Transtorno de apego reativo: “Não me toque!”

· fevereiro 7, 2018

O apego é um tipo de vínculo afetivo que se desenvolve durante a infância. Ele pode não ser conduzido da maneira correta. Isto é, as as necessidades que os pequenos têm podem não ser atendidas, resultando em padrões de apego prejudiciais. O transtorno de apego reativo é um desses padrões prejudiciais. Ele é caracterizado por uma inibição emocional e afetiva que as crianças apresentam em relação aos pais ou cuidadores.

É estranho que as crianças não queiram qualquer tipo de contato. Eles podem se afastar dos seus cuidadores como se fossem tóxicos. Essas crianças não nasceram com essa atitude. Entretanto, isso foi moldado de acordo com aquilo que o ambiente no qual estavam inseridas lhes ofereceu. Nesses casos, provavelmente as crianças estiveram em contato com um ambiente completamente desestruturado e tóxico para elas.

“A história anterior da criança é o que condiciona sua maneira de sentir no mundo e o que espera dele”.
-Charo Blanco-

Menino sentado no braço do sofá

Qual é o ambiente que favorece o transtorno de apego reativo?

Quando falamos de transtorno de apego reativo, estamos nos referindo a um contexto que não atende às necessidades básicas das crianças. Essas necessidades incluem segurança, proteção e contato saudável com outras pessoas. Além, claro, de comer, dormir, não sofrer dor etc. Por exemplo, pais que não cuidam de seus filhos quando estão chorando por causa da fome ou do frio “desativarão”, de alguma forma, o principal sinal de pedido que as crianças têm.

Como podemos ver, quando as demandas mais básicas da criança não são atendidas, ela desenvolve uma atitude de não gastar energia chorando. Isso aumenta as chances de sobrevivência no meio ambiente em que precisa viver. Entretanto, quais são as outras situações que podem desencadear esse transtorno?

  • Cuidadores com poucas habilidades parentais: não estão preparados ou seguros. Eles não sabem o que têm de fazer, nem buscam formação adequada ou adquirir mais conhecimento. Eles se contentam com o que pensam saber instintivamente.
  • Cuidadores que não expressam seus sentimentos: ninguém lhes ensinou a expressarem suas emoções. Além disso, devido a experiências traumáticas, podem fazer o contrário, esconder os sentimentos dentro de si. A consequência é que não sabem como expressar seu carinho e o amor que sentem por seus filhos. Por isso, a criança cresce com essa falta.
  • Violência física ou psicológica: trata-se de violência na relação dos cuiadores com a criança, indo desde a violência física contra a própria criança até, inclusive, o abuso sexual.
  • Crianças órfãs: passar por muitos cuidadores diferentes ou ser criado em um orfanato pode significar que as necessidades da criança não sejam adequadamente atendidas. Dessa forma, a insegurança e os sentimentos de abandono são amplificados.

Crianças com transtorno de apego reativo evitam qualquer contato com seus cuidadores e são incapazes de expressarem sentimentos e emoções positivas ou os expressam muito pouco. Em geral, eles não se dirigem a ninguém quando sentem dor, medo ou inquietação. Entretanto, essas situações lhes acontecem muito.

As crianças que desenvolvem o transtorno de apego reativo, causado por ambientes como os já descritos, evitam o contato com seus pais ou cuidadores. Afinal, eles aprenderam que não importa o quanto peçam, ninguém nunca entende o que precisam. Além disso, a falta de carinho e até mesmo de contato físico torna difícil expressarem as emoções e sentimentos. De alguma forma, essas crianças se tornam autossuficientes e rejeitam aqueles que as prejudicaram. Não há vínculo. Eles não se sentiram valorizados. Portanto, desenvolvem o transtorno de apego reativo como uma estratégia para se adaptarem ao meio no qual viveram.

Menina triste e pensativa

De volta às origens: a construção de um bom apego

Com tudo isso, surge uma questão. Uma vez que tudo o que nos acontece na infância marca tanto, é possível que o transtorno de apego reativo tenha alguma solução? A resposta é “sim”, porém a abordagem é muito complexa, pois é necessário envolver diferentes profissionais. Um especialista em psicologia não é suficiente. Portanto, também é aconselhável incluir um médico e um assistente social. Além disso, a própria forma de educação e a modificação do ambiente também interferem no plano de intervenção.

O pai, a mãe, o tutor legal ou cuidador tem que assumir a responsabilidade por um processo que levará tempo. Entretanto, o resultado poderá ser muito bem-sucedido. O que se deve buscar é a construção de um vínculo forte e seguro. Para isso, será importante trabalhar a autoestima da criança e diversas habilidades sociais.

Muitos podem perguntar se essa condição é realmente resolvida ou a criança apenas aprende a se comunicar efetivamente com uma série de ferramentas que funcionam para si. A criança realmente estabelece algum vínculo sólido? Ou seu progresso é aparente apenas devido às habilidades que adquiriu?

Nesse sentido, a terapia cognitivo-comportamental fornece uma estratégia voltada para a reestruturação cognitiva. Essa estratégia demonstrou ser capaz de alterar as cognições disfuncionais que estão afetando o estabelecimento de vínculos saudáveis. Trata-se de uma possibilidade muito encorajadora, especialmente para todas as crianças que viveram em famílias quebradas e, por isso, sofrem o transtorno de apego reativo.

“A criança precisa de tempo para aprender a confiar na acessibilidade e disponibilidade de seu cuidador e, daí, se sentir confiante em relação a ele”
– Anônimo –

A criação de um filho é um elemento muito importante cuja responsabilidade cabe aos pais ou responsáveis. Os pequenos não são objetos, são pessoas que aprenderão com seus primeiros relacionamentos. A partir disso, eles tenderão a replicar o mesmo padrão de interação no futuro. Esforce-se para fazer o seu melhor. Treinar, pedir apoio e ajuda nos permite atender todas as necessidades das crianças, evitando assim que elas desenvolvam, nesse caso, o transtorno de apego reativo.

Pais com seus filhos