Sempre acho que estou doente: o que está acontecendo comigo?

Você já pensou "Eu sempre acho que estou doente"? Em certos casos, o desconforto físico inexplicável pode ser um sinal de problemas emocionais não resolvidos.
Sempre acho que estou doente: o que está acontecendo comigo?

Última atualização: 25 março, 2022

A saúde física condiciona a nossa qualidade de vida de forma significativa. É por isso que é aconselhável fazer um check-up com frequência. No entanto, em alguns casos, as preocupações com a saúde podem chegar a extremos que não são nada positivos. “Sempre acho que estou doente” é algo dito pelas pessoas que passam por essa situação, mas que não conseguem encontrar a raiz do problema. Nesse ponto, é mais provável que não haja explicação fisiológica para a sua condição e elas passem a buscar outras opiniões.

Sentir-se doente o tempo todo – mesmo depois de ter procurado um especialista – ou acreditar que corremos o risco de adoecer é um possível indício de problemas psicológicos. Diante desta situação, existem diferentes alternativas que podemos considerar.

Acho que estou doente com frequência, mas não sei por que

Como espécie, somos muito vulneráveis em vários aspectos. Por isso, até certo ponto, é normal pensarmos na nossa saúde e mantermos hábitos como, por exemplo, fazer exercícios ou comer de forma saudável. No entanto, existem pessoas que desenvolvem uma preocupação anormal com a própria saúde, o que pode ter várias causas.

Nesses casos, as ideias relacionadas à saúde interferem na qualidade de vida dos pacientes. Eles podem parar de socializar por medo de se contagiarem com uma doença perigosa, até mesmo quando isso é pouco provável. Da mesma forma, também podem ter problemas no trabalho, nos relacionamentos amorosos e, em geral, com a sua qualidade de vida.

A frase “sempre acho que estou doente” vem acompanhada de sentimentos, tais como medo e angústia, que passam a fazer parte do cotidiano. A longo prazo, o constante estado de estresse pode acabar causando condições severas. Então, por que surge essa preocupação?

mulher com medo

Delírio hipocondríaco

O transtorno delirante é um transtorno psicológico caracterizado pela presença de uma ou mais crenças delirantes. Por delírio, estamos nos referindo a uma ideia que altera a maneira como percebemos o mundo e a nós mesmos. Essa percepção não pode ser mudada, ainda que sejam apresentadas evidências em contrário.

Dentro deste grupo se distinguem vários subtipos, entre eles o delírio hipocondríaco. Distingue-se porque as pessoas afetadas vivem com a convicção delirante de que possuem algum problema grave. Frequentemente, essas pessoas se submetem a exames médicos e, embora os resultados sejam normais, continuam convencidas de sua doença. Em alguns casos, podem até mesmo se medicar ou submeter a procedimentos médicos invasivos.

Por outro lado, tendo em vista a grande quantidade de conteúdo na internet, as pessoas com esse sintoma tendem a buscar diagnósticos online. Um estudo de Eichenberg e Schott (2019) mostrou que as pessoas com hipocondria geralmente usam a internet para buscar informações sobre saúde. Além disso, também consideram alternativas, tais como comprar medicamentos online sem receita e mudar de médico com maior frequência.

Ansiedade por doença

Pensar “sempre acho que estou doente” pode ter relação com a ansiedade por doença. Os pacientes afetados vivenciam uma preocupação excessiva e desproporcional com a própria saúde. Na sua mente, eles correm um alto risco de contrair alguma doença grave ou podem acreditar que já foram contagiados. Dessa forma, desenvolvem diferentes comportamentos, tais como examinar o corpo constantemente e evitar as consultas com o médico.

A ansiedade por doença se manifesta até mesmo sem que existam sintomas físicos que possam ser um sinal de alerta. Quando há um sintoma real, geralmente se trata de algo leve e a preocupação que o paciente tem é desproporcional.

Ao contrário dos pacientes com delírio hipocondríaco, aqui não se observa o comportamento delirante. Portanto, a pessoa pode vir a considerar a possibilidade de não estar doente e ter preocupações mais ajustadas. Assim, ocorre o contrário do delírio hipocondríaco, que pode levar uma pessoa a acreditar que o próprio fígado está apodrecendo.

Depressão

A crença de estar sempre doente pode estar relacionada a algum desconforto emocional inconsciente – de forma parcial ou total. Evidências indicam que pacientes deprimidos muitas vezes procuram os serviços de saúde com queixas de desconforto físico.

Assim, o humor depressivo se esconde sob vários sintomas, sendo a dor um dos mais comuns. Nesses casos, pode ser difícil diagnosticar a depressão adequadamente (Artiles & López, 2009).

mulher com depressão

O que posso fazer se eu sempre acho que estou doente?

Quando as preocupações com a saúde física começam a afetar a nossa qualidade de vida, isso significa que é hora de agir. O mais aconselhável é procurar um psicólogo, psiquiatra ou psicoterapeuta que possa avaliar a situação e dar um diagnóstico.

A partir de então, haverá várias opções que podem ser utilizadas, dependendo do problema. Por exemplo, no caso dos sintomas hipocondríacos, a terapia de aceitação e compromisso pode ser uma boa alternativa. Iri et al. (2019) publicaram um artigo sobre os efeitos dessa terapia em mulheres divorciadas com hipocondria. Os resultados mostram que esta terapia reduz os sintomas da hipocondria e melhora a regulação emocional.

Se estivermos diante de um quadro depressivo, a intervenção dependerá da gravidade do quadro. Nos episódios maiores, os antidepressivos são recomendados para elevar o humor, juntamente com a psicoterapia. Enquanto isso, em episódios leves, a terapia psicológica pode ser o suficiente como intervenção.

Para concluir, é preciso enfatizar que, assim como é importante cuidar da saúde física, também é importante cuidar das nossas emoções. Por isso, se você se identifica com a frase “sempre acho que estou doente”, é uma boa ideia consultar um especialista. Não se esqueça de que o desconforto emocional pode ser tão ou mais incapacitante do que uma doença orgânica.

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  • Ariles, R., y López, S. (2009). Síntomas somáticos de la depresión. Semergen: revisa española de medicina de familia, 1, 39-42.
  • Eichenberg, C., & Schott, M. (2019). Use of web-based health services in individuals with and without symptoms of hypochondria: survey study. Journal of medical Internet research, 21(6), e10980.
  • Iri, H., Makvandi, B., Bakhtiarpour, S., & Hafezi, F. (2021). The Effect of Acceptance and Commitment Therapy on Hypochondria and Cognitive Emotion Regulation among Divorced Women. Journal of Community Health Research.