3 ideias equivocadas sobre o tratamento da depressão

· dezembro 17, 2017

Hoje em dia vemos algumas ideias equivocadas sobre o tratamento da depressão não só nas conversas nas ruas, mas também em ambientes supostamente especializados no tratamento desses distúrbios. Essas ideias, infelizmente, correspondem em partes a interesses da indústria farmacêutica e se difundem devido ao desconhecimento da população que lhes confere veracidade, sem realizar questionamento algum às palavras de determinadas figuras de referência no assunto.

Nesse sentido, essas ideias e esses argumentos equivocados, carentes de fundamentação científica, não são inócuos. Eles contribuem para que os próprios pacientes não exijam um tratamento psicológico ou estimulam os médicos e os psiquiatras a não oferecem um tratamento adequado, ou ainda a não encaminharem os pacientes a psicólogos habilitados a proceder com o tratamento.

Vamos ver as 3 principais ideias equivocadas sobre o tratamento da depressão.

Mulher cobrindo seu rosto

3 ideias equivocadas sobre o tratamento da depressão

A depressão não se cura com psicoterapia

Por exemplo, o portal DMedicina, associado ao jornal El Mundo, afirma que “não existe nenhum estudo que demonstre que as técnicas psicológicas possam erradicar a depressão. […]Para a depressão, o único tratamento que demonstrou eficácia foi o tratamento farmacológico”. É curioso como, pesquisando um pouco, conseguimos encontrar vários estudos sérios e rigorosos que contradizem os resultados de tais afirmações.

E mais, já não falamos de estudos individuais, mas de metanálises (estudos que recolhem dados de vários estudos individuais e analisam com técnicas estatísticas o que seria o resultado de um contraste conjunto). Esse tipo de estudo é muito importante para tirar conclusões gerais: não utilizam apenas uma amostra abrangente, mas também incluem diferentes sub-amostras.

Exemplos desse tipo de metanálise que demonstram a eficácia da psicoterapia para curar a depressão seriam os de Cuijpers, Berking et al. (2013) ou o mais recente de Johnsen e Friborg (2015). Nesse último, os pesquisadores analisaram 43 estudos diferentes. Eles descobriram que, ao final da terapia cognitivo-comportamental, 57% dos pacientes poderiam ser considerados “curados” da depressão.

Por outro lado, é verdade que a terapia cognitivo-comportamental é a mais frequente e a que tem mais estudos realizados. Por isso, ela costuma representar um grande peso nas metanálises. No entanto, há outras terapias que se mostraram efetivas no tratamento da depressão e que poderíamos considerar como tratamentos bem estabelecidos, segundo o critério da APA (Associação Americana de Psicologia, sigla em inglês). São as seguintes:

  • Terapia de ativação comportamental (ou terapia de comportamento).
  • Terapia congnitivo-comportamental.
  • Terapia de solução de problemas.
  • Sistema de psicoterapia de análise congnitivo-comportamental de McCollough.
  • Terapia de autocontrole de Rehm.

Por outro lado, uma ideia resultante dessa e que é igualmente falsa e disseminada seria a de que a psicoterapia somente seria eficaz para tratar uma depressão leve ou moderada, mas não para tratar uma depressão grave. Na contramão dessa ideia, por exemplo, Driessen, Cuijpers, Hollon e Dekler (2010), baseando-se nos resultados de cento e trinta e dois estudos, não conseguiram estabelecer que a variável gravidade da depressão estivesse relacionada às diferenças entre as pessoas que tinham recebido uma terapia daquelas que tinham pertencido à condição de controle (a interação da variável gravidade da doença com o benefício da psicoterapia não foi significativamente diferente de 0).

À luz dos resultados, podemos afirmar que essa ideia é uma das ideias equivocadas sobre o tratamento da depressão, assim como o é a ideia de que a psicoterapia seria inútil nos casos de depressão grave. Outra questão relacionada a essa última ideia é que, no caso dos pacientes mais graves, o tratamento farmacológico possa ser considerado uma ajuda inestimável para que o paciente comece a terapia mais equilibrado.

Mãos pedindo ajuda

A psicoterapia é menos efetiva que o tratamento farmacológico

Por exemplo, na metanálise que citamos anteriormente de Cuijpers, Berking et al. (2013) há pelo menos 20 estudos no qual se compara a eficácia dos tratamentos farmacológicos para a depressão com a terapia cognitivo-comportamental e descobriu-se que o tamanho do efeito da diferença era praticamente zero (g=0.03). Além disso, essa ausência de diferença foi independente do procedimento de avaliação empregado e do tratamento farmacológico aplicado (a interação entre os fatores não foi significativamente diferente de zero).

Convém fazer um esclarecimento nesse sentido. Os estudos nos quais se comparam os resultados da terapia interpessoal com o tratamento farmacológico mostrariam uma leve tendência a favor de determinados tratamentos farmacológicos. De qualquer maneira, esse último dado deve ser analisado com cautela, pois o número de estudos é muito menor em relação a aqueles que comparam o efeito da terapia cognitivo-comportamental com o tratamento farmacológico.

Assim, o pensamento de que a psicoterapia é menos efetiva que o tratamento farmacológico seria outra das ideias equivocadas sobre o tratamento da depressão.

O tratamento da depressão é longo

Em primeiro lugar, vamos estabelecer que “longo” e “curto” vai depender de onde estimamos que se situa a linha que divide os dois extremos. Atualmente, consideramos que o marco temporal no qual se situam as terapias (aquelas que enumeramos como eficazes) é de 16 a 20 sessões, divididas em 3 ou 4 meses. Certamente, sempre há casos especiais nos quais a psicoterapia breve se transforma em muito breve ou se prolonga no tempo.

De qualquer maneira, em nenhum caso as terapias que apontamos como eficazes estabelecem um plano de intervenção de mais de 6 meses. Caso não se obtenha os resultados previstos para esse período, seria necessário reavaliar a situação. Nem todas as psicoterapias servem para todos os pacientes em todas as condições. Por outro lado, assim como acontece com as operações cirúrgicas, por exemplo, nem todos os psicólogos têm as mesmas habilidades para tratar todos os transtornos do mesmo ângulo.

Os estudos dizem, por exemplo, que a média de uma terapia cognitivo-comportamental bem-sucedida para a depressão é de 15 sessões (Cuijpers, Berking et al.). Nessa previsão, seria preciso contar à parte as recaídas, pois elas podem ocorrer por diversas razões e nem sempre estão relacionadas com a intervenção terapêutica. Dentro dessa gama heterogênea de razões que podem favorecer uma recaída encontramos: um acontecimento traumático, dinâmicas familiares desadaptativas ou configuração de hábitos que levem ao isolamento ou à marginalização social.

As ideias equivocadas sobre o tratamento da depressão vão além do que foi exposto aqui. Nesse sentido, os psicólogos souberam desenvolver pesquisas e terapias efetivas, mas não souberam expor tais pesquisas e terapias para a sociedade. Nesse caminho ainda resta muito trabalho a ser feito.

Referências bibliográficas:

Cuijpers, P, Berking, M. et al. (2013). A meta-analysis of cognitive behaivour therapy of adult depression, alone and in comparasionwith other treatments. Candian Journal of Psychiatry.

Cuijpers, P., Hollon, S.D. et al. (2013). Does cognitive behaviour theraphy have an enduring effect that is superior to keeping patientson continuation pharmacotherapy? An meta-analysis. BMU OPen, 3.

Sanz, J. y García-Vera, M.P. (2017). Ideas equivocadas sobre la depresión y su tratamiento (II). Papeles del psicólogo. Vol. 38.