Por que a palavra feminismo deixa os jovens nervosos?

· outubro 28, 2018

A palavra feminismo deixa muitos jovens (e não tão jovens) nervosos. As situações de desigualdade em termos de gênero ainda são comuns e, embora haja uma grande mudança geracional, um grande número de jovens continua a associar a palavra feminismo ao radicalismo.

Alguns dados nos fazem pensar se realmente a juventude é a base de maior igualdade. O patriarcado e o machismo serão superados com as próximas gerações? A resposta, infelizmente, não é clara. Muitos jovens, embora mais mobilizados, não estão conscientes das forças articuladas na sociedade em que atuam.

As novas gerações estão se movendo em direção ao feminismo?

As novas gerações tendem a reproduzir, em parte, os papéis das gerações anteriores. Embora seja evidente que uma parte da sociedade está mais consciente das questões de gênero, o restante, uma grande maioria, ainda não é. Com poucas referências dentro da sociedade, nos seus círculos de amigos e, ainda menos, nas instituições, a reprodução de padrões antigos é o que alimenta a inércia.

A força das mulheres

Os jovens precisam de referências, de bons exemplos feministas para lhes mostrar o caminho que devem seguir. Assim, o seu dever para com as pessoas que lutaram e aquelas que continuarão a fazê-lo é gerar um ambiente em que as suas conquistas sejam conhecidas.

Para a socióloga María Silvestre, a juventude não está retrocedendo, ao contrário, mantém o que alcançamos. O problema está nas oportunidades e recursos. Atualmente, os jovens têm mais oportunidades e recursos em comparação com as outras gerações.

Por exemplo, educação. A alfabetização é praticamente uma norma em nossa sociedade e o número de pessoas com diplomas universitários é o mais alto da história. No entanto, a educação pode levá-los a perceber uma igualdade que não é real ou apagar o espírito crítico em situações de desigualdade ou discriminação.

“A palavra feminismo os deixa nervosos e nervosas, e eles não veem a necessidade de reivindicação. Tudo lhes parece um radicalismo típico das gerações passadas”.
-Maria Silvestre-

Por que a palavra feminismo deixa os jovens nervosos?

Embora tenhamos avançado, e muito, nos últimos 50 anos, a consciência crítica em relação à desigualdade permanece estagnada. As mulheres podem ter mais oportunidades de trabalho e educacionais. Elas podem executar trabalhos que antes eram impensáveis para as mulheres e têm um poder de compra maior. Mesmo assim, os valores dos jovens não englobam a desigualdade.

Nas palavras de María Silvestre, “a palavra feminismo os deixa nervosos e nervosas, e eles não veem a necessidade de reivindicação. Tudo lhes parece um elemento de radicalismo típico das gerações passadas”. Esse é um fenômeno que afeta homens e mulheres, embora, evidentemente, seja maior nos homens.

Equilíbrio entre os gêneros

Existe igualdade na internet?

A relação entre a juventude e a internet pode parecer um espaço perfeito para a igualdade. Mas não é. As relações de desigualdade são reproduzidas igualmente na internet. Apesar de ser um espaço mais aberto e livre, a internet tornou-se um espaço de desigualdade. Os conteúdos que os jovens compartilham e consomem na internet são, em sua maioria, sexistas e reproduzem os tradicionais papéis de gênero.

Por um lado, enquanto os meninos fazem um uso lúdico da internet, focados em jogos como o pôquer, as garotas a usam para se relacionar. Isto é, embora os jovens façam uso da internet, os meninos se concentram nos jogos e as meninas interagem. Como podemos ver, até no uso da internet os papéis antigos são reproduzidos. Mesmo com a igualdade de acesso às redes sociais, o seu uso continua sendo diferenciado por gênero.

E a coisa não termina aí: o cyberbulling e o assédio sexista também se mudaram para a internet. O que encontramos na sociedade também ocorre na internet. Em vez de gerar mudanças, a internet está reproduzindo muitos dos valores machistas da nossa sociedade.

Finalmente, podemos concluir que a sociedade tem um papel muito importante. Nela há agentes de socialização como a família, a escola, a mídia, a publicidade, os romances, o teatro, os videogames… Todos eles geram cultura, mas, como sempre, continuam a reproduzir os papéis de gênero. Não podemos esperar que os jovens acabem com eles. Esses meios de socialização deveriam aumentar o número de referências feministas que os jovens pudessem imitar.

Nota de edição: as generalizações que existem neste artigo correspondem a estudos que trabalham com as médias. Dessa forma, certamente há muitos jovens que estão longe de seguir a tendência de que estamos falando.