Mente aberta sim, mas sem que o seu cérebro caia

· outubro 19, 2018

As crianças mostram de maneira natural algumas habilidades que não deixam de surpreender os adultos. Uma delas é que são capazes de olhar o mundo com uma quantidade muito pequena de ideias preconcebidas, o que faz com que sua resistência ao aprendizado seja muito menor. Nesse sentido, elas representam o paradigma de ter a mente aberta.

Nós adultos, por outro lado, trabalhamos com esquemas já elaborados que vamos modificando, polindo, aperfeiçoando. Esses esquemas tornam o mundo mais previsível, mas às vezes também resistem ao novo, alimentando o medo da mudança. A ciência talvez seja uma fuga perfeita para essa ideia. Copérnico, Galileu e o próprio Einstein experimentaram a força que pode ser implantada a partir de um ponto de apoio errado, mas em vigor.

De acordo com um estudo de Serra e Perez Vega (Universidade Nacional Autônoma do México), estes esquemas influenciam aspectos muito importantes, como as práticas parentais e os possíveis problemas no comportamento infantil que se originam a partir delas.

Mente aberta

Mente aberta e primeiras impressões

Voltando ao nível microscópico, para o pessoal, vemos como é difícil mudar a primeira impressão que formamos de uma pessoa. Por quê? Porque a partir dessa primeira impressão, começamos a inferir intenções ou hipóteses sobre o que acontece ao seu redor. Um castelo de areia que envolve um esforço (inversão) cognitivo que nos recusamos a desprezar, como o jogador de pôquer que blefou e os outros seguiram o jogo até o final.

Desta maneira, gostamos de ver os outros como seres consequentes, deixando de lado uma das nossas principais certezas: somos pura contradição. Seres interessados ​​cujo interesse varia. Seres emocionais cujo estado emocional varia. Seres com personalidade, que aprendem e tentam se adaptar.

Somos seres interessados ​​cujo interesse varia. Seres emocionais cujo estado emocional varia. Seres com personalidade, que aprendem e tentam se adaptar.

Assim, ter a mente aberta significa renunciar, em parte, a uma posição na qual nos sentimos confortáveis. Significa questionar o que já sabemos e o que já construímos. Se pensarmos que Pedro é generoso, tenderemos a interpretar seus atos como um interesse pelos outros. Por outro lado, se pensarmos que ele é uma pessoa egoísta, tenderemos a interpretar um ato de generosidade como, talvez, uma maneira de lavar sua consciência.

Alguém pode pensar que isso, no fundo, não importa, porque Pedro é quem ele é. Entretanto, nossa interpretação do mundo baseada em ideias preconcebidas tem consequências significativas. Um exemplo ocorre no nosso modo de tratar os outros. Aceitaremos a ajuda de um Pedro a quem atribuímos generosidade e suspeitaremos daquilo que nos é dado por um Pedro que associamos com o egoísmo.

Nesse sentido, manter uma mente aberta possibilita ter uma mente flexível, disposta a realizar esquemas com os quais já tenha trabalhado. Para os exemplos dados, certamente nos ocorrem muitos deles. No entanto, em que sentido um excesso de abertura pode nos prejudicar?

Manter uma mente aberta

Ter a mente aberta, mas sem deixar de lado a capacidade de análise

Muitas novas correntes voam de boca em boca, de fala em fala, mas se dissolvem quando as olhamos sob a lente de aumento, inquisitiva e audaciosa, da ciência. Existem muitos fenômenos que foram encontrados em um primeiro estudo e que, depois, nenhum estudo foi capaz de replicar. Há também muitos que nasceram de uma experiência pessoal e sobre os quais agiu apenas o viés favorável de confirmação.

Além disso, todos os anos encontramos alguma notícia na mídia de pessoas que abandonaram um tratamento médico, depositando toda a sua fé e esperança em um tratamento alternativo com um ótimo marketing, mas sem eficácia. Pessoas com uma mente aberta ao novo, com a necessidade de um ponto de apoio; uma necessidade que faz com que acabem depositando todo o seu futuro neste tipo de intervenção que não têm nenhum estudo sério por trás que a sustente.

Neste sentido, ter uma mente aberta pode nos enriquecer e nos ajudar a encontrar soluções, mas de pouco servirá se, pelo caminho, deixarmos para trás a vontade, a atitude e a capacidade de sermos críticos, prudentes em relação a algo novo que adotamos e que pode ter consequências desastrosas.