Qual é a relação entre classe social e desumanização?

· março 19, 2019
Desumanizamos os ricos? Ou os pobres? Descubra no artigo a seguir.

Desumanizar consiste em negar a outras pessoas alguns traços humanos. Em outras palavras, desumanizar consiste em considerar alguém menos humano. Geralmente, a desumanização ocorre em relação a membros de grupos. Ou seja, consideramos menos humanas algumas pessoas só porque elas pertencem a um determinado grupo. A classe social é um desses determinantes para a desumanização.

Ainda que existam diversas diferenças que podem levar a classificações das pessoas em grupos, até hoje uma das mais importantes é a classe social. A classe social é uma forma de estratificação social na qual um grupo de indivíduos compartilha uma característica comum que os vincula social ou economicamente.

Dessa forma, falando de uma forma geral, podemos diferenciar pelo menos duas classes sociais: os ricos e os pobres. As pessoas, independentemente da classe social à qual pertencem, podem olhar com desumanização para um desses dois grupos.

Homem atuando

Como desumanizamos?

Desumanizar consiste em crer que alguém é menos humano. No entanto, existem diferentes formas de desumanização. Mais especificamente, podemos destacar duas formas: a animalização e a mecanização. Segundo o modelo dual de Haslam (2006), há duas formas de desumanização, que surgem quando negamos traços que são típicos dos humanos. Dependendo do traço que estamos negando, estamos animalizando ou mecanizando o ser humano.

“A desumanização, ainda que seja um fato histórico concreto, não é um destino dado e sim o resultado de uma ordem injusta que envolve violência por parte de opressores, que por sua vez desumaniza os oprimidos”.
-Paulo Freire-

Dessa forma, por um lado, animalizar consiste em negar os traços que são exclusivamente humanos. Esses traços são os que distinguem os seres humanos dos animais. Por exemplo, a aptidão cognitiva, a educação, e ser civilizado.

Por outro lado, mecanizar consiste em negar os traços que são típicos da natureza humana, mas não necessariamente únicos quando comparamos os seres humanos a outros animais, como por exemplo a capacidade de sentir emoções e o afeto. Dessa forma, os grupos que têm as características que os fazem humanos negadas são comparados a animais, e os que têm a sua natureza humana negada são comparados a objetos sem vida, como robôs ou autômatos.

Funções da desumanização

Para que serve a desumanização? Ela apresenta três funções principais. Em primeiro lugar, desumanizar um outro grupo serve para justificar ações violentas e a violência em si. Quando consideramos que os membros de um grupo são menos humanos, é mais fácil que pensemos que temos direitos sobre seus membros. Dessa forma, estará justificado o uso da violência quando eles não se comportarem como esperamos.

Em segundo lugar, a desumanização legitima o status quo quando falamos de classes sociais. Há grupos que têm mais status do que outros, que têm menos. Dessa forma, se outro grupo é desumanizado e, por isso, considerado menos humano, também terá menos status. Dessa forma, nosso grupo será superior ao outro que foi ou está sendo desumanizado.

“Era tão terrível que já não era terrível, só estava desumanizado”.
-F. Scott Fitzgerald-

Em terceiro lugar, desumanizar afeta também a moral, eliminando-a. Todos nós possuímos valores morais que regem nosso comportamento, como por exemplo considerar que matar não é algo correto a se fazer. No entanto, esses valores se aplicam apenas ao humanos.

Dessa forma, se não considerarmos uma pessoa humana, será muito mais fácil usar a violência contra ela, ainda que nossos valores teoricamente nos impedissem. Pense em como os nazistas chamavam os judeus de baratas.

Crianças embaixo de um varal de roupa

A desumanização de acordo com a classe social

O classismo é entendido como um conjunto de atitudes, ações, crenças e comportamentos dirigidos a um grupo de pessoas como consequência dos mesmos pertencerem a uma classe social ou a um status socioeconômico determinado. Pode acontecer tanto em relação a classes sociais mais avantajadas quanto mais pobres. Ou seja, o classismo é o modo de ver os mais riscos ou os mais pobres. Dessa forma, uma consequência do classismo pode ser a desumanização em relação à classe social, ou seja, considerar menos humano aquele mais rico ou aquele mais pobre.

No caso dos pobres, eles costumam ser animalizados. Os pobres acabam sendo considerados menos humanos e mais animais. Alguns dos traços típicos que negam a eles são a educação cívica, a capacidade de racionalizar e o refinamento. Os pobres são considerados animais sem a capacidade de sair daquela situação.

No caso dos ricos, geralmente os mesmos não são animalizados. Ao contrário do que acontece com os pobres, os ricos são mecanizados. Não é comum pensar que os ricos não têm educação ou muito menos que não têm refinamento. No entanto, podemos negar a eles a capacidade emotiva e o afeto. Dessa forma, os ricos são considerados frios, sem sentimentos, sem empatia. Ou seja, são como máquinas.

Em conjunto, a desumanização de acordo com a classe social diria que os ricos são como máquinas, e os pobres como animais. Dessa forma, os grupos da classe média manteriam o seu status quo. A consequência é que os pobres são tratados com desprezo, como animais, o que permitiria comportamentos depreciativos contra esse coletivo. Do mesmo modo, os ricos seriam tratados com um certo distanciamento, com medo e respeito, porque eles seriam considerados incapazes de qualquer coisa além de perseguir e alcançar seus próprios objetivos.

  • Sainz Martínez, M. (2018). Consecuencias de la animalización de los pobres y la mecanización de los ricos en el mantenimiento de las diferencias socioeconómicas (tesis doctoral). Universidad de Granada. Recuperada de http://digibug.ugr.es/bitstream/handle/10481/52432/29111924.pdf?sequence=4&;isAllowed=y
  • Sainz, M., Martínez, R., Moya, M., & Rodríguez-Bailón, R. (2018). Animalizing the disadvantaged, mechanizing the wealthy: The convergence of socioeconomic status and humanity attributions. International Journal of Psychology. doi:10.1002/ijop.12485