Por trás de uma criança hiperativa: traumas ou estresse infantil?

fevereiro 19, 2019
Por trás de uma criança hiperativa, às vezes pode haver a marca de um trauma. Cair em um diagnóstico equivocado poderia trazer efeitos muito graves na vida da criança.

Por trás de uma criança hiperativa podem existir realidades muito delicadas. Assim, por mais impressionante que possa parecer, às vezes nos dedicamos a medicar comportamentos sem compreender primeiro quais fatores os influenciam e fundamentam. Há crianças que sofrem de estresse, outras que vivem em ambientes não estruturados, e outras que sofrem de problemas de apego…

Começaremos, antes de tudo, destacando que essa é uma questão muito delicada. Sensível para profissionais da saúde e complexa também para as famílias com crianças diagnosticadas com TDAH.

Em primeiro lugar, são muitos os psicólogos, psiquiatras e neurologistas que se queixam dessa posição por parte daqueles que assumem que o transtorno de déficit de atenção com ou sem hiperatividade não é real.

Essa síndrome comportamental apresenta um amplo espectro de manifestações e, segundo Murphy e Gordon (1998), costuma afetar entre 2 e 5% da população infantil. Aparece antes dos 7 anos e, caso não receba um diagnóstico adequado, é muito provável que na idade adulta apareçam outros problemas associados, como distúrbios de ansiedade e até depressão.

A existência de crianças hiperativas, impulsivas e com problemas de atenção tem sido documentada desde o século XIX. O pediatra britânico Sir George Frederic Still (1868-1941) foi o primeiro a descrever essa condição. Até hoje, tanto os psicólogos clínicos quanto os psiquiatras continuam a defender a realidade do TDAH.

No entanto, há um fato que enfatizam acima de tudo: a necessidade de fazer um diagnóstico correto.

Menino pequeno amarrando o cadarço

Por trás de uma criança hiperativa, nem sempre há TDAH

Há crianças nervosas, que exibem comportamentos desafiadores, violentos e perturbadores nas aulas. Da mesma forma, há também crianças inquietas e incapazes de exibir todo o seu potencial cognitivo porque as condições da sala de aula não se ajustam às suas necessidades educacionais.

Neste caso, temos duas realidades muito diferentes que não podem ser rotuladas da mesma maneira sob o termo TDAH. E é aí que a verdadeira raiz do problema se mostra. Nem todos os alunos preguiçosos, indisciplinados, que incomodam ou tendem a ter acessos de raiva podem se enquadrar na mesma categoria. Eles se beneficiarão muito de uma adaptação curricular específica para essa síndrome comportamental.

No entanto, outras crianças precisarão de outro tipo de assistência. Porque às vezes, por trás de uma criança hiperativa, há um trauma. Nesses casos, nem adaptações escolares nem medicamentos podem consertar, por exemplo, um ambiente familiar abusivo, caótico ou desestruturado.

A história de um caso

Nicole Brown é uma psiquiatra infantil que trabalha no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore. O seu caso particular foi publicado em diversas mídias com um propósito específico: sensibilizar escolas, médicos, psicólogos e psiquiatras sobre a necessidade de realizar diagnósticos mais precisos, sensíveis e ajustados.

No encontro anual das Sociedades Acadêmicas Pediátricas, o Dr. Brown apresentou uma riqueza de informações coletadas ao longo de seus anos de trabalho no hospital psiquiátrico. Ele relatou que uma grande parte das crianças diagnosticadas com TDAH não tinham o transtorno, e que por trás de uma criança hiperativa, o que havia muitas vezes era hipervigilância, estresse e dissociação, ou seja, um trauma.

Eram aqueles casos em que nem a terapia comportamental nem os estimulantes funcionavam. Eram situações mais delicadas, nas quais a origem era uma família disfuncional ou um evento traumático sofrido em algum momento.

Pais brigando na frente da filha

A importância do diagnóstico

Os médicos Marc Ferrer, Óscar Andió e Natalia Calvo conduziram um estudo interessante para diferenciar a sintomatologia na vida adulta dos traumas, dos transtornos de personalidade borderline e TDAH. Sabe-se que marcas traumáticas causam comportamentos muito semelhantes à hiperatividade e que, à medida que a criança cresce e se torna adulta, seus efeitos são muito mais adversos.

  • Detectar a existência desse tipo de realidade em uma idade precoce é, portanto, essencial.
  • O comportamento desatento, impulsivo e nervoso não corresponde em 100% dos casos ao TDAH, e isso é algo que os educadores devem saber, bem como qualquer pessoa que trabalhe diariamente com crianças.
  • Às vezes, por trás da criança hiperativa, há adversidade, sofrimento familiar e estresse infantil.
  • Desta forma, os bons profissionais, psiquiatras infantis e psicólogos clínicos sabem bem que qualquer avaliação inclui também a família e o ambiente às vezes complexo em que algumas crianças vivem.

Menina jogando xadrez

Da mesma forma, outro aspecto também deve ser ressaltado: os pais e as mães com filhos diagnosticados corretamente com TDAH sabem que eles não são responsáveis por essa síndrome comportamental.

O que eles têm pela frente, no entanto, é um processo no qual devem cuidar (em conjunto com a escola) daquelas necessidades específicas exigidas por esses pequenos, que costumam ser tão brilhantes e cheios de possibilidades.

  • Ferrer, M., Andión, Ó., Calvo, N., Ramos-Quiroga, JA, Prat, M., Corrales, M., y Casas, M. (2017). Diferencias en la asociación entre el historial de trauma infantil y el trastorno límite de la personalidad o el diagnóstico de trastorno por déficit de atención / hiperactividad en la edad adulta. Archivos Europeos de Psiquiatría y Neurociencia Clínica267(6), 541–549. https://doi.org/10.1007/s00406-016-0733-2
  • Ladnier, RD, y Massanari, AE (2000). Tratar el TDAH como trastorno de hiperactividad por déficit de apego. En TM Levy & TM Levy (Ed) (Eds.), Manual de intervenciones de apego.(pp. 27-65). Prensa Académica. https://doi.org/10.1016/B978-012445860-4/50003-4