Vincent Van Gogh e o poder da sinestesia no mundo da arte

Vincent Van Gogh e o poder da sinestesia na arte

novembro 19, 2017 em Psicologia 16 Compartilhados
Quadro de Vincent Van Gogh

Vincent Van Gogh explicou nas suas cartas que, para ele, os sons tinham cores e que certas cores, como o amarelo ou o azul, eram como fogos de artifício acariciando seus sentidos. Por isso que o seu “Girassóis” e o “Noite estrelada” são até hoje telas vibrantes dotadas de vida, de movimento. Indícios evidentes, todos eles, de que o célebre gênio pós-impressionista era sinestésico.

Pode ser que esse dado seja novo para muitas pessoas. No entanto, há muito tempo isso se tornou evidente após a análise de muitas dessas cartas que Van Gogh enviava ao seu irmão Theo ou, até mesmo, pela análise das suas pinturas. A Associação Americana de Sinestesia (ASA), por exemplo, demonstrou a presença de “fotismos” no seu estilo de pintura, ou seja, um tipo de resposta sensorial que quem tem cromestesia apresenta.

“A cor representa o entusiasmo da vida.”
-Vincent Van Gogh-

A cromestesia é uma experiência dos sentidos, na qual a pessoa associa sons com cores. Os tons mais agudos, por exemplo, provocam a percepção de cores mais intensas, mais vívidas e brilhantes. Por sua vez, as cores também podem induzir sensações auditivas ou musicais. Era o que acontecia com Franz Liszt quando compunha e também era o que sentia Van Gogh, esse gênio no meio do caminho entre a loucura e a maníaco-depressão que deixou esse mundo sem saber o que acontecia com ele e a importância que suas criações tiveram na arte.

Noite Estrelada sobre o Ródano, de Vincent Van Gogh

Vincent Van Gogh e o mundo das cores

Em 1881, em Haia, Vincent Van Gogh escreveu uma carta ao seu irmão. Na carta, ele explicava que cada pintor tinha sua paleta de cores preferidas e que essas tonalidades preferidas eram uma maneira pela qual o artista conseguia atravessar a escuridão do seu coração para encontrar a luz. Ele também comentou que alguns pintores tinha a majestosa qualidade de usar suas mãos com o virtuosismo de um violinista e que determinadas obras chegavam a ser música pura.

Alguns anos depois, em 1885, Van Gogh decidiu estudar piano. No entanto, essa experiência durou pouco e acabou da pior forma para ele. Pouco depois de começar as aulas, o artista declarou que a experiência de tocar era deslumbrante: cada nota evocava uma cor. Seu professor, assustado com essas declarações, decidiu expulsá-lo do local após declarar que Van Gogh “estava louco”.

Essa informação não deixa de nos fazer dar um pequeno sorriso. Porque dentre todas as patologias que Vincent Van Gogh sofria, essa, a de experimentar sensações cromáticas com estímulos musicais era, sem dúvidas, seu melhor dom, uma nuance que talvez tenha dado à sua arte uma expressividade excepcional e uma riqueza sensitiva pouco observada até o momento. Suas enérgicas pinceladas, por exemplo, dotavam cada detalhe de movimento, nos quais o amarelo lhe permitia sentir a alegria, o som da esperança que em determinados momentos tanto fez falta na vida de Van Gogh.

“Quando sinto falta de alguma religião, saio à noite para pintar as estrelas.”
-Vincent Van Gogh-

Girassois de Van Gogh

Ao mesmo tempo, uma coisa que seus companheiros de ofício criticavam era que o uso das cores que ele fazia nada tinha a ver com a realidade. No entanto, isso era algo secundário para Van Gogh. Não tinha importância alguma na verdade. As cores, para ele, eram a expressão e a busca de determinadas emoções e sensações.

Assim como um dia explicou ao irmão, ele se sentia incapaz de copiar a realidade. Suas mãos, sua mente, seu olhar nunca conseguiram chegar a um acordo com a natureza ou com tudo aquilo que os outros enxergavam com nitidez. Para Van Gogh, o mundo pulsava de outra maneira, ele tinha outras perspectivas, outras formas que materializava do seu jeito. Afinal de contas, a sinestesia tem essa mesma faculdade, a de permitir à pessoa sentir a vida de uma maneira quase privilegiada, mas estranha ao mesmo tempo.

A sinestesia e o mundo da arte

A sinestesia não é uma doença, é conveniente deixar essa informação clara desde o começo. Ela é uma condição neurológica por meio da qual ocorre uma comunicação incomum entre os sentidos que permite ver os sons, sentir o gosto das cores ou escutar as formas… Temos assim, por exemplo, Elisabeth Sulser, a única mulher do mundo que apresenta uma combinação de todas essas características: ela vê cores ao escutar música ou qualquer som e, além disso, também sente o gosto.

Os neurologistas dizem que quando chegamos ao mundo todos somos sinestésicos, mas à medida que nossas estruturas neuronais amadurecem, todos esses sentidos vão se especializando até se diferenciarem uns dos outros.

No entanto, 4% da população conserva essas capacidades sinestésicas, e a grande maioria dessas pessoas, curiosamente, desenvolve capacidades artísticas.
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A sinestesia, por exemplo, é muito comum entre os músicos e entre os pintores, com exemplos como Van Gogh, e escritores, como Vladimir Nabokov. Na verdade, esse último explicou que grande parte da sua família também tinha esse dom, mas que sempre teve a sensação de que não aproveitava essa capacidade tanto quanto deveria, principalmente porque não a entendia.

Sinestesia

Foi a mesma coisa que o próprio Vincent Van Gogh deve ter sentido. A sensação de que o mundo, aos seus olhos e aos seus ouvidos, era às vezes caótico e desconcertante, a sensação de que essa particularidade era mais uma característica da sua loucura aos olhos do mundo. No entanto, hoje em dia já sabemos que a sinestesia colocava uma lente particular nos seus olhos, a partir da qual via a realidade de uma maneira que nos dias de hoje ainda continua nos fascinando.

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