um vilão: Carmem com o Capitão Vidal, um militar a serviço do franquismo que está em um vilarejo dos Pirineus com o propósito de eliminar qualquer indício da guerrilha republicana.

O feminino em O Labirinto do Fauno

A sociedade que O Labirinto do Fauno apresenta não é justa com as mulheres. Carmem representa os valores da mulher tradicional, submissa ao homem; Mercedes, a empregada da casa a serviço de Vidal, supõe a ruptura com esses valores e, apesar de parecer ser fiel ao Capitão, na realidade está empreendendo uma luta, tentando ajudar os maquis sem que os outros saibam disso.

Do mesmo modo, Ofélia vive uma história paralela em relação a Mercedes, na qual ela também vai ser a protagonista, será a responsável por trazer a prosperidade ao mundo subterrâneo.

Del Toro quis mostrar o patriarcado como algo negativo e, em oposição a ele, decidiu valorizar o que é feminino. No reino subterrâneo não existe o sol, predomina a lua, um elemento carregado de conotações femininas devido a sua relação com o ciclo menstrual e com a maternidade.

Enquanto isso, no mundo dos humanos, o sol cegará a princesa, fazendo com que ela se esqueça do seu passado. O sol representa o masculino, ganhando conotações negativas.

Aparece também a figura da mandrágora, uma planta cujas raízes lembram muito uma figura humana. Ofélia usa a mandrágora para ajudar sua mãe com a gravidez, colocando-a em um recipiente com leite, que simboliza o elemento materno.

O Capitão Vidal será o grande vilão desse conto, encarnando todos os valores patriarcais em sua pessoa, enquanto Ofélia surge contra esse personagem. Duas histórias e dois mundos: o subterrâneo será a inocência da menina, o feminino; o mundo real é hostil, onde existe a dor e a guerra, que estão associadas ao masculino.

Filme 'O Labirinto do Fauno'

O simbolismo

No começo da prática da agricultura, durante o período Neolítico, algumas tribos como os bosquímanos viam o mundo subterrâneo como um lugar vinculado ao trânsito entre a vida e a morte, ligado a aquilo que é mágico.

Muitas histórias tradicionais reúnem relatos de meninas que caíram em um mundo subterrâneo e acabaram vivendo uma experiência que iria transformá-las em mulheres. Acontece, portanto, a perda da inocência e a metamorfose da menina.

Nesse mundo subterrâneo, é comum o surgimento das figuras de animais com características humanas, as provas, as tentações e uma espécie de guia, que nem sempre é alguém confiável. Estas histórias possuem um caráter didático, funcionam como mitologias, algo que também acontece em O Labirinto do Fauno.

O fauno representa o que é pastoril, o contato com a natureza, funciona como uma conexão entre os dois mundos, mas ele tampouco é um personagem completamente fiável; o labirinto é um tipo de busca da verdade, mas também do perigo.

A árvore e o sangue são associados à vida, o homem pálido representa o poder e a opressão do mundo real, o tempo aparece associado a Vidal, sempre controlando o seu relógio, algo que podemos conectar com o deus Cronos.

O número 3 é uma constante no filme (as 3 provas de Ofélia, 3 fadas, etc.). Este número representava, na mitologia clássica, a divindade; na religião cristã, nós o associamos à natureza de Deus, com a Santíssima Trindade. Desse modo, Del Toro constrói um universo perfeito, divino, como se fosse um mito.

Filme 'O Labirinto do Fauno'

Como em todos os mitos, existe um ensinamento: a desobediência. Del Toro quis materializar uma realidade onde só existia uma linha de pensamento, uma realidade na qual desobedecer se transforma em um dever. Desse modo, temos personagens como Mercedes, o médico ou os maquis que, apesar da opressão, decidem desobedecer.

A desobediência possui duas caras: ela leva ao erro quando Ofélia cai na tentação de provar as frutas da mesa do homem pálido, mas ao triunfo quando ela acerta ao desobedecer as fadas.

Os personagens representam uma realidade, mas são inspirados em estereótipos. Não existem personagens neutros: ou eles são bons, ou são maus. Del Toro assume uma postura inteiramente subjetiva, não é imparcial e se posiciona, claramente, ao lado da resistência, dos maquis e de todos aqueles personagens que desobedecem, valorizando, além disso, aquilo que é feminino.

No final do filme, o debate permanece aberto: foi real a aventura de Ofélia, ou apenas o fruto da imaginação da menina? Del Toro afirma claramente que tudo foi completamente real.

“Obedecer por obedecer, assim, sem pensar nisso, é só o que fazem as pessoas como o senhor, Capitão”.
– O Labirinto do Fauno –