5 erros comuns na educação de nossos filhos

março 6, 2019
Educar nossos filhos é muito mais do que prestar atenção nos seus estudos; implica também fomentar a responsabilidade, o amor próprio e a autonomia.

É comum escutarmos uma frase muito típica que diz “ninguém nos ensina a ser pais”. Ela não poderia ser mais verdadeira, principalmente porque cada criança é diferente e não existe uma receita igual para todos. No entanto, conhecer alguns dos principais erros na educação das crianças pode impedir que acabemos fazendo a mesma coisa com os nossos filhos.

Em algumas ocasiões, é o medo de fazer algo errado que justamente vai fazer com que o façamos. A pressão do nosso entorno pode ser muito grande nesse mesmo sentido. Por isso, nesse artigo vamos propor uma mudança de perspectiva, para colocá-la em algum ponto entre fazer tudo certo e fazer tudo errado, e que possibilita ir identificando e corrigindo os erros na educação que, inevitavelmente, cometemos em muitos momentos.

“O estudante que nunca precisa fazer o que não consegue acaba não fazendo nem o que consegue”.
-John Stuart Mill-

Os erros na educação que cometemos com mais frequência

1- Querer criar um gênio por meio da educação

A necessidade de dar aos nossos filhos ferramentas para o futuro com a esperança de que ele seja fantástico é uma consequência de querer torná-los gênios, ainda que tenham que pagar um preço muito alto por isso. Isso leva muitos pais a superestimulá-los desde pequenos, enchendo seus dias de atividades ou propondo metas sem descanso.

Filósofos como Epicuro, Heidegger e Byung-Chul dedicaram livros e análises a possíveis consequências da má fama do tédio em nossa sociedade. Atualmente a psicologia e a filosofia enfatizam a importância desse sentimento para o desenvolvimento da criatividade e da solução de problemas.

Como educar nossos filhos da melhor maneira

Querer gênios também pode fazer com que fiquemos impacientes diante das primeiras dificuldades, ou diante dos primeiros resultados não tão positivos das nossas crianças. Esquecemos que a educação de nossos filhos é um processo a longo prazo, que a aprendizagem implica tentativa e erro, e também muita paciência. Além disso, não podemos esquecer que a autoestima tem um papel fundamental nos resultados escolares.

Um livro escrito por Colin Rose e J. Nicholl descreve um estudo que comprovou que 82% das crianças que começam a estudar confiam bastante em suas habilidades para aprender. Essa porcