Carta de um pai que aprendeu a crescer com sua filha

· setembro 17, 2017

Ontem nasceu e hoje, depois de algumas horas, vai começar a universidade. Ontem me disseram que eu iria ser pai, em pouco tempo ela estava engatinhando e há poucos minutos estava na primeira aula de condução. Ontem nos olhava como quem olha para os deuses e hoje como alguém que olha para as pessoas de quem conhece todos e cada um dos seus defeitos, em profundidade. No meio disso se passou uma noite, uma noite em que eu fiquei pensando, abobado, vendo ela crescer…

Crescer às vezes, porque outras vezes tive que sair para trabalhar. Em outros momentos seus irmãos precisaram de mim, meus filhos; meus amigos ou meus pais; sua mãe, eu, eu também precisei de mim às vezes. Cheguei tarde em casa ou não conseguia pensar em histórias. Assim, saiu da idade das histórias inventadas para começar a experimentar como a realidade pode ser infinitamente mais cruel, da mesma forma que pode ser muito mais encantadora.

Ela queria inventar essas histórias, queria que não a superprotegêssemos e aplicássemos aquela máxima de que “o que os olhos não veem, o coração não sente” para cada passo que dava, para cada risco que assumia.
Brincadeiras entre pai a filha

As esperanças de um pai

Ontem tinha um monte de esperanças colocadas nela. Esperanças que eram todas minhas e sobre as quais ela não tinha dito nada. Pelo menos nada mais do que apontar com o copinho quando tinha sede ou encher a boca com o que tinha na frente quando tinha fome. Hoje as minhas esperanças continuam sendo minhas, mas a realidade é que ela construiu as dela e eu tive que aceitar. É um processo que levou a noite toda.

Gostaria que ela fosse advogada. Porque entendo que são pessoas que levam uma vida confortável, que se encontram em uma posição importante e que, por sua formação, adquirem um senso de justiça superior à maioria dos mortais. No entanto, ela quis ser uma jornalista.

Mas não daquelas que apresentam o telejornal, mas sim aquelas que viajam e contam sobre as guerras e dão voz a essas grandes histórias que também são anônimas. Isso me dá medo, tanto é que às vezes não me deixa dormirEnquanto isso, ela olha para mim com essa cara de que se apaixonou por alguém sem nem saber, mas com o coração. Como pai, esse olhar, o olhar dela, também me dá orgulho.

Ceder o controle

Como pai, também não foi fácil ir cedendo o controle. Sempre a vi menor do que realmente era, mais vulnerável, influenciável e inocente. Também vi como muitas vezes ela se dirigia em direção ao precipício com toda a determinação do mundo e tive que permitir que ela fizesse isso, porque por mais que eu tivesse gostado de ser o melhor professor dela, há lições que apenas a vida ensina ou que você tem que aprender com os outros.

Ela está tão bonita, tão bonita deitada. Não sei se ela sabe, mas ela é a garota mais bonita do mundo. Eu dizia isso muitas vezes e ela sorria para mim, depois ela passou a ficar corada e, no fim, me respondia com um “Papai!” (não me envergonhe).

É difícil para mim entender essa batalha que começou contra seu corpo, resgatar da minha memória aqueles momentos em que também me importava muito o que os meninos e as meninas da minha idade pensavam. Compreender que para entender, muitas vezes é preciso recordar, porque nesse exercício também encontrei a nostalgia, e meus olhos se encheram de lágrimas.

O desconforto que ir para a escola com aquele casaco horrível poderia me causar, costurado à mão nos momentos chatos da minha mãe e que pinicavam pra caramba. Não sei qual foi o casaco que eu mandei que ela levasse, pode até ter sido vários. Talvez foram aquelas aulas de conservatório que eu a obriguei a participar, até que o desinteresse dela pela música acabou com a minha vontade de que ela fosse amiga colcheias e semicolcheias. Não consegui fazer com que ela gostasse, ela arranhava na minha frente e eu me consolava pensando que era bom para ela.

Por mais que eu tivesse gostado de ser o melhor professor dela, há lições que apenas a vida ensina ou que você tem que aprender com os outros.
Coisas que um pai aprende com sua filha

Eu percebi…

Agora, se eu fosse começar de novo, creio que não te obrigaria a fazer tantas coisas boas para você. Pelo menos de fora, sem as compartilhar com você. Gostaria de ter percebido como você olhava para a bola quando era pequena e ter jogado futebol com você. Ter estado menos atento aos perigos e mais às ilusões. Ter concordado em brincar antes de você desistir de mim e encontrar outras meninas com as quais fazer isso.

Queria ter entendido antes que você era perfeitamente capaz de se proteger quando estava frio, de comer quando estava com fome. Porque essas eram as necessidades que você tinha no início, mas depois já não. Depois o que você precisava era de incentivo para todos os projetos que você iniciava, de respostas para todas as dúvidas da sua idade, da companhia de alguém que não fosse um diretor, mas um apoio, consolo. Talvez em parte tenha sido o papel que eu desempenhei, talvez seja parte de ser pai.

Dizem que as emoções são magia… e que os seres humanos podem ter tanta que somos capazes de experimentar várias emoções de uma só vez. Me sinto triste porque parte do tempo que não passamos juntos nunca mais vai voltar. Suponho que todos os pais sentem a mesma coisa em algum momento da vida, mas isso não me consola.

No entanto, o que me consola é que, agora, quando vejo você lutando suas próprias batalhas, me sinto orgulhoso por você enfrentá-las de forma honesta. Por ser você a decidi-las, sejam escolhas certas ou erradas, e por ser as que você encontrou  om paixão. Ao te ver crescer eu entendi que eu queria uma vida fácil para você, e que você quer uma vida feliz para si. Só espero que você consiga isso, e é claro, que a compartilhe comigo.

Imagens cortesia de Soosh.