Ociofobia: uma doença dos tempos modernos - A Mente é Maravilhosa

Ociofobia: uma doença dos tempos modernos

julho 2, 2017 em Psicologia 2664 Compartilhados
Ociofobia: uma doença dos tempos modernos

A palavra ociofobia foi inventada por Rafael Santandreu, um psicólogo espanhol. Este especialista indicou que com essa palavra pretendia definir o medo de não ter algo para fazer. É um desses problemas contemporâneos que começaram a ganhar terreno sem que nós percebêssemos. Quando começaram a chegar nas consultas os obcecados com o trabalho ou as pessoas que utilizavam tal atividade para fugir dos problemas que não queriam enfrentar, começamos a ver o rosto deste problema.

Aparentemente há atualmente muitas pessoas no mundo que começam a entrar em pânico quando se veem com um tempo vazio. Ou um tempo que não está planejado. Ou aquele em que já terminaram tudo o que tinham para fazer e só conseguem ver uma longa fila de minutos que conduzem, de acordo com aqueles que sofrem de ociofobia, a lugar nenhum.

“O ócio irá representar o problema mais intenso, pois é muito duvidoso que o homem aguente a si mesmo”.
– Friedrich Dürrenmatt –

Como é possível que tenhamos chegado a ter medo do tempo livre? Nossos pais ou nossos avós o viam como um presente. O tempo de descanso era tempo de lazer ou de repouso. Em qualquer caso, jamais despertava aversão. Muito pelo contrário: era desejado. O que aconteceu?

A ociofobia e o tédio

Tudo parece indicar que o tédio tomou o status de pecado capital nos tempos atuais. Aqueles que têm ociofobia também sentem terror diante da possibilidade de ficarem entediados. Este sentimento lhes é intolerável e lhes gera, literalmente, pânico. “Perder” tempo, fazendo nada, é para eles como contrair uma praga.

Rafael Santandreu

Rafael Santandreu, fotografia de Alvaro Monge

As pessoas que se sentem dessa forma se desesperam quando não estão fazendo alguma coisa. Eles veem o tempo livre como uma poderosa ameaça. Se pudéssemos desenhar o que eles sentem, diríamos que é como se tivessem à frente deles um enorme buraco negro que ameaça absorvê-los em um abismo.

Frente aos tempos de ócio também aparecem algumas fantasias não muito definidas. É como se eles tivessem o pressentimento de que algo terrível vai acontecer. Como se o componente do ócio fosse algo desconhecido e assustador que não querem enfrentar.

Os sintomas daqueles que sofrem de ociofobia

O sintoma mais visível daqueles que sofrem de ociofobia é a ansiedadeEsta se apresenta com toda a intensidade quando ficam “desprogramados”. Quando confrontam diretamente o tempo livre, mas também aparece antes de um fim de semana em que não há planos e é aumentada antes das férias.

Essas pessoas são fortemente influenciadas pelas ideologias de eficácia e produtividade. Eles priorizaram as conquistas e as realizações, em vez da felicidade. O pior é que elas medem seu sucesso em termos quantitativos, não qualitativos. Você os ouve falar de quantas tarefas eles têm feito ou de quantos objetivos têm cumprido. Pouco mencionam sobre a qualidade real dessas realizações.

Homem boiando em água em mãos

É grave que esse tipo de pessoas tente transmitir aos seus filhos esse estilo de vida. Eles são o tipo de pais que matriculam seus filhos em quantos cursos puderem. Querem que eles falem alemão aos 10 anos e toquem piano perfeitamente aos 13. De uma forma ou de outra, eles também ensinam as crianças a serem ansiosas. Transmitem a elas a ideia de que o tempo que não dedicam a produzir ou a aprender algo é o pior dos ogros. Que viva o ócio! Que viva o tédio!

Rafael Santandreu, pai do conceito de ociofobia, diz que teríamos que aprender a ficarmos mais entediados. Não há nada de errado com isso. Não há nada de terrível em ficar uma hora olhando para a parede e pensando loucuras. Não só não existe nada de errado com isso, como é muito necessário. Trata-se de uma peça que se encaixa perfeitamente no conceito de equilíbrio. É bom trabalhar e estar interessado em algo, mas é igualmente bom descansarmos e nos entediarmos de vez em quando.

Santandreu indica que as mentes ociosas são muito mais produtivas. Inclusive indica que “A proporção ideal seria uma hora de negócio e 23 de ócio”. Lembre-se de que os leões caçam apenas uma vez por semana. E que Cervantes escreveu Don Quixote em seus momentos de lazer por Castilla. Nada foi deixado de seu trabalho como cobrador de impostos e, pelo contrário, o resultado de seu ócio produziu uma transformação do idioma e da literatura universal que chegou até nós hoje.

Miguel Cervantes

Seria bom que recuperássemos a capacidade de olhar para a paisagem enquanto caminhamos pela cidade. É necessário diminuir o ritmo, começar a ir mais devagar. É melhor fazer poucas coisas com gosto do que muitas com estresse. É melhor usar este curto tempo que é a vida para amar e criar, do que fazer relatórios e cumprir horários. Não é pecado ficarmos sem fazer nada. Não é uma praga ficarmos entediados. Muito pelo contrário: tudo isso nos faz melhores.

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