Qual é a verdadeira revolução da psicologia positiva?

· fevereiro 21, 2019

Poucos campos da psicologia se tornaram tão populares quanto a psicologia positiva. Mas o que é a revolução da psicologia positiva? Graças a ela, nós começamos a tomar consciência de quão importantes são as nossas emoções.

Em algum momento da história do mundo ocidental, passado o período obscuro da Idade Média, com o movimento do Iluminismo, a razão começou a ganhar espaço em relação à fé dominante até então. A lógica dos iluministas chegou até a ciência e lembrou que nem a Terra é o centro do universo e nem o homem é o centro da natureza.

Nietzche matou simbolicamente o até então intocável Deus. “Deus está morto”, o que paradoxalmente, ainda que o tempo verbal dê a entender, não quer dizer que Nietzche achava que em algum momento Deus tenha estado vivo.

Foi Thomas Hobbes quem disse que o pior inimigo está na nossa própria casa, já que o homem é o lobo do homem. Ou seja, de algum modo seria melhor que o homem também estivesse morto para o homem.

Seguindo esse fluxo, morto o homem, debilitado, analisado com uma lupa, como se fosse um grão de areia em um cosmos imenso, a psicologia também mudou seu olhar. Direcionou-o para nossos processos mais íntimos: estamos falando das emoções.

Foi assim que o século XXI se tornou o século das emoções. Das inteligências múltiplas, sim, mas sobretudo da inteligência emocional. Aquela que nos ajuda a lidar com o lobo do homem, tanto o que habita nas outras pessoas que nos acompanham quanto, e principalmente, aquele que habita em nós mesmos.

Caracol sobre concha

A revolução da psicologia positiva: um olhar diferente a partir de olhos diferentes

Talvez o maior feito da psicologia, e o que caracteriza a revolução da psicologia positiva, seja o de ter sido capaz de se modificar e mudar o que nos irritava. Explico-me melhor. Aqueles que já estudaram psicologia na universidade, e portanto que já estudaram a metodologia dessa área, lembrarão que um dos maiores problemas que pode surgir em uma pesquisa é a existência de casos atípicos.

São os chamados outliers. Estamos falando daqueles casos que se afastam muito do que é esperado e do resto do grupo, tendo em conta diferentes fontes de coleta, como por exemplo uma pessoa que tira notas muito diferentes do grupo em alguma avaliação.

Muitos pesquisadores vão olhar para esse sujeito e considerá-lo uma fonte de erro. Há inclusive uma enorme quantidade de procedimentos estatísticos que servem para que esse tipo de valor fora da curva não influencie os dados na hora de tirar uma conclusão em alguma análise de pesquisa.

Na verdade, falei que havia algo irritante na psicologia porque uma das razões mais frequentes para esse tipo de dado anômalo ou diferente é que tenha havido um erro de medição ou de codificação (momento em que se passam os dados para o programa de computador que faz cálculos estatísticos).

Vejamos um exemplo. Imaginemos que um psicólogo tenha administrado uma prova que quer medir a ansiedade em um grupo de pessoas. São 15 perguntas, e em cada uma delas podemos pontuar 1 ou 0, de modo que a pontuação máxima da prova é 15. Uma vez que colocamos os dados no computador, percebemos que há uma pessoa com a pontuação de 113. Logicamente essa pontuação é impossível. O mais provável é que tenhamos errado na hora de passar os dados.

Esse caso é bem evidente, mas há outros em que o erro não é tão óbvio ou claro. Se tivéssemos introduzido 11 ao invés de 1, o dado também estaria errado mas não chamaria a nossa atenção. Aparentemente não haveria nenhum caso atípico e não teríamos feito nada de errado.

Se dermos um passo a mais podemos ver uma situação em que isso faria muita diferença: imaginemos que todas as pessoas menos uma obtêm uma pontuação entre 2 e 5. Olhamos os dados e percebemos um outlier. Nossa pessoa atípica tem uma pontuação de 14. Estranho, não é mesmo?

