Querido eu, desculpe por te machucar tanto

setembro 11, 2019
Às vezes, traímos a nós mesmos para obter a aprovação dos outros. Agimos com mil disfarces que escondem a nossa verdadeira identidade. O problema é o preço que pagamos: uma grande dose de sofrimento e solidão.

Querido eu, desculpe por te machucar tanto. Agora que você está em frente ao espelho e que tenho a coragem de te olhar nos olhos, quero que me ouça atentamente. Tenho tanto a te dizer, tanto a lamentar, que não posso continuar vivendo como se nada tivesse acontecido. Não é justo.

Mais de uma vez tentei manter essa conversa com você, mas não estava preparada. O medo, a decepção e o sofrimento por encarar tudo o que fiz com você nesses anos se agarraram à minha garganta e me impediram de expressar qualquer palavra…

Preferia fingir que nada havia acontecido, na verdade cheguei a acreditar.

Sabe? Às vezes, acreditamos estar preparados, pensamos que somos fortes e que podemos fazer tudo, mas também nos enganamos. É isso que aconteceu comigo: andava com uma venda sobre os meus olhos…

Agora, posso te olhar cara a cara e te reconhecer no espelho. Não corro mais de você ou dos meus complexos. Você não é mais invisível para mim. Eu te vejo, me vejo, nos vejo. Nos aceito.

Esse reencontro, essa redescoberta me deixou muito feliz, mas ainda sinto um espinho preso que não me deixa desfrutar plenamente de ti. Afinal, o que é uma reconciliação sem uma desculpa? Por isso, com a intenção de fortalecer esse vínculo, escrevi esta carta.

“A pior solidão é não se sentir confortável consigo mesmo”.
-Mark Twain-

Solidão consigo mesmo

Perdoe-me por tanta incompreensão

Querido eu, desculpe por te machucar tanto. Por te esquecer, por te colocar em segundo plano, até mesmo por te negar e te disfarçar de quem você não era. Por te camuflar, te colocar máscaras…

Eu sei. Me envergonhar de você te machucou muito. O sentimento de rejeição é uma das feridas emocionais mais profundas que podemos experimentar.

Eu neguei você e com isso eu neguei a mim. Esconder quem somos é uma das piores traições que podemos cometer. É se tornar invisível para si mesmo. E como isso dói!

Não deixo de pensar sobre o quão mal pensei sobre você, sobre mim, sobre nós. O desprezo que tinha por nós. Não havia nada que fizesse bem. Eu me lembro de como te prendi para te culpar e te deixar mal sem defesas.

Não importava se tinha relação com o físico, a personalidade ou um comportamento pontual, eu não te suportava. Nestes momentos acreditava que você não tinha nada para me oferecer, nada que eu pudesse valorizar…

Querido eu, perdão por exigir demais de você, por te bater com palavras destrutivas e criticar tudo o que não correspondeu às minhas expectativas. Eu sei que, quando falava com você, eu era indelicada, e que quando você esperava um gesto de afeto, eu respondia friamente.

Me perdoe. Em vez de te abraçar, me distanciei, e isso gerou uma espiral cada vez mais profunda de desconforto.

Tantas vezes eu te silenciei, embora você me pedisse ajuda por dentro… me desculpe. Me fechei para você, para mim, para nós até que não pudesse mais, até que meu peito explodiu pela pressão que senti e meu humor não lembrava como era se sentir bem, calma e feliz. Me destruí.

E embora eu não queira essa situação para ninguém, graças ao meu naufrágio eu descobri que você ainda existia, que você estava lá, esperando meus olhos se voltarem para você em algum momento. Mais uma vez, desculpe por te machucar tanto.

Carta para o meu eu interior

Querido eu, quero propor um acordo

Querido eu, de agora em diante, quero que esse vínculo que temos seja diferente. Quero te proteger. Por isso, proponho um acordo: vamos apostar em nós. Eu por você e você por mim. Sejamos um só, em vez do falso herói e do carrasco. Sejamos cúmplices.

Eu prometo te escutar, embora às vezes doa. Eu sei que você tem coisas importantes para me dizer. Agora eu não vou roubar sua voz, muito pelo contrário. Se estiver em minhas mãos, farei você se expressar mais forte.

Quero te conhecer, te redescobrir, conhecer todos os seus detalhes: o que gosta e o que não gosta, o que você tem de bom e o que tem a melhorar… Tudo.

Não garanto que isso não irá te machucar, isso é impossível. Todos nós cometemos erros, mas o que eu digo é que não farei nada com má intenção e que pensarei em nós. Na nossa felicidade, em ser quem somos.

Porque depois de experimentar milhares de disfarces percebi que, se não for com você, não será com ninguém. Tenho saboreado o preço da traição e posso dizer que é uma das piores experiências que tive.

Eu vou te respeitar e quando você se sentir mal, vou me preocupar com você. Vou me colocar no seu lugar, em tudo que você viveu, vou tentar entender você.

Em vez de te culpar, de indagar os porquês, vou perguntar os seus para quês. Porque só assim poderei entender o que acontece com você, o que te afasta e o que te preocupa.

Vou abraçar seus medos e suas feridas. Tudo que aprendi me ensinou que é impossível avançar sem dialogar, escutar e compreender. Lutar com raiva e ódio só me separa de você e me mergulha em desgosto, tristeza e dor. E eu não quero isso para você ou para mim.

Eu sei que a vida é difícil e que haverá momentos de tensão e de fracasso, momentos em que gostaríamos de não continuar ou mudar o caminho, mas deixe-me percorrê-los ao seu lado. Eu sei que te machuquei, te desapontei, mas vamos tentar.

Quero construir pontes em direção ao bem-estar e a aceitação. Quero que sejamos um em vez de dois, quero que esse vínculo cresça e nos encha de paz e amor. Quero segurar sua mão novamente, para não te soltar mais.

O que você me diz, aceita o acordo?

“O relacionamento mais importante que você terá é o relacionamento com você mesmo”.
-Steve Maraboli-