O quarto dos segredos

· dezembro 9, 2018

Quando um casal se aventura a dar o próximo passo em direção à convivência, podem surgir vários problemas. Um dos mais comuns tem a ver com a dificuldade de um para se adaptar ao outro (manias, horários, costumes). Esse processo de fusão dá lugar a uma boa parte da dinâmica de convivência, na qual ambos tentarão realizar concessões sem perder a identidade individual. Quando não se consegue fazer isso, surge – de forma literal ou metafórica – o quarto dos segredos.

O quarto dos segredos é o espaço onde guardamos pouco a pouco aquelas coisas que fazem parte de nós, de nossos hábitos, mas que incomodam ou não agradam nosso parceiro sentimental. Esse quarto pode começar a se encher de detalhes sem importância, que você não se importa em mudar: aquele perfume que seu parceiro não gosta, os trabalhos manuais que ocupam espaço na sala ou as séries românticas que o incomodam.

O problema começa a ser preocupante quando, com o tempo, o quarto dos segredos não se enche de sugestões, mas sim de obrigações. Ele se enche de ameaças, gritos, costumes que o tornam insuportáveis aos olhos do seu parceiro e que você decide mudar para não perdê-lo. Em contrapartida, você perde a si mesmo.

Os casais que realmente se amam não são aqueles em que cada membro busca ser perfeito e agradar o outro acima de seu próprio bem-estar. São aqueles que, apesar dos defeitos que têm e de não compartilharem tudo que fazem, são capazes de se aceitar e se amar da forma como são.

Mulher chorando

O quarto dos segredos como violência psicológica

Um dos motivos pelos quais esse quarto dos segredos pode ficar cheio é por causa do medo. O medo da reação psicológica do outro, o medo da violência ou dos maus-tratos. Assim, muitas pessoas deixam para trás seus desejos, sua identidade, como um preço a pagar para evitar ser vítimas de ataques físicos ou psicológicos. A vulnerabilidade aumenta e a pessoa cai nas teias do outro. Um membro do casal, ao ver as consequências positivas dos maus-tratos para seus interesses, vê sua conduta reforçada.

Se estamos nesse caso, começamos a nos afastar, a nos esconder nos cantos desse quarto para não ocupar o espaço legítimo e pessoal que deveríamos ocupar em nossa relação. Nós nos afastamos da nossa própria liberdade pessoal e, inclusive, paramos de fazer barulho e de reivindicar o que somos porque é o outro que fala por nós. Entregamos nossa voz e, com ela, nossa força e nossa autoestima.

Em uma relação, você nunca perde sua identidade, nunca perde sua voz. É sua única arma perante os maus-tratos, o isolamento e o medo.

Construímos, assim, um espaço desordenado de tudo que era nosso e que agora se tornou dependente do outro. O medo de perder a outra pessoa nos consome porque nossa vida é ela, de nós já não resta nada. É nesse momento que o quarto se enche de segredos. Aquilo de que gostamos, mas que escondemos, se transforma nas grades da nossa cela.

Mulher em meio a pássaros voando

Como sair do seu quarto dos segredos?

Nesse quarto, nessa prisão, não há socos nem marcas. Por isso, é difícil reconhecê-lo. Pode ser, inclusive, que você pense que tudo a que você renunciou ou que deixou de fazer foi realizado por vontade própria. No entanto, a diferença é clara: se há medo de perder o outro ou de que o outro o machuque, é coerção, não liberdade de escolha.

Todos nós temos manias, coisas de que gostamos, e não temos motivos para renunciar a elas para agradar aos outros. Leve em consideração que se algo não vai ao encontro da liberdade do outro, não tem problema. Por isso, para não perder nossa própria voz, nosso espaço e nossa identidade dentro de uma relação, não devemos ceder em tudo que fazemos para não perder o outro.

Se você já estiver fechado no seu quarto de segredos, recomendo que você os revele sem medo. Quem gosta de você vai aceitá-lo com todas as suas manias ou, pelo menos, se oferecer para encontrar uma solução na qual você não seja o único que tem que ceder. Se você perder o outro por ser que você é, ele ou ela não valia a pena.

Se é o medo que o impede de sair dessa cela que se transformou no seu quarto dos segredos, peça ajuda! As amizades que agora parecem distantes porque você as escondeu no canto do quarto, ou a família que há tempos você não vê, podem ajudá-lo a parar de viver com medo. Você também pode solicitar ajuda profissional se quiser. Os psicólogos sabem que você não está sozinho e, sobretudo, que a culpa não é sua.