Ainda sou a mesma de sempre, mas não a de antes

Sou a mesma de sempre, mas não a de antes

março 4, 2017 em Psicologia 9383 Compartilhados
Sou a mesma de sempre, mas não a de antes

Voltei a ser a mesma de sempre: alguém capaz de sonhar, de saborear a vida aos bocados, aos goles e abraços. Deixei de lado a pessoa que fui até pouco tempo, alguém que havia esquecido de si mesma para dar prioridade aos outros, uma sombra de sonhos despedaçados e decepções amargas que aos poucos foi capaz de se curar, de se reencontrar.

Todos nós, de alguma forma, já passamos por esse tipo de viagens pessoais onde tomamos consciência de que havíamos nos afastado demais do nosso norte emocional, do nosso equador interno. Finalmente, em um ato de coragem surpreendente e de uma luta pessoal admirável, voltamos para refazer os nossos passos, sobre essas pegadas deixadas na areia de nossos oceanos emocionais para recuperar a nossa autoestima, a nossa integridade.

Neste delicado processo psicológico para recuperar a própria identidade e os próprios valores, temos que saber claramente que quase nunca iremos voltar completamente imunes. Nesta viagem de regresso mudam várias coisas, de forma que embora olhemos no espelho orgulhosos por termos deixado para trás o que nos machucava, não seremos os mesmos de antes, e talvez também não seremos os de sempre.

Seremos uma versão melhorada. Mas este é um processo que sem dúvida leva tempo, pois apesar de termos nos afastado dessa fonte de dor, ninguém dá o salto para a felicidade ou para o estado de calma e bem-estar em dois dias. É preciso tempo, vontade, autocuidado e confiança.

Propomos que você reflita sobre isso.

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Sou uma pessoa que sofre e não me atrevo a mudar

Este fato é curioso e é necessário pensarmos nele. Deixar de ser a pessoa que sofre supõe colocar em prática uma série de passos que nem todo mundo está disposto a praticar. Primeiro, implica tomar plena consciência do próprio mal-estar. Depois, a pessoa deve sentir uma necessidade real de provocar uma mudança e, por último, é necessário trabalhar em um aspecto muito complicado: a vontade.

Pode ser que à primeira vista todos estes passos nos surpreendam, porque quem não vai querer passar por este processo para deixar de lado o sofrimento e para se sentir melhor? Na realidade, ainda que nos surpreenda, há quem não termine de dar esse “salto”, esse ato de fé para reconhecer que pode, deve e merece se sentir melhor. De fato, Viktor Frankl nos explicou em seu livro “O Homem em Busca de Sentido” que às vezes há quem prefira persistir em um estado de infelicidade antes de começar algo que lhe causa muito mais medo: a mudança.

Por exemplo, Anne Thorndike, médica de cuidados primários no Hospital Geral de Massachusetts em Boston, demonstrou que todos os pacientes que sofrem de doenças cardíacas dão o passo em direção a um estilo de vida mais saudável com o objetivo de garantir sua sobrevivência. Além disso, também sabemos que são muitas as mulheres que são relutantes em deixar seus parceiros, apesar de serem infelizes, por duas razões principais: por medo e por receio da própria mudança.

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Ser a mesma de sempre, ser melhor

Para voltar a ser a mesma de sempre, alguém que confiava nas pessoas, alguém que traçava objetivos no horizonte e ficava encantada pela vida, é necessário exercitarmos um músculo que sempre tendemos a negligenciar. Trata-se de uma estrutura maravilhosa da nossa arquitetura emocional e psicológica chamada “vontade”.

Em livros como “The Willpower Instinct” (O Instinto da Força de Vontade) de Kelly McGonigal, nos explicam que após várias décadas de pesquisa sobre esta dimensão, foi concluído que a força de vontade não é algo que se tem ou que não se tem. Na realidade, ela é como um músculo, como um recurso que deve ser utilizado e inclusive “restaurado” de forma contínua. Porque às vezes, assim como ocorre com o exercício físico, ficamos esgotados, extasiados, e no limite das nossas forças.

Às vezes nos esquecemos de que ainda nos restam forças para dizer “chega”, que dispomos de uma voz, de recursos próprios e de pontos fortes para deixar ir, para encerrar uma etapa. Não podemos esquecer que os custos psicológicos de não mudar esses aspectos indesejáveis da nossa vida são simplesmente assustadores.

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Antes de concluir, é necessário que tenhamos claro outro aspecto. Quando deixamos para trás uma etapa complexa, a felicidade não está garantida. Não é como fechar uma porta e abrir outra onde no mesmo segundo seremos recebidos por uma brisa quente, envolvente e acolhedora. O cérebro humano está programado para resistir à mudança e, portanto, precisamos de tempo e, acima de tudo, precisamos “alimentá-lo” com experiências e pensamentos novos para fazer com que ele se acostume com outra abordagem, outra percepção, para se abrir novamente à calma e ao bem-estar.

Leia, passeie, viaje, mude de cenários, favoreça o contato social, inicie novos hobbies e desenvolva novos projetos. Aos poucos você irá perceber que na verdade você vai voltar a ser a mesma pessoa de sempre, mas muito mais forte. Mais sábia.

Imagens cortesia de Clare Elsaesser.

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