Transtorno de personalidade masoquista ou autodestrutivo

· outubro 1, 2018

O transtorno de personalidade masoquista foi proposto como um novo transtorno de personalidade em 1987, e foi definido que deveria ser incluído no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais vigente à época, o DSM-III-R. Depois de longas discussões do grupo de trabalho, o nome desse transtorno foi modificado.

Dessa forma, ele passou a ser denominado transtorno autodestrutivo de personalidade. Isso foi feito com o objetivo de evitar a associação da condição com os conceitos psicanalíticos do masoquismo feminino. Ele acabou incluído no DSM-III-R na parte destinada a “Categorias diagnósticas propostas que requerem estudos posteriores” (Fiester, 1991).

Em 1994, o transtorno foi totalmente eliminado da classificação por pressões sociais e políticas. Claro que essa medida não fez desaparecer as muitas pessoas que sofriam e sofrem desse problema, mas serviu, infelizmente, para diminuir o volume de pesquisas realizadas que pudessem trazer mais luz sobre o tema.

O conceito do masoquismo tem sua origem das descrições realizadas no século XIX por Kraft-Ebbing. Esse autor descreveu o comportamento de certas pessoas que buscavam o prazer sexual se submetendo a uma dor física provocada por outra pessoa com comportamentos dominantes. Posteriormente, Freud e outros psicanalistas descreveram um padrão de condutas submissas não sexuais, que ficaram conhecidas como masoquismo mental.

O estilo autodestrutivo de personalidade

As pessoas com esse estilo de personalidade colocam as necessidades dos outros na frente das suas próprias. Ou seja, dão menos importância pra as suas necessidades que para a dos demais.

O que dá sentido à vida da pessoa é esse entregar-se a outra pessoa, chegando inclusive a renunciar ao pessoal com a finalidade de fazer algo por alguém. Não buscam qualquer gratificação. Simplesmente é satisfatório para eles dirigir seus esforços para melhora a vida dos outros. Os autores Oldham e Morris (1995) propõem uma série de características que definem a pessoa autodestrutiva. Vamos vê-las a seguir.

Casal enfrentando transtorno de personalidade masoquista

Características das pessoas com uma personalidade autodestrutiva

A característica essencial do transtorno de personalidade masoquista seria um padrão patológico de comportamento autodestrutivo. Além disso, outros traços que essas pessoas possuem são os seguintes:

  • São pessoas que estão sempre atentas às necessidades dos outros. Tentam satisfazer os outros mesmo que eles não façam nenhum pedido específico para isso.
  • Não são competitivos e nem ambiciosos.
  • Vivem estando a serviço dos outros. São pessoas muito atentas ao jeito de tratar os demais.
  • São tolerantes com os outros e nunca os criticam ou julgam com crueldade.
  • Não gostam de ser o centro das atenções.
  • Têm muita paciência e grande tolerância ao incômodo.
  • Não são irônicos nem pedantes.
  • São éticos, honrados e dignos de confiança.
  • São pessoas ingênuas, inocentes e sofredoras.
  • Não suspeitam de que haja segundas intenções em pessoas para as quais se entregam.

Estas pessoas podem evitar ou descartar experiências agradáveis de forma frequente. Muitas vezes se deixam levar e chegam a situações ou relações em que sofrerão, e não permitirão que outras pessoas forneçam ajuda.

Critérios diagnósticos do transtorno de personalidade masoquista

O transtorno de personalidade masoquista ou autodestrutiva se caracteriza pelos seguintes critérios diagnósticos segundo o DSM-III-R:

A) Um padrão generalizado de comportamentos autodestrutivos, que tem início no começo da idade adulta e está presente em uma ampla variedade de contextos. A pessoa frequentemente pode evitar ou fugir de experiências prazerosas, sentir-se atraída por situações ou relações que as façam sofrer e evitar que outras pessoas a ajudem, como é indicado em pelo menos cinco dos seguintes:

  1. Escolher pessoas e situações que levam à decepção, ao fracasso ou a maus-tratos, inclusive quando há melhores opções claramente disponíveis.
  2. Rejeita ou torna ineficaz as tentativas de ajuda de terceiros.
  3. Depois de eventos pessoais positivos – como uma nova conquista por exemplo – responde com depressão, culpa ou um comportamento que provoca dor – como por exemplo causar um acidente.
  4. Incita respostas de rejeição e irritação nos outros e logo se sente ferido, derrotado, ou humilhado. A pessoa pode, por exemplo, tentar humilhar seu parceiro em público, o que provocará uma resposta irritada, e então a pessoa se sente devastada.
  5. Rejeita as oportunidades para sentir prazer ou se nega a reconhecer qualquer divertimento – apesar de ter habilidades sociais e a capacidade de sentir prazer.
  6. Não consegue realizar tarefas cruciais para alcançar seus objetivos pessoais apesar de ter demonstrado a capacidade para fazê-lo. Um exemplo: ajuda os companheiros de trabalho em suas metas, mas não consegue cumprir as suas do mesmo tipo.
  7. Não tem interesse ou rejeita as pessoas que sempre a tratam bem.
  8. Compromete-se e sacrifica-se excessivamente, mesmo não sendo solicitado pelos destinatários do sacrifício.

B) Os comportamentos da lista A não ocorrem exclusivamente em resposta e/ou como antecipação de um abuso físico, sexual ou psicológico.

C) Os comportamentos de A não ocorrem somente quando a pessoa está deprimida.

Homem com transtorno de personalidade masoquista

Como podemos ver, as pessoas com transtorno de personalidade masoquista têm uma estranha tendência a prejudicar a si mesmas, acumulando problemas e frustrações. A intervenção que esse problema demanda não é nada fácil. A resistência ao tratamento, devido a uma necessidade de ser submisso aos demais junto a esses esquemas derrotistas, faz com que a intervenção psicológica nesse caso precise de tempo para poder produzir qualquer avanço.

Nota de edição: nesse artigo usamos a palavra transtorno por comodidade de escrita e compreensão. É verdade que hoje em dia o transtorno de personalidade masoquista não é mais previsto objetivamente nos manuais diagnósticos, e possui então uma identidade clínica controversa. Sendo muito rigorosos nesse sentido, de qualquer modo, ainda podemos falar das questões desse não mais reconhecido transtorno como problemas pessoais de alguns sujeitos clínicos.