O transtorno bipolar e as relações afetivas

abril 14, 2019
Quem nunca se sentiu bipolar? Quem nunca foi chamado de bipolar alguma vez na vida? A maneira como falamos da bipolaridade na linguagem coloquial pouco, ou nada, tem a ver com o transtorno bipolar. Hoje, vamos falar um pouquinho sobre ele, dando especial atenção às adaptações que são necessárias no contexto de um relacionamento.

É importante falar sobre a relação entre transtorno bipolar e relações afetivas, já que esta condição pode prejudicar, e muito, a vida social de quem a tem.

O transtorno bipolar é um transtorno do humor de definição complexa. Sua característica mais destacada é que as pessoas que o apresentam sofrem oscilações rápidas e drásticas em seu humor de maneira contínua. São flutuações que impedem a pessoa de se sentir bem – mesmo que passe por estados de euforia – e que afetam de maneira considerável a sua capacidade de adaptação.

Essas mudanças no humor trazem, entre outras complicações, problemas nas relações afetivas. Nós nos referimos ao fato de que a instabilidade emocional faz com que as relações afetivas sejam afetadas, especialmente quando falamos de relacionamentos amorosos, porque é complicado ter uma relação com alguém que passa por mudanças tão drásticas em seu humor.

Para manter uma relação afetiva, é necessário conhecer o outro, ter compreensão e flexibilidade, mas também uma certa estabilidade (isto é, ser, de alguma maneira, previsível). Relacionar-se com alguém que vive episódios de mania e/ou episódios depressivos que não estão diretamente relacionados com as experiências de sua vida é uma pedra no caminho das relações.

Por isso, neste artigo vamos explicar o que é o transtorno bipolar e como ele condiciona o círculo social e a satisfação da pessoa que o apresenta.

Mulher sofrendo com dor emocional

O que é o transtorno bipolar?

De maneira equivocada, as pessoas se referem às mudanças em suas opiniões, assim como aos seus pensamentos ou sentimentos, como traços da bipolaridade. Ou seja, acredita-se que estar feliz em um dia e no outro triste é “ser bipolar”. Mas não é assim.

Para receber o diagnóstico de transtorno bipolar, é preciso cumprir uma série de critérios diagnósticos. As estatísticas mostram que apenas 0,5-1,6% da população geral cumpre esses requisitos (Ministério da Saúde, Serviços Sociais e Igualdade da Espanha, 2012).

Em geral, para ter um transtorno bipolar, é preciso apresentar uma fase de estado de ânimo muito elevado, comportamentos impulsivos que envolvam grandes gastos, planos ou mudanças radicais, e escassa necessidade de dormir durante pelo menos duas semanas.

Sendo assim, estar muito feliz ou triste em um dia e no outro não, não é ter transtorno bipolar; nós podemos ter mudanças no humor ou características da personalidade díspares sem que isso seja uma patologia mental.

Transtorno bipolar e relações afetivas

As relações com uma pessoa que tem transtorno bipolar são complicadas. Entretanto, quando o transtorno está controlado e o indivíduo estável, é possível ter uma vida 100% normalizada. Nesse sentido, as pessoas com transtorno bipolar se apaixonam como qualquer outra, sem problema nenhum, a não ser que se encontrem em uma fase de mania, na qual o estado de ânimo é tão eufórico e positivo que confunde os sentimentos.

Portanto, em geral, a paixão e o início de uma relação afetiva são iguais para todas as pessoas, com a cautela de não iniciar relações amorosas em fases de humor eufórico.

Mesmo assim, quando pensamos em transtorno bipolar e relações afetivas, nos vem à mente a instabilidade nos sentimentos. Ou seja, se pensamos em ter um(a) companheiro(a) com transtorno bipolar, é muito provável que pensemos em um tipo de relação caótica e mutável.

Nada mais longe da realidade. Hoje em dia, com medicação psiquiátrica para estabilizar o humor, terapia e acompanhamento psicológico, a pessoa está capacitada para manter uma relação estável. A relação terá altos e baixos assim como todas as outras, mas talvez sejam mais profundos e severos do que os de outros casais. O importante será como o casal e o ambiente ao redor vão administrar esses momentos.

