A rotina, um oceano de águas profundas – A mente é maravilhosa

A rotina, um oceano de águas profundas

novembro 24, 2017 em Psicologia 9 Compartilhados
a rotina

O que você vai fazer hoje? A mesma coisa que eu fiz ontem, o mesmo que eu farei amanhã: aquilo que dita a rotina. Eu vou acordar, tomar café, me vestir, ir até o metrô atrasado, perder a condução, chegar tarde ou justo a tempo, me encontrar com alguém, fazer que alguns papéis desapareçam da minha mesa e colocar outros no lugar e quando chegar na hora do café, eu vou ter uma conversa boba sobre o último capítulo da série que emitiram ontem pela televisão.

Eu vou sair tarde, para adiantar um pouco o trabalho e quando chegar a sexta-feira terei tempo de sair com todo mundo. Em casa, me esperam as coisas do lar. Claro, vou assistir um filme e depois cair na cama imaginando possibilidades para uma vida que agora mesmo carece delas. Rotina, é claro.

E pode ser que Raphael Giordano tenha razão e nossa vida só comece realmente quando percebemos que ela é única. Que só nos damos conta disso quando passamos por uma experiência que nos faça reconsiderar toda a nossa existência em apenas um segundo. Uma experiência estranha, descrita como mágica por aqueles que já passaram por isso, precisamente porque elas têm o poder de botar ordem nas nossas prioridades.

“Essas experiências também promovem outro tipo de poder: nos lembrar de que o futuro com o qual contamos não é uma certeza”.

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Animais com hábitos

Dizem os especialistas que o homem é um animal com hábitos e que não existe nada como um hábito para transformar a vontade e a forma de pensar. Se é o hábito que faz o monge, então ele deve ser frequente, constante e dedicado. Esse colarinho que nós vestimos todos os dias para não ir despidos e passear vulneráveis pela vida.

Tanto o hábito quanto o costume remetem à rotina. Uma ordem que se repete de forma mais ou menos frequente e que nos traz segurança. Separando a dúvida: nos proporciona estratégias já conhecidas para ter sucesso ao abordar problemas que aparecem habitualmente.

Além do mais, a rotina economiza uma enorme quantidade de energia. É igual a um programa de computador que funciona sozinho, não precisamos nem pensar e tampouco esboçar. Já fizemos isso alguma vez e vamos nos aperfeiçoando com o tempo. Por exemplo, no começo, utilizávamos o ônibus para ir ao trabalho, porém um dia suspenderam a linha e descobrimos que o metrô é bem mais rápido, ao contrário do imaginado. É a própria realidade e também o êxito de nossas estratégias o que preenche a nossa agenda.

Você se imagina pensando todo dia: O que vou tomar de café da manhã? Como vou trabalhar? A que horas farei a minha pausa? São dúvidas que em nosso programa, aperfeiçoadas com o tempo, já estão solucionadas. Então, porque criar um problema onde na realidade ele não existe? Porque gastar mais recursos do que os necessários para sobreviver se temos uma rotina?

“A maioria das coisas que acontecem na nossa vida dependem do que acontecem aqui em cima, na cabeça”.
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A rotina: uma ajuda ou prisão?

No entanto, pode chegar um momento, quando a rotina é muito rígida e não encontramos momentos para descansar, em que podemos nos sentir sobrecarregados. Certamente, você já conhece essa sensação.

O que antes nos ajudava agora se transforma em uma prisão onde falta oxigênio. Pensamos em quebrar essa cela, até fantasiamos sobre isso, mas depois na realidade não ter uma rotina nos exige, pelo menos no começo, o esforço de sair de nossa zona de conforto. É uma sensação ambígua de querer e não querer e confrontando essa dúvida acabamos fazendo sempre a mesma coisa.

Mas, quais são os sintomas dessa espécie de doença da rotina aguda? São vários: falta de motivação, sensação de cansaço, uma certa melancolia ou nostalgia, mudanças de humor, apatia, desencanto… e essa opressiva sensação de que temos tudo, ou quase tudo, para ser felizes, mas não somos.

Falamos dessa sensação de vazio, indeterminada e incômoda para a qual não conseguimos identificar claramente uma razão. Por outro lado, todas as mudanças que imaginamos, bem analisadas, acabam parecendo um pouco absurdas: porque vamos tentar de novo ir de ônibus ao trabalho se já verificamos que demora mais tempo? Porque vamos mudar o café da manhã se faz bem e nos proporciona energia?

Também discorremos sobre uma falta de novos objetivos que substituam aquilo que já alcançamos. Estes novos objetivos seriam somente a parte visível do iceberg, aquilo que eles nos proporcionam na realidade é ilusão. Então, quando faltam novos objetivos é difícil que essa ilusão esteja presente.

Pode ser que a opressão da rotina seja uma doença menor ou própria de pessoas com recursos suficientes que precisam se preocupar com questões superficiais…ou pode ser que não, porque é verdade que se combinada com outros elementos, como a solidão percebemos que é uma das causas mais comuns pelas quais os pacientes recorrem à terapia. Ou seja, é um dos principais motivos de sofrimento.

“Giordano nos diz no seu livro, com um pouco de humor e também seriedade, que essa prisão na qual a rotina pode vir a se transformar tem tanto poder que pode chegar a diminuir a cota de humor de um país inteiro”.
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Rotina: sim ou não?

A melhor forma de quebrar a rotina e a planificação está relacionada com a improvisação. Em realizar novas tarefas onde antecipamos aquilo de que gostamos, mas também fazer de vez em quando algo de que não gostemos e que outras pessoas, por exemplo, nos recomendem. Pode ser que nos surpreenda, uma surpresa que pode ser a melhor solução para enfraquecer as pegas da prisão da qual nos sentimos prisioneiros.

Nesse sentido, existe uma área da personalidade que reúne vários modelos: falamos da “abertura para a experiência”. Pois bem, essa é a área idônea para cultivar, pelo menos de vez em quando, se não queremos que a rotina se alimente dia após dia e se transforme em um poderoso monstro que termine superando nossas forças.

Finalmente, podemos considerar que a rotina assume uma enorme economia em energia, mas também pode se transformar em um grande desperdício quando deixamos de dominá-la e passamos a ser dominados por ela, quando o risco perde toda a sua atração contra àquilo aparentemente seguro, que já repetimos com sucesso inúmeras vezes.

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