A síndrome da vibração fantasma

· abril 18, 2018

A síndrome da vibração fantasma é uma das fortes evidências de como a tecnologia invadiu a psique humana. Os dispositivos tecnológicos deixaram de ser objetos externos que acessamos quando precisamos. Pouco a pouco estão se tornando, quase que literalmente, parte de nosso corpo.

Ter a sensação de que o celular está vibrando, sem que isto esteja realmente ocorrendo, é o que recebeu o nome de síndrome da vibração fantasma. Acontece a qualquer momento e parece muito real. Para a pessoa, parece impossível que esta vibração do telefone tenha sido apenas uma alucinação tátil.

“Assim, um belo dia, a mente salta da imaginação para a alucinação, e o congregado ouve Deus, vê Deus”.
-Oliver Sacks

Estima-se que até 80% da população já experimentou a síndrome da vibração fantasma, ainda que esta não seja considerada uma doença propriamente dita. Se este sintoma vem acompanhado de outros padrões de comportamento preocupantes, como a dependência excessiva de meios digitais ou a obsessão em relação a eles, o assunto poderia se tornar grave.

Causas da síndrome da vibração fantasma

O cérebro reage diante de estímulos sensoriais. Quando um estímulo é percebido, os órgãos dos sentidos enviam os sinais correspondentes e o cérebro responde em consequência. Se a campainha da casa toca, por exemplo, o cérebro, em poucos segundos, decodifica o sinal e compreende que alguém está chamando. É o exemplo clássico de estímulo-resposta.

O efeito do celular no cérebro

Dito isso, por que ocorre a síndrome da vibração fantasma? Em outras palavras, por que o cérebro percebe que há um estímulo que jamais foi produzido e reage a ele? Tudo parece indicar que isto se deve a uma espécie de antecipação diante de algo desejado. Uma ligação ou mensagem é um estímulo desejado. Às vezes, tão desejado que os próprios sentidos se encarregam de fabricá-lo artificialmente.

Há uma parte de nós que odiaria perder uma ligação que estivéssemos esperando. Ou simplesmente há pessoas que estão “hiperconectadas” e que praticamente vivem em função do celular. A síndrome da vibração fantasma, neste caso, corresponde a um estado de expectativa constante, frente ao desejo de “permanecer conectado”.

Vale destacar que a maioria das pessoas sente essa vibração fantasma apenas em determinados momentos de sua vida. Por exemplo, quando estão mais suscetíveis ou vulneráveis emocionalmente. Ou quando estão particularmente estressadas ou com algum sentimento de angústia escondida.

Problemas associados a esta síndrome

Alguns pesquisadores da Universidade de Michigan propuseram a ideia de que a síndrome da vibração fantasma não é tão inofensiva quanto parece. Este centro universitário realizou um experimento com 400 voluntários. Todos eram estudantes. O estudo buscava estabelecer a relação existente entre a síndrome da vibração fantasma e o transtorno de ansiedade de separação.

Mulher usando celular na cama

Os resultados do estudo confirmaram suas suspeitas. Foi verificado que as pessoas com maiores traços de ansiedade de separação também eram as mais propensas a experimentar a síndrome da vibração fantasma. A ansiedade de separação se caracteriza por um desejo constante de se sentir reafirmado pelos demais.

Da mesma forma, um estudo realizado na Escola de Medicina de Dow Internacional estabeleceu outro elemento interessante. Concluiu-se que as pessoas com problemas de insônia eram as mais propensas a ter alucinações táteis de vibração. O ponto em comum é a ansiedade.

Quando se preocupar?

Em termos gerais, a síndrome da vibração fantasma não é considerada um fenômeno preocupante. O normal é que simplesmente obedeça à crescente dependência da tecnologia. Em certas circunstâncias, quando as defesas psicológicas estão mais baixas, estes tipos de percepções ilusórias tendem a se apresentar. Ainda assim, na maior parte do tempo, não há estas alucinações.

Os profissionais da saúde e todas aquelas pessoas que desenvolvem atividades laborais de alto risco, ou de máxima responsabilidade, tendem a perceber a vibração fantasma com maior frequência. Nestes casos, ela é considerada uma conduta adaptativa. São pessoas que devem permanecer alertas para atender a suas obrigações, razão pela qual não é estranho que tenham este tipo de alucinação.

Foi descoberto também que, para a maioria das pessoas, este tipo de experiência não tem maior importância. Elas a veem como um erro de julgamento sem maiores consequências. Não é algo que afete o seu estado de espírito ou lhes cause mal-estar.

Mulher mexendo no celular

Então, quando a síndrome da vibração fantasma deve ser motivo de preocupação? Quando estiver acompanhada de estados de ansiedade frequentes, ou quando o “alarme falso” trouxer consigo decepção, raiva ou mal-estar, há razões para se preocupar. Nestes casos, é importante refletir e investigar o que realmente está por trás destas percepções ilusórias.