“As pessoas com transtorno bipolar se apaixonam como qualquer outra, sem problema nenhum, a não ser que se encontrem em uma fase de mania, na qual o estado de ânimo é tão eufórico e positivo que confunde os sentimentos”.

O transtorno bipolar e as mudanças de opinião: mito ou realidade

O termo bipolar faz parte da nossa linguagem cotidiana. Como uma brincadeira ou levando a sério, muitas pessoas são rotuladas assim quando, na verdade, estão longe de sofrer de algum transtorno.

Além disso, o transtorno bipolar não está necessariamente relacionado com as mudanças de opinião. Sendo assim, quando pensamos em transtorno bipolar e relações afetivas não temos motivos para imaginar uma relação na qual haja mudanças de ideias, atitudes, motivações e objetivos constantemente.

No entanto, é muito importante considerar que a energia de uma pessoa com transtorno bipolar pode, sim, mudar de uma semana para a outra de maneira significativa. O nível de energia ou ativação pode mudar com facilidade, e isso pode afetar os planos de um casal, como, por exemplo, a vontade de fazer uma determinada viagem.

Estar em uma relação afetiva com uma pessoa com transtorno bipolar implica se ajustar às suas mudanças de ativação mental e física, mas se isso for administrado adequadamente, não representa um obstáculo intransponível.

Mulher consolando homem com um abraço

O que você pode fazer se tem uma relação com uma pessoa com transtorno bipolar?

Embora quando a pessoa está controlada não haja grandes problemas, é preciso saber lidar adequadamente com a relação entre o transtorno bipolar e as relações afetivas. Assim, há certos conselhos/aspectos a se levar em consideração. Em primeiro lugar, ter uma relação com alguém que tem transtorno bipolar implica conhecer muito bem essa doença mental.

É necessário que ambas as partes da relação saibam o que acontece, como a doença se manifesta e o que fazer durante uma crise. Por exemplo, o(a) companheiro(a) de alguém com transtorno bipolar deve conhecer os sinais que podem se manifestar antes de um episódio de mania ou depressão.

Além disso, os níveis de estresse cotidianos devem receber atenção especial, já que são um gatilho para episódios nos quais o humor se torna extremo.

Na hora de considerar uma relação afetiva, as pessoas precisam encontrar um equilíbrio na divisão de tarefas e responsabilidades, de maneira que não ocorra uma sobrecarga na pessoa que sofre do transtorno. As exigências e a sensação contínua de não chegar a tempo aumentam as possibilidades de um retrocesso ou uma recaída.

“Na hora de considerar uma relação afetiva, as pessoas precisam saber que a carga diária de tarefas e de trabalho deve ser saudável e não muito exigente”.

Por tudo isso, as pessoas com transtorno bipolar precisam ter uma rotina bastante controlada, com horários estáveis de sono e refeições, evitando as mudanças bruscas (Becoña e Lorenzo, 2001). Elas podem ir a festas e ficar a noite toda acordadas, madrugar, comer em horários diferentes nos finais de semana; mas, se começarem a se sentir “estranhas”, precisam de compreensão e empatia porque não são responsáveis pelo que sentem ou causam.

Assim, ter um(a) companheiro(a) com transtorno bipolar implica um esforço grande de adaptação. Por outro lado, a situação também melhora se a pessoa receber acompanhamento psiquiátrico e psicológico. Quanto mais envolvido o casal estiver no acompanhamento do transtorno, menos a relação vai sofrer.

Lembre-se de que cada dia há mais avanços no controle das doenças mentais e que, em princípio, um transtorno bipolar não é necessariamente um obstáculo intransponível para uma relação.

  • Becoña, E. y Lorenzo, M. C. (2001). Tratamientos psicológicos eficaces para el trastorno bipolar. Psicothema, 13(3), 511-522.
  • Ministerio de Sanidad, Servicios Sociales e Igualdad (2012). Grupo de Trabajo de la Guía de Práctica Clínica sobre Trastorno Bipolar. Guía de Práctica Clínica sobre Trastorno Bipolar. Universidad de Alcalá. Asociación Española de Neuropsiquiatría.