O que vamos fazer com esse 14? Bom, conforme falamos anteriormente, a estatística gera diversas soluções para o nosso valor atípico. Pense que, como dizia minha querida diretora da época do mestrado, os estatísticos vivem para isso. As soluções existem tanto para um caso único que se sobressai em relação aos demais quanto para alguns casos. A maioria dessas soluções vai no mesmo sentido: tentar limitar sua influência o máximo possível na hora de analisar os padrões das pessoas. O que importa na hora de descrever um conjunto de coisas, afinal, é a maioria.

Avião saindo da rota

A revolução da psicologia positiva é estudar a felicidade onde ela está, e não onde falta

Se você entendeu o que falamos até aqui, vamos deixar os métodos estatísticos um pouco de lado para explicar por que falamos que houve uma revolução da psicologia positiva. Seu objeto de estudo não são e nunca foram as pontuações esperadas, aquelas que se encontram ao redor da média, mas sim aquelas que estão precisamente bem longe da média, sendo valores atípicos e geralmente depreciados.

O que acontece em um consulta ou sessão de terapia não escapa a essa reflexão. Cuidado, porque muitas vezes o que nós psicólogos buscamos é que nosso paciente ou cliente esteja dentro da normalidade, mas se aproximar da normalidade significa aproximar-se da média. E se ele estiver longe disso?

Você pode me dizer que eu estou enganado e que a psicologia já havia feito isso. Pesquisadores já tinham estudado quem pontuava em uma escala de ansiedade de forma, por exemplo, muito alta. Ou quem, durante um conflito, entrava em depressão profunda. O que não havia sido estudado ainda, no entanto, era quem se mostrava um sujeito atípico “para o bem”.

Por exemplo, aqueles que diante de uma situação potencialmente ansiogênica mostravam níveis controlados de ansiedade. Ou aqueles que eram capazes de se recuperar muito rapidamente depois de um fato potencialmente traumático.

A psicologia positiva disse que temos que começar a estudar essas pessoas que são atípicas em uma direção que até poucos anos era completamente ignorada – a direção da saúde em vez da direção da doença – separadamente para minimizar o erro”.

Essa mudança, ao mesmo tempo, tem sido uma enorme injeção de esperança. É uma maneira de dizer: também temos exemplos que nos dizem que podemos ser bons, que o anormal vai além da doença e do patológico, que há anormalidades que, na verdade, queremos que se tornem mais habituais. Essa é a revolução da psicologia positiva.

Estudemos esses sujeitos extraordinários antes de apagá-los no meio da estatística. São eles que podem nos ajudar a melhorar a média, porque eles têm o que é preciso, conhecem o caminho: para memorizar melhor, para ficar mais calmo, para ser mais resiliente…

Um dos principais pilares sobre o qual a psicologia cognitiva trabalha é aquele que afirma que não reagimos diante da realidade, e sim diante do percebido.

Como se sentir feliz

Se percebermos que um tigre está vindo em nossa direção, e não notarmos que há um obstáculo que o impeça de se lançar sobre nós, o normal é que entremos em pânico. Isso não significa, no entanto, que esse obstáculo não exista: pode ser que o tigre esteja amarrado a alguma coisa que o impeça de chegar até nós, de modo que seja impossível que ele nos faça qualquer coisa. Nosso coração, mesmo assim, começa a bater com mais força.

Trabalhar com o percebido no caso do tigre é uma grande desvantagem. A psicologia positiva, no entanto, diz que essa distância, esse filtro em relação ao que compõe o mundo que percebemos, filtrando nossos sentidos, é algo que pode ser colocado a nosso favor.

Pense bem: quantos desafios você já enfrentou com a sensação de que, antes mesmo de começar, você estava totalmente perdido? E em quantos desafios você tinha tanta garra antes de começar que ela acabou fazendo com que você superasse obstáculos muito mais complexos e complicados?

Sim. Esse segundo caso é o que importa para a psicologia positiva. O modo de funcionamento dele. A revolução da psicologia positiva e sua atenção às emoções são precisamente o que pode nos mostrar como sermos extraordinários.

  • Peterson, Ch. y Seligman, M. (2004). Character Strengths and Virtues: A Handbook and Classification. Oxford University Press. Seligman, M. (2002). La auténtica felicidad. Ediciones B.