Você nunca me viu nua, nunca soube dos meus sonhos

· maio 1, 2017

Você nunca me viu nua, nunca soube dos meus sonhos. Meus sonhos consumidos pelo passar do tempo que ficou esperando pensando que voltaríamos a nos encontrar. Agora me dei conta de que essa espera foi um tempo perdido com a mente cheia de musaranhos e quimeras. Se uma pessoa está suficientemente apaixonada, não há nada que deva mudar, apenas aumentar a vontade de estar juntos e enfrentar as dificuldades que impedem isso.

Além disso, me dou conta de que nossos encontros íntimos idealizados não eram nada mais que a nuvem de poeira que te distrai de saber a verdade sobre a pessoa que abraça. Despir-se diante de alguém é mostrar que você está apostando até o final, apesar das armadilhas e das tragédias do caminho. Agora me dou conta de que minha nudez só te mostrava minha disponibilidade, mas você nunca percebeu a entrega que havia por trás dela.

Despir-se não é o mesmo que despir-se de corpo e alma

Ainda estando nus, o que passa por nossas mentes é a verdadeira intimidade, que às vezes permanece impávida e inerte, misturada entre carícias e paixão, uma intimidade que se cala por pensar que pode impedir o desenvolvimento da paixão.

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Conversas sobre o futuro e o que é esperado são evitadas pelo fato de que “todas as palavras são inúteis quando se dá um abraço verdadeiro”. Porém, como acreditar nessa linguagem do abraço se para alguém é um momento e para o outro é a eternidade que deseja ser compartilhada?. Quando duas almas estão em paz, não se deveria declarar guerra com o silêncio. É bom falar sobre medos, expectativas, sentimentos.

Porque como é possível fazer um relacionamento se desenvolver normalmente sem saber o que acontece com os sonhos da outra parte? Suas ideias para com a vida, sua maneira de ser feliz como pessoa. Como fazer vista grossa a um sentimento tão forte dentro de uma pessoa?

Despir-se diante de outra pessoa, quando o que se guarda dentro é a verdadeira intimidade

Qualquer pessoa se entrega para a outra sem pensar em receber nada em troca, nada além do que se deriva da mesma qualidade da intimidade. No entanto, espera-se sem pedir que passados os beijos, os abraços e as paixões, isso que existe dentro de nós mesmos saia para fora. Porque esconder o que se sente não é um amor livre, mas sim um amor prisioneiro.

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Você não pode desfrutar do amor romântico ignorando as ilusões e imagens que dele estão surgindo. Às vezes se ignora por medo de ser ferido, por um adiamento do inconsciente ou pela prevenção do compromisso mal-entendido, que não é o cumprimento de uma pena, mas sim se livrar dela quando realmente se vive o que se sente.

Podemos estar dispostos a esperar que o medo se vá, mas podemos ficar esperando e nunca saber o que realmente somos. Talvez seja esse o risco que você não quer correr, mas se você evitá-lo, jamais saberá que poderia se encaixar nos sonhos do outro, mais do que em sua nudez.

O efeito Zeigarnik de alguns relacionamentos

Não há nostalgia pior do que ter saudades daquilo que jamais existiu e não há pior certeza que saber que algo bom se perdeu para sempre. Dizem que os finais abertos e as histórias inacabadas são mais encantadoras, que aquilo que se interrompe sempre é melhor lembrado, “o efeito Zeigarnik” que a psicologia descreve em seus estudos sobre a memória.

No entanto, o que se aplica à memória não serve para o desejo nem para o lamento. Interromper o que se deseja e se ama é um lamento que nunca será lembrado de forma heróica, mas sim revelando a covardia que existiu naquele momento. Calar-nos nus para não incomodar, perdedores de um amor que o esquecimento arrastará.