O princípio de Pollyanna ou a capacidade de se concentrar apenas no positivo

· outubro 18, 2018

O princípio de Pollyanna tem sua origem nos romances de Eleanor H. Porter. Sua protagonista, uma menina com o mesmo nome, tem a capacidade de se concentrar apenas no lado positivo das coisas. Esse otimismo fervoroso e determinado serviu de inspiração para definir o viés que nos permitiria, em essência, viver mais felizes e mais conectados com os outros.

É realmente apropriado focar nossa visão pessoal para a positividade que esse princípio psicológico enuncia? É muito provável que a maioria de nossos leitores tenha sérias dúvidas e mostre algum ceticismo. Às vezes, como bem sabemos, essas lentes cor-de-rosa podem nos fazer perder certos ângulos de nosso entorno, certas nuances de grande relevância que diminuem o realismo e a objetividade de nossa visão.

“O jogo consiste em encontrar algo pelo que estar sempre feliz”.
-Pollyanna-

O florescimento da psicologia positiva liderado por Martin Seligman está passando atualmente por importantes reformulações. Entidades como a Universidade de Buckingham (a primeira instituição mundial a treinar e formar seus alunos nos fundamentos dessa perspectiva) estão mudando algumas de suas bases. Uma delas é relativa à definição de felicidade.

De alguma forma, podemos dizer que a “nova” psicologia positiva tem abandonado a pretensão de nos ensinar a ser mais felizes. A famosa cultura da felicidade e todos esses livros e trabalhos de autoajuda estão dando lugar a um novo formato, a uma nova perspectiva. Uma onde nos dar ferramentas para também saber lidar com o negativo e as adversidades. Porque na vida nem sempre podemos nos concentrar nesse lado luminoso e otimista como fazia a sempre resoluta e vivaz Pollyanna…

Ilustração de Pollyana

Princípio de Pollyanna, em que consiste?

Depois de ficar órfã, a pequena Pollyanna foi enviada para viver com sua amarga e estrita tia Polly. Longe de desistir, a pequena não hesitou em continuar aplicando, dia após dia, a filosofia de vida que seu próprio pai criou desde muito cedo: transformar sua realidade em um jogo onde você pode ver apenas as coisas boas e positivas.

Não importava o quão infeliz fosse a situação; Pollyanna era capaz de resolver e enfrentar qualquer circunstância com o mais firme otimismo e alegre determinação.

Além disso, um efeito notável deste personagem literário era também a influência que costumava causar nos outros. Mais cedo ou mais tarde, o personagem mais miserável, apático ou triste acabava se rendendo à personalidade brilhante e luminosa da menina.

Os livros de Eleanor H. Porter, como vemos, transmitiam uma sublimação absoluta do positivismo, algo que serviu de inspiração para dois psicólogos dos 70, os doutores Margaret Matlin e David Stang.

Como são as pessoas que aplicam o princípio de Pollyanna?

  • Em um estudo publicado na década de 1980, Matlin e Stang puderam ver, por exemplo, que as pessoas com uma clara tendência para a positividade, longe do que poderíamos pensar, levam muito mais tempo para identificar os estímulos desagradáveis, perigosos ou os eventos negativos que acontecem ao seu redor. Ou seja, não há um “cegueira” para a realidade, como alguns podem pensar.
  • O princípio de Pollyanna nos diz que, estando plenamente conscientes de que existem fatos e realidades negativos na vida, escolhemos nos concentrar apenas no positivo. O resto não importa. Além disso, mesmo que estejam envolvidos em um evento negativo, a pessoa se esforçará para reorientar essa situação para uma saída mais otimista.
Pessoas que aplicam o princípio de Pollyanna

Uma memória focada e centrada no positivo

O Dr. Steven Novella, um renomado neurofisiologista da Universidade de Yale, tem vários trabalhos e estudos sobre o que é conhecido como a falsa memória ou os erros de armazenamento tão comuns nas pessoas.

Assim, um fato curioso sobre o princípio de Pollyanna ou o viés de positividade é que as pessoas otimistas geralmente não se lembram bem dos eventos negativos de seu passado.

A qualidade de sua memória é ideal e perfeita, com todos os eventos processados ​​como “positivos”. Por outro lado, não armazenam os eventos dolorosos ou complexos da mesma maneira, por não os considerarem significativos.

Tendência positiva e preconceito de linguagem: todos somos Pollyanna

Esses dados são realmente curiosos. Em 2014, a Universidade de Cornell, em Nova York, realizou um estudo para descobrir se nossa linguagem, em geral, tende à agressividade ou ao viés da positividade. O professor Peter Dodds e sua equipe analisaram mais de 100.000 palavras em 10 idiomas diferentes, realizando análises profundas das interações em nossas redes sociais.

Assim, e por mais impressionante que pareça, nossa linguagem e as mensagens que enviamos têm um peso emocional claramente positivo. Essas conclusões coincidem com as estabelecidas pelos psicólogos Matlin e Stang nos anos 70, a saber: as pessoas tendem ao “pollyanismo”

Críticas ao princípio de Pollyanna

Alguns psicólogos preferem falar da Síndrome de Pollyana ao invés do Princípio de Pollyanna. Com essa mudança de terminologia, buscam chamar a atenção para as limitações ou até para os aspectos preocupantes envolvidos nessa dimensão psicológica levada ao “extremo”.

Por exemplo, se escolhermos focar apenas nesse lado mais otimista da vida, é possível que demonstremos uma certa incompetência ao administrar as situações difíceis. O Princípio de Pollyanna ajuda em alguns momentos, é verdade.

Ter sempre ter uma visão alegre e luminosa das coisas nos dá motivação, não há dúvida, mas para viver também é necessário lidar com os momentos negativos e aprender com eles. Nossa realidade inclui luzes e sombras, e nem sempre podemos escolher o lado mais ensolarado.

Críticas ao princípio de Pollyanna

Com o que ficamos então? É recomendável seguir a filosofia do princípio de Pollyanna ou não? A chave para tudo, como sempre, está no equilíbrio. No olhar intermediário voltado para o lado luminoso da vida, mas que não fecha os olhos ou evita as dificuldades.

No fim, a psicologia positiva é sempre inspiradora, mas, às vezes, alcançar ou não o sucesso ou evitar que certas coisas aconteçam não depende 100% da atitude que você tem.

Tudo que reluz não é ouro, portanto, devemos estar preparados para gerenciar da melhor maneira qualquer circunstância, sabendo como lidar com luzes, sombras e todas as escalas de cinza…