Annie Wilkes, amor e obsessão

· novembro 26, 2018

Se analisarmos a filmografia de Kathy Bates, encontraremos títulos tão importantes quanto Titanic ou Tomates Verdes Fritos. No entanto, entre todas as grandes produções das quais a atriz norte-americana participou, há um nome que se destaca: Louca Obsessão. Falar de Louca Obsessão é falar da brilhante atuação de Bates como Annie Wilkes, a inesquecível vilã que lhe rendeu um Oscar de melhor atriz.

O que Annie Wilkes tem que a torna tão especial? Os vilões costumam nos deixar intrigados, perturbados e fascinados. Os vilões, em geral, costumam despertar o interesse do público e também seu repúdio. Mas o encanto de Annie Wilkes é diferente do que costumamos observar na maioria dos vilões.

É um personagem tão real, tão verossímil, que assusta. Quem poderia esperar que por trás de uma enfermeira aposentada, que foi chefe da unidade de maternidade, se esconde uma pessoa tão atroz?

Annie Wilkes é uma personagem com uma personalidade muito complexa, agressiva, obsessiva e bipolar. Apesar disso, a imagem que projeta para o mundo é muito diferente da realidade.

O filme Louca Obsessão (1990), dirigido por Rob Reiner, é uma adaptação do romance homônimo de Stephen King. No romance, há um aprofundamento maior no passado da personagem e são esclarecidos alguns dados omitidos na versão cinematográfica.

No entanto, o trabalho de Kathy Bates é tão sublime que acaba sendo a encarnação dessa vilã. Uma encarnação que desperta a curiosidade do público e nos mantém em um estado de agonia constante, como se estivéssemos vivendo na própria pele as torturas às quais o aclamado escritor Paul Sheldon é submetido. A interpretação de Bates foi aclamada pelo público e pela crítica, e é considerada uma das melhores interpretações femininas de todos os tempos. Além disso, ela foi a primeira mulher a receber um Oscar como melhor atriz em um filme de suspense.

Se você ainda não assistiu ao filme Louca Obsessão ou não leu o romance de King, não é aconselhável continuar a leitura deste artigo, pois vamos mergulhar no lado mais profundo da perturbada Annie Wilkes.

Em meio a uma forte nevasca, o aclamado escritor dos livros de Louca Obsessão, Paul Sheldon, sofre um acidente e é resgatado por Annie Wilkes, que se autodenomina sua fã número 1. Em um lugar inóspito, com apenas dois personagens em cena, somos apresentados a uma verdadeira história de terror; asfixiante e atroz, assim é Louca Obsessão.

Annie Wilkes, um retrato do mal

Wilkes é uma mulher de meia idade, corpulenta e bastante sóbria. Seu aspecto é o mais simples possível, sem grandes joias nem luxos. Poderíamos facilmente considerá-la conservadora devido à sua aparência. Ela não usa nenhum tipo de maquiagem, seu penteado é simples e a única coisa que se destaca em sua roupa é uma pequena cruz de ouro pendurada no pescoço. Essa cruz, tão comum quanto tradicional, é um elemento que já vimos inúmeras vezes e que pode nos dar uma pista sobre a personalidade de Wilkes.

No entanto, esse pequeno elemento que associamos ao catolicismo e, por conseguinte, aos valores próprios da religião, contrasta com a verdadeira personalidade de Annie. Por sua vez, a pequena granja em que vive nos faz pensar em uma pessoa simples e tranquila, embora um tanto cafona, pois está decorada com elementos bastante ridículos e antigos, como a coleção de pequenas estátuas de porcelana. Essa decoração, ao mesmo tempo, parece ser bem calculada. Wilkes é capaz de perceber até mesmo a mínima mudança, deixando entrever uma personalidade obsessiva.

Annie Wilkes

No início, Paul Sheldon acredita ter caído em boas mãos. Após sofrer um acidente e ficar imobilizado, acorda na casa de uma enfermeira aposentada que, curiosamente, é fã de sua obra. Ela promete cuidar dele e ajudá-lo a se recuperar. Além disso, diz a ele que avisou sobre o que aconteceu aos seus familiares e ao hospital e que, assim que as estradas forem abertas, poderá levá-lo ao hospital mais próximo.

