Relativismo moral: diferenciando o bem e o mal

· setembro 3, 2017

A moral é entendida como um conjunto de normas, crenças, valores e costumes que orientam o comportamento das pessoas (Stanford University, 2011). A moral é o que determina o que está certo e o que está errado e vai nos permitir discriminar quais ações ou pensamentos são corretos ou adequados e quais não o são. No entanto, uma coisa que parece tão óbvia no papel provoca dúvidas quando começamos a nos aprofundar na questão. Uma resposta a essas dúvidas e as aparentes contradições que provocam é o que se denomina relativismo moral.

A moral não é objetiva nem universal. Dentro de uma mesma cultura, podemos encontrar diferenças na moralidade, mesmo que normalmente menores do que as que encontramos entre diferentes culturas. Assim, se compararmos a moral de duas culturas, essas diferenças podem se mostrar muito maiores. Além disso, dentro de uma mesma sociedade, a convivência de várias religiões também pode evidenciar muitas diferenças (Rachels y Rachels, 2011).

O conceito de ética é bastante relacionado ao conceito de moral. A ética (Internet Encyclopedia of Philosophy) é a busca dos princípios universais da moralidade (apesar de alguns autores, como Gustavo Bueno, considerarem que ética e moral são a mesma coisa).

Para isso, quem estuda a ética analisa a moralidade em diferentes culturas a fim de encontrar coisas em comum, o que seriam os princípios universais. No mundo, os comportamentos éticos estão estabelecidos, oficialmente, na declaração dos direitos humanos.

Relativismo moral

Moral ocidental

Anos atrás, Nietzsche (1996) tachou a moral ocidental como moral de escravos, já que essa moral considerava que as ações mais elevadas não poderiam ser obra dos homens, mas de um Deus projetado fora de nós. Essa moral, a qual Nietzsche evitava, é considerada judaico-cristã por suas origens.

Apesar das críticas dos filósofos, essa moral continua vigente, mesmo apresentando algumas mudanças mais liberais. Dado o colonialismo e o domínio do ocidente no mundo, a moral judaico-cristã é a mais difundida. Esse fato, por vezes, pode provocar problemas.

Esse pensamento que considera que cada cultura tem uma moral se denomina relativismo cultural. Desse modo, há pessoas que rejeitam os direitos humanos em prol de outros códigos de bons comportamentos, como podem ser o Alcorão ou os Vedas da cultura hindu (Santos, 2002).

Relativismo cultural

Analisar outra moral a partir do ponto de vista da nossa moral pode ser uma prática totalizadora. Normalmente, ao agir dessa maneira, a avaliação tende a ser negativa e estereotipada. Por isso, quase sempre vamos rejeitar morais que não se adaptam à nossa, questionando inclusive as habilidades morais das pessoas que têm outra moralidade.

Para compreender como as diferentes morais interagem, vamos analisar as explicações de Wittgenstein (1989). Ele explica a moral com um esquema bem simples. Para entender melhor, é possível realizar um simples exercício: pegue uma folha e desenhe aleatoriamente vários círculos. Cada círculo vai representar uma moralidade diferente. No que diz respeito às relações entre os círculos, há três possibilidades:

  • Não haver espaços em comum entre os círculos.
  • Um círculo estar localizado dentro de outro círculo.
  • Dois círculos compartilharem uma parte do seu espaço, mas não a totalidade.
Bolhas de sabão

Evidentemente, o fato de dois círculos dividirem um mesmo espaço vai indicar que duas morais têm aspectos em comum. Além disso, dependendo da proporção de espaço compartilhado, vão ter mais ou menos coisas em comum. Assim como alguns círculos, diferentes morais se sobrepõem, ao mesmo tempo em que divergem em relação a muitos posicionamentos. Também existem círculos maiores, que representam morais que possuem mais normas, e outros menores, que apenas se referem a aspectos mais específicos.

O relativismo moral

No entanto, existe outro paradigma que propõe que não existe uma moral em cada cultura. O relativismo moral propõe que cada pessoa tem uma moral diferente (Lukes, 2011). Imagine que cada círculo do esquema anterior é a moral de uma pessoa em vez da moral de uma cultura. A partir desse ponto de vista, todas as morais são aceitas, independentemente do lugar de origem e do contexto. Dentro do relativismo cultural existem três posicionamentos diferentes:

  • O relativismo moral descritivo (Swoyer, 2003): essa perspectiva define que existem divergências em relação aos comportamentos considerados corretos, inclusive quando as consequências de tais comportamentos são as mesmas. Os relativistas descritivos não defendem necessariamente a tolerância de qualquer comportamento à luz de tais divergências.
  • O relativismo moral meta-ético (Gowans, 2015): segundo essa perspectiva, a verdade ou a falsidade de um julgamento não é a mesma universalmente, com isso não se pode dizer que seja objetiva. Os julgamentos serão relativos ao serem comparados com as tradições, as convicções, as crenças ou as práticas de uma comunidade humana.
  • O relativismo moral normativo (Swoyer, 2003): a partir dessa perspectiva, entende-se que não existem padrões morais universais. Por isso, não é possível julgar as pessoas. Todo comportamento deve ser tolerado, inclusive quando for contrário às crenças que possuímos.
Relativismo moral

O fato de que uma moral explique uma maior gama de comportamentos ou de que mais pessoas estejam de acordo com uma moral específica não implica que ela seja correta, mas também não a define como incorreta. O relativismo moral assume que há diversas morais que vão dar lugar a divergências, que não darão lugar a um conflito apenas quando houver diálogo e compreensão (Santos, 2002). Assim, encontrar pontos em comum é a melhor maneira de estabelecer uma relação saudável, tanto entre pessoas como entre culturas.

Bibliografia

Gowans, C. (2015). Moral relativism. Stanford University. Link: https://plato.stanford.edu/entries/moral-relativism/#ForArg

Internet encyclopedia of philosophy. Link: http://www.iep.utm.edu/ethics

Lukes, S. (2011). Relativismo moral. Barcelona: Paidós.

Nietzsche, F. W. (1996). La genealogía de la moral. Madrid: Alianza Editorial.

Rachels, J. Rachels, S. (2011). The elements of moral philosophy. New York: McGraw-Hill.

Santos, B. S. (2002). Hacia una concepción multicultural de los derechos humanos. El Otro Derecho, (28), 59-83.

Stanford University (2011). “The definition of morality”. Stanford Encyclopedia of Philosophy. Palo Alto: Stanford University.

Swoyer, C. (2003). Relativism. Stanford University. Link: https://plato.stanford.edu/entries/relativism/#1.2

Wittgenstein, L. (1989). Conferencia sobre ética. Barcelona: Paidós.