A síndrome da mão alheia

março 18, 2019
A síndrome da mão alheia é uma daquelas condições desconhecidas por terem uma incidência pequena. No entanto, seu impacto é bastante importante, tanto para a pessoa que sofre da condição quanto para o seu entorno.

A síndrome da mão alheia é um transtorno neurológico pouco comum, mas muito importante se levarmos em conta o grau de incapacidade que a condição pode chegar a causar na pessoa afetada e também no seu ambiente.

Pensemos que a experiência corporal, em sentido global, é um processo bastante complexo. Dessa forma, requer a integração de múltiplos sinais sensoriais. Quando ocorre um problema nessa integração, podem acontecer transtornos neurológico diversos, tais como a sensibilização de membros amputados ou a duplicação sensorial de várias partes do corpo.

A história da Síndrome da Mão Alheia

Em 1908, Goldstein descreveu um caso de uma paciente que sofreu um infarto no hemisfério direito do cérebro. Depois do acidente vascular, a paciente apresentou fraqueza na perna esquerda e um estranho transtorno motor em seu braço esquerdo. Tinha a sensação de que sua mão esquerda não pertencia a ela.

Depois disso, Akelaitis (1944) descreveu o caso de dois pacientes que tiveram seu corpo caloso seccionado para controlar a epilepsia. Um deles referia que sua mão esquerda realizava movimentos involuntários opostos ao que sua mão direita desejava. O autor chamou essa condição de dispraxia diagnóstica.

Garota preocupada

Foram Brion e Jedynak (1972) que deram o nome de Síndrome da Mão Alheia a esta condição. Os autores interpretaram que o comportamento errático da mão esquerda dos pacientes era um sintoma patognomônico da lesão no corpo caloso. Os autores analisaram o comportamento de quatro pacientes que apresentaram uma grande variedade de sintomas de desconexão entre hemisférios. Seus déficits incluíam:

  • Dificuldade para nomear objetos fora do campo de visão da mão esquerda
  • Dificuldade para executar posturas com a mão esquerda diante de ordens verbais
  • Apraxia construtiva
  • Agrafia com a mão esquerda
  • Heminegligência atencional
  • Dificuldade para transferir informação somatossensorial de uma mão para a outra

Posteriormente a essas pesquisas, demonstrou-se que a aparição da sintomatologia da Síndrome da Mão Alheia poderia acompanhar também síndromes nosológicas diversas.

Definição da síndrome

Na Síndrome da Mão Alheia, o paciente sente que seu membro age de maneira autônoma. Dessa forma, desenvolve movimentos involuntários que parecem ser intencionais. Esses movimentos com frequência entram em conflito ou rivalizam com o mesmo oposto.

Os afetados por essa condição tendem a ter a sensação de que seu membro está dissociado de seu ser físico. De algum modo, é como se a mão não lhes pertencesse mais. Além disso, em muitos casos as pessoas têm medo e tentam ficar atentas para impedir as ações da mão descontrolada.

Ocasionalmente, os afetados pela síndrome podem se controlar de forma intermitente e voluntária. O autor Biran e seus colegas (2006) propuseram a existência de três elementos na síndrome:

  • O membro está desinibido e tende a se dirigir por estímulos ambientais racionais, resultando assim em comportamentos de utilização.
  • A sequência e perseverança dos fragmentos motores no membro não controlado dão ao movimento uma aparência falsa de voluntariedade e controle.
  • Existe uma consciência clara do comportamento do membro alheio.

Assim, em situações de estresse, como de fadiga ou ansiedade, os movimentos podem ser aumentados temporariamente.

Atualmente, considera-se que a Síndrome da Mãe Alheia se baseia em duas suposições fundamentais:

  • Os sintomas são desencadeados por objetos próximos de maneira chamativa.
  • O comportamento aumenta em condições de menor nível atencional.

Quais são as causas da síndrome da mão alheia?

As causas da Síndrome da Mão Alheia são cirúrgicas. Trata-se de:

  • Calosotomias para epilepsias resistentes (hoje em dia não se realiza mais esse procedimento)
  • Retirada de tumores
Cérebro iluminado

Os subtipos da Síndrome da Mão Alheia

SMA frontal

A SMA frontal resulta do dano de diversas áreas cerebrais:

  • Área motora suplementar
  • Giro cingular
  • Córtex pré-frontal
  • Parte anterior do corpo caloso do hemisfério dominante

Nas lesões frontomediais, a alteração é produzida na mão contrária ao hemisfério lesionado. Além disso, os reflexos primários se mantêm.

SMA calosa

  • Manifesta-se na mesma mão do hemisfério dominante
  • Nesse subtipo são descritos casos de pacientes que sofrem lesões que envolvem o corpo caloso.
  • Dessa forma, pode haver ou não associação de lesões frontais do hemisfério não dominante, especialmente na área motora suplementar.
  • Produz-se um enfrentamento entre as mãos e apraxia.

Tratamento

O tratamento para essa síndrome consiste em algumas técnicas como:

  • Aumentar a percepção e o controle
  • Enfrentamento do estresse
  • Estratégias compensatórias

Referências cinematográficas

Em 1964 Stanley Kubrick dirigiu um filme chamado Dr. Strangelove or How I Learned to stop worrying and love the bomb?, baseado na obra Red Alert de Peter George. A obra retrata a tentativa de um general que quer iniciar uma guerra atômica e os esforços de outras pessoas para evitá-la.

No filme, o doutor Strangelove é descrito como um personagem extravagante que apresenta movimento estranhos e anormais. Desse modo, sua mão direita parece ter vida própria, e são notáveis durante o filme seus movimentos inoportunos e involuntários. E mais, no próprio filme vemos como o doutor tenta controlar esses movimentos com a outra mão. Nesse sentido, o longa retrata bem e com acerto as dificuldades que os pacientes afetados pela SMA apresentam.

  • Hidalgo-Borrajo, R., Belaunzaran-Mendizábal, J., Hernáez-Goñi, P., Tirapu-Ustárroz, J., & Luna-Lario, P. (2009). Síndrome de la mano ajena: revisión de la bibliografía. Revista de neurología, 48(10), 534-539.
  • Giummarra, M. J., Gibson, S. J., Georgiou-Karistianis, N., & Bradshaw, J. L. (2008). Mechanisms underlying embodiment, disembodiment and loss of embodiment. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 32(1), 143-160.
  • Brion S, Jedynak CP. Trouble de transfert inter-hémisphérique à-propos de trois observations de tumeurs du corps calleux: le signe de la main étrangère. Rev Neurol (Paris) 1972; 126: 257-66.
  • Biran, I., Giovannetti, T., Buxbaum, L., & Chatterjee, A. (2006). The alien hand syndrome: What makes the alien hand alien?. Cognitive Neuropsychology, 23(4), 563-582.
  • Giovannetti, T., Buxbaum, L. J., Biran, I., & Chatterjee, A. (2005). Reduced endogenous control in alien hand syndrome: evidence from naturalistic action. Neuropsychologia, 43(1), 75-88.
  • Akelaitis, A. J. (1944). A study of gnosis, praxis and language following section of the corpus callosum and anterior commissure. Journal of Neurosurgery, 1(2), 94-102.