No entanto, nada disso era verdade. Pouco a pouco, Wilkes vai mostrando sinais de uma certa bipolaridade: de um tom amável e de excessiva bondade passamos a ataques de histeria, raiva e agressividade. É como se Wilkes não conseguisse conter a si mesma ao descobrir que Paul Sheldon decidiu assassinar Misery Chastain no último livro.  Nesse momento, também descobrimos que essa personalidade agressiva e obsessiva pode ter sempre existido em Wilkes, pois ela mesma relembra um episódio de sua infância no qual ficou muito brava no cinema devido à incoerência que observou em um de seus personagens favoritos.

A solitária Wilkes parece possuir um lado extremamente infantil, que gosta de fantasiar com personagens de ficção; uma verdadeira fangirl de sua época. Ela conheceu os romances de Louca Obsessão quando estava passando por um mau momento em sua vida, e eles serviram como subterfúgio. Annie Wilkes sonhava com essas histórias a ponto de ficar obcecada. Ela ficou tão obcecada que sequestrou o autor dos livros.

Ao descobrir que a protagonista morria no último livro, sua personalidade se tornou tão fria quanto a paisagem que os rodeava, fazendo com que a pequena granja se transformasse em um verdadeiro inferno para o escritor Paul Sheldon. Isso trouxe à tona uma maldade digna de uma das melhores vilãs já vistas no cinema.

Annie Wilkes

A exposição da fama

Infelizmente, a fama pode ser muito perigosa. Ser uma figura pública transforma nossa intimidade em motivo de debate, discussão, e algo suscetível a críticas. Apenas um erro, um comentário inadequado, uma resposta infeliz ou, simplesmente, uma reação qualquer, pode fazer nossa vida se transformar em um inferno. Ao mesmo tempo, existem pessoas que desenvolvem certas obsessões com alguns personagens, obsessões que podem se tornar muito perigosas.

Annie Wilkes adora Paul Sheldon, está apaixonada por ele, mas não por seu verdadeiro ser. Ela está apaixonada pela imagem idealizada que criou em sua cabeça. Esse amor tão obsessivo, vinculado a diversos transtornos mentais dos quais, evidentemente, a personagem sofre, a leva a sequestrá-lo e torturá-lo. Como alguém que ama outra pessoa pode lhe fazer tanto mal? Porque não é amor verdade. Trata-se de um amor idealizado, transformado em obsessão.

Annie Wilkes em 'Louca Obsessão'

O caso de Annie Wilkes é assustador, mas também é muito real. Não é a primeira vez que uma pessoa fica tão obcecada com seu ídolo. Podemos nos lembrar, por exemplo, do assassinato de John Lennon pelas mãos do fã Mark David Chapman.

O filme também questiona a liberdade do artista: eles são realmente livres para escolher o que escrevem? A resposta é não. Já no começo vemos a importância de sua agente literária, os conselhos que ela lhe dá e como tenta guiar Sheldon a uma leitura mais comercial.

O autor está farto de Louca Obsessão, quer começar uma nova aventura, quer experimentar outros gêneros… algo que incomodará o mundo editorial por ser menos rentável e, ao mesmo tempo, incomodará os fãs por não ser fiel à sua obra. As editoras, assim como o mundo do cinema, sempre vão buscar a opção mais rentável, a que mais agrade ao público, às massas, sem se importar com a qualidade das obras, nem com as ideias iniciais do autor.

Assim, Louca Obsessão nos mostra a outra face da vida de escritor, a perda da liberdade criativa. Wilkes se transforma na nova “assessora” de Sheldon e o obriga a escrever o que ela quer e como quer. Além disso, pouco a pouco, descobrimos que Wilkes esteve envolvida em outros assassinatos e que sua maldade sempre esteve presente.

É uma personagem que amedronta devido ao seu realismo, ao seu passado obscuro como enfermeira assassina e à sua profunda obsessão, que a leva à loucura.

“Sou sua fã número um”.
-Annie Wilkes-