Suspiria: duas versões de um mesmo roteiro

setembro 16, 2019
Nos anos 70, Dario Argento nos aterrorizou com a bruxaria e o sobrenatural em 'Suspiria'. Anos depois, Luca Guadagnino lançou um remake que, apesar de se inspirar no original, o reinterpreta. Dois pontos de vista do mesmo roteiro, duas maneiras de entender a mesma história... Na sua opinião, qual é a melhor versão?

Foi nos anos 70 que o cineasta italiano Dario Argento surpreendeu com seu inesquecível Suspiria, um filme que abria caminho para o que seria conhecido como sua trilogia das Três Mães.

O gênero de terror, e de maneira mais específica, o giallo, tem sido a base dos filmes de Argento, que há muito tempo surpreende e aterroriza o público nas salas de cinema.

Se existe uma cor com a qual podemos facilmente identificar Argento, esta não é outra senão a cor do sangue, um vermelho muito presente em sua filmografia que nos leva a uma dimensão estética de terror e violência.

Em Suspiria, Argento adotou um terror mais sobrenatural, enigmático e repleto de símbolos. O cineasta partiu de um roteiro escrito em colaboração com sua esposa, Daria Nicolodi, e optou por deixar boa parte da trama para a imaginação do público.

Os espectadores são os responsáveis por reconstruir aquela informação que não se dá de forma explícita no filme, por imaginar o que acontecia exatamente atrás das paredes assombrosas da escola Markos.

Algumas décadas depois, em 2018, outro italiano, Luca Guadagnino, trouxe de volta o roteiro de Argento e Nicolodi para lhe dar um novo significado.

Ele imaginou tudo aquilo que qualquer espectador poderia ter interpretado, ampliou o pequeno universo apresentado nos anos 70 e incluiu alguns elementos da contemporaneidade.

Assim, o Suspiria de Guadagnino se afasta bastante do original, mas não deixa de lado suas raízes e, em alguns momentos, nos devolve o vermelho tão característico do filme de Argento.

Duas maneiras de entender o terror, duas maneiras de criar suspense e, finalmente, duas maneiras diferentes de contar uma mesma história.

AVISO: o artigo pode conter spoilers.

Suspiria: um universo feminino

Infelizmente, a presença feminina no cinema foi algo tardio. Durante muito tempo, a presença feminina foi relegada ao segundo plano, a papéis ligados a funções puramente femininas: maternidade, beleza, tarefas domésticas, etc.

Os homens, durante décadas, foram os heróis do cinema, sem mencionar o papel escasso que as mulheres desempenham atrás das câmeras.

No entanto, Dario Argento não apenas contou com sua esposa para construir o roteiro de Suspiria, mas também reuniu um elenco de mulheres que escapavam bastante à norma da época.

Suspiria nos leva à uma prestigiada escola de dança alemã, onde o poder está nas mãos das mulheres. Existem personagens masculinos, mas a maioria é secundária; dessa maneira, há uma certa inversão nos papéis habituais.

Um dos personagens masculinos que se destaca (embora não muito) é o do jovem Mark, interpretado por um jovem Miguel Bosé. Mark é um bailarino da escola Markos que se mostra submisso à liderança das mulheres da escola.

Da mesma forma, é apresentado como um personagem bastante feminino, mas que desperta o interesse da protagonista, Susie. Assim, os moldes de gênero eram levemente dissolvidos no Suspiria original. 

Susie é uma jovem americana que vai a Alemanha para estudar na escola Markos; o que ela não sabe é que esse lugar, na realidade, é uma espécie de sabá. A presença feminina inunda a tela; protagonistas e antagonistas, todos elas são mulheres.

A vez das mulheres

Guadagnino vai um passo além, em plena era do MeToo e da reivindicação feminista, seu filme ecoa todos esses movimentos. A camaleônica atriz Tilda Swinton interpreta nada menos que três personagens, incluindo um homem.

Suspiria: um universo feminino

Talvez muitos pensem que essa mudança de gênero não fosse inteiramente necessária e que um ator masculino pudesse ter sido usado. No entanto, independentemente de ser uma necessidade ou não, a intenção era reivindicar o espaço das mulheres.

Não esqueçamos que, por muito tempo, os atores de teatro eram apenas homens e, como consequência, deviam se vestir de mulher para interpretar papéis femininos.

Assim, muitas das obras estreadas por grandes dramaturgos, como William Shakespeare, foram interpretadas inteiramente por homens.

Essa declaração de intenções no Suspiria mais recente acaba por eliminar a presença masculina e relegá-la a um nível ainda mais secundário. A verdade é que a bruxaria é algo que associamos às mulheres e que, além disso, adquire conotações negativas.

Guadagnino decidiu fazer de seu filme uma reivindicação feminista, gritando ao passado e dizendo que as mulheres podem desempenhar qualquer papel.

Atualmente, temos vários exemplos de como a bruxaria serviu para mostrar uma nova realidade. Dessa forma, séries como American Horror Story ou O Mundo Sombrio de Sabrina já nos mostraram a reivindicação feminista através da bruxaria.

No Suspiria atual, utiliza-se o pano de fundo político da história para estabelecer um paralelo com a instabilidade na governabilidade do sabá. Uma espécie de dicotomia entre o patriarcado histórico frente ao matriarcado do sabá.

A versão de Guadagnino é apresentada como uma renovação ou atualização de valores que já estavam latentes no filme de Argento.

Duas maneiras de entender o terror

Deixando de lado as questões mais puramente culturais e históricas, Suspiria não deixa de ser um filme de terror. No original, Argento fez grande uso do fora-de-campo, deixando os mistérios do sabá ocultos atrás de suas paredes.

Através da música e da cor, o espectador entendia que algo estranho acontecia, mas não conseguia saber o que era aquilo que estava escondido ali.

A chegada de Susie na Alemanha é absolutamente reveladora; Argento nos mostra um espaço conhecido: o aeroporto. Os sons do ambiente e os planos da jovem Susie avançando em direção à saída traçam um realismo que contrasta com uma série de contraplanos em que vemos a saída do aeroporto.

Uma saída para a escuridão, acompanhada pela música excepcional e perturbadora de Goblin, que parece nos alertar da presença do mal, do elemento fantástico ou desconhecido.

Na viagem de táxi para a escola, as luzes caleidoscópicas distorcem a realidade, a música fica mais forte e o exterior nos mostra uma natureza hostil e assustadora. Dessa forma, o espectador entende que algo vai acontecer, que Susie deveria retornar ao aeroporto e nunca entrar na escola Markos. 

No Suspiria mais atual, a presença do mal é verbalizada durante a visita ao psiquiatra da jovem Patrícia, aluna da escola. Patricia expõe ao psiquiatra alguns fatos paranormais que estão acontecendo na escola.

Assim, são levantadas duas possíveis explicações para o mesmo fato: a racional, ou seja, a versão do psiquiatra, e a paranormal, nas palavras de Patricia.

Cena do filme 'Suspiria'

Diferenças entre as duas versões de Suspiria

A versão de Guadagnino é mais realista; não temos mais a realidade distorcida, não há mais uma música perturbadora, mas nos envolvemos nos sons do ambiente, nos corpos dançando ou se estremecendo.

O vermelho, grande protagonista do Suspiria original, aparece apenas no cabelo de Susie, conectando-se, de certa forma, ao imaginário coletivo.

O cabelo ruivo sempre foi muito associado à bruxaria, e no filme de Guadagnino, isso se torna relevante quando as bruxas decidem cortá-lo para Susie. No entanto, longe de perder sua força como Sansão, Susie se ergue como a verdadeira Mãe Suspiriorum.

Desse modo, no clímax do filme, o vermelho volta a manchar as imagens, nos mergulha novamente num banho de sangue e nos leva às raízes de Argento.

Guadagnino está determinado a nos contar todos os detalhes do sabá, a mostrar o que o original deixou no fora-de-campo, a buscar a conexão entre dança e bruxaria através de uma cena assombrosa e incômoda.

Enquanto isso, Argento tenta nos envolver em uma atmosfera surreal, paranormal e estranha que nos perturba e nos aterroriza.

Sua câmera adota uma postura mais voyeurista, como se fosse um personagem e como se estivesse espionando os movimentos das jovens na escola. Ambos os cineastas recorrem à imagens do imaginário coletivo, mas um de uma maneira sugerida, enquanto o outro o faz mais explicitamente.

Argento imaginou seu filme como um conto de fadas em que os protagonistas eram meninas. Por não poder fazer isso, deixou alguns traços que se conectam com essa visão infantil em meio ao horror.

Em resumo, estamos diante de um conto de fadas assustador e um terror atualizado que deixa pouco para a imaginação; duas visões do mesmo roteiro, mas muito diferenciadas. Ambas agradáveis ​​e chocantes, apesar de preferirmos a de Argento… E você, qual delas você prefere?