Transtorno de esquiva experiencial: você sabe do que se trata?

Transtorno de esquiva experiencial: você sabe do que se trata?

outubro 12, 2017 em Psicologia 337 Compartilhados
Jovem com transtorno de esquiva experiencial

As classificações de transtornos psicológicos e as abordagens terapêuticas para os mesmos estão mudando, evoluindo. Um modelo de terapia de terceira geração, a Terapia de Aceitação e Compromisso, explica que grande parte do sofrimento psicológico é conseqüência do transtorno de esquiva experiencial.

O distúrbio de esquiva experiencial deve ser exemplificado para que possamos compreendê-lo de forma simples. Uma situação propícia para se manifestar é aquela que é valorizada como indesejável pela pessoa que sofre deste transtorno, de modo que, para não entrar em contato com ela, tentará evitá-la ou escapar.

Nesse sentido, é bom pontuar: não querer entrar em contato com o desconforto, ou querer fugir dele em vez de aceitá-lo, não é um transtorno; trata-se de uma resposta normal observada em todos os animais, humanos e não humanos. O transtorno ocorre quando há pensamentos rígidos, como “tenho que estar bem para fazer coisas”, “preciso me sentir feliz para poder voltar ao trabalho”, ou “não suporto ficar nervoso, preciso que isso termine já”, que são uma fonte de desconforto que não nos dá descanso.

Como identificar se você tem um transtorno de esquiva experiencial?

Os critérios diagnósticos para o transtorno de esquiva experiencial seriam:

  • Sentir-se constantemente inundado por pensamentos e sentimentos que giram em torno de “estar mal”, “estar triste” ou “lutar para estar bem”.
  • A mente faz um bombardeio constante com pensamentos que procuram lutar contra qualquer tipo de desconforto, incerteza ou dúvida.
  • Dedicar muito tempo do seu dia a dia para controlar esses pensamentos ou sentimentos.
  • O dia a dia gira em torno de “eliminar o desconforto” como um passo prévio para recuperar sua vida. Existe a sensação de que não se pode fazer nada, continuar crescendo, até que esses pensamentos desapareçam.
  • Esperar para se sentir bem para retomar as atividades que você valoriza em sua vida (exemplo: ir ao parque com as crianças, sair com amigos, dar um passeio na praia).

Mulher presa em pote de vidro na praia

De onde vem o transtorno de esquiva experiencial?

A origem da esquiva experiencial é a inflexibilidade psicológica na hora de gerenciar o desconforto, seja evitando-o ou escapando dele. Essa falta de adaptação provoca o distúrbio de esquiva experiencial, fazendo com que a vida da pessoa que o sofre se mova em torno da evitação das sensações ou pensamentos dolorosos.

A inflexibilidade psicológica ocorre quando uma pessoa se fecha diante de pensamentos, emoções ou lembranças que são dolorosas. O que acontece é que não se tem flexibilidade para continuar com as atividades diárias que promovem o bem-estar, embora possam existir uma ou várias fontes de desconforto. Existe a ideia rígida de que você precisa “estar bem” como um passo prévio para desfrutar qualquer tipo de atividade ou tarefa.

Quando uma pessoa tem um problema a nível psicológico, como ansiedade ou depressão, essa inflexibilidade piora significativamente a situação. Não aceitar o desconforto que leva à ansiedade ou à depressão e procurar eliminá-lo para poder retomar a vida tem duas consequências:

  • Estar consciente do mal-estar e tentar controlá-lo acaba por aumentá-lo. Lembre-se de que a mente não para de pensar; nesse sentido, é como uma caldeira que nunca fica sem combustível. Se tentarmos parar de pensar na tristeza ou na ansiedade, tudo o que faremos é usar mais desse tipo de pensamento como combustível.
  • Transformar o dia a dia em uma luta contra o mal-estar empobrece a quantidade de reforçadores ou prêmios aos quais podemos aspirar. São feitas cada vez menos atividades que aumentam o bem-estar, relacionamentos interpessoais são negligenciados e a pessoa se isola dentro do mal-estar.

A armadilha de “se sentir bem”

Vivemos em uma sociedade que promove o bem-estar, o gozo e a manutenção de tudo que esteja o mais longe possível do sofrimento. É mal visto chorar, ficar triste ou se sentir ansioso, e quando experimentamos algumas dessas sensações ou emoções, lutamos fortemente contra elas.

Na medida em que “se sentir bem” se torna o elemento chave e central de nossas vidas, caímos em sua armadilha. Porque é a busca do bem-estar perfeito que nos faz ficarmos alertas, identificando em nosso radar as emoções negativas que são normais e adaptativas.

Ou seja, quando estamos conscientes do que é bom ou ruim, acabamos detectando qualquer tipo de experiência psicológica desagradável, por menor que seja, e ampliando sua transcendência. Assim, em uma tentativa de deixar de lado essas experiências psicológicas negativas (pensamentos e emoções), tudo o que conseguimos é torná-las mais fortes.

Mulher que sofre de transtorno de esquiva experiencial

Consequências do transtorno de esquiva experiencial

A nível social, as consequências do transtorno de esquiva experiencial são muito importantes. A pessoa espera estar bem para ir ao cinema, estar com amigos, retomar os estudos, ter compromissos e um longo etcetera. Se desenvolvem muitos costumes que procuram evitar experiências psicológicas desagradáveis. Assim, com o passar dos meses e anos, a vida gira apenas em torno da evasão.

Desta forma, podemos chegar a nos tornar verdadeiros especialistas no que não queremos, definindo exclusivamente nossos desejos e anseios através da não presença daquilo que queremos evitar. Desta forma, nossa identidade e projeção do futuro acabam sendo muito pobres.

Assim, a nível psicológico, a esquiva experiencial apenas piora a sintomatologia associada ao desconforto e empobrece a vida emocional do indivíduo. E é por isso que a Terapia de Aceitação e Compromisso (desenvolvida para superar o transtorno de esquiva experiencial) é orientada para a aceitação do desconforto e o estabelecimento de metas que abordem os valores pessoais.

O tratamento do transtorno de esquiva experiencial

Em primeiro lugar, a solução para este distúrbio se encontra na aceitação, observação incondicional e não julgadora das experiências psicológicas, como os pensamentos, emoções e sentimentos. Para alcançar esse objetivo, a terapia de aceitação e compromisso utiliza diferentes estratégias, como o Mindfulness, a desintoxicação cognitiva e metáforas terapêuticas.

Em segundo lugar, o tratamento da esquiva experiencial concentra-se em restaurar a importância dos valores pessoais frente as emoções e os comportamentos impulsivos do momento. A partir desta abordagem terapêutica, deriva a conotação de “compromisso”. Ou seja, trabalha-se para fazer com que a pessoa se comprometa com seus valores, não importa o que aconteça. Buscando deixar de lado a luta contra o desconforto, para se concentrar na luta para preencher a vida de atividades valiosas para si mesmo.

Mãos libertando um pássaro

Lutar contra este transtorno é uma tarefa árdua e envolve um caminho difícil. No entanto, é algo necessário para podermos nos libertar das armadilhas do pensamento e das crenças rígidas que, à procura do bem, nos levam a piorar. Orientar nossas vidas através de nossos valores pessoais, aceitando o desconforto que vem do dia a dia, fará nos sentirmos mais livres e felizes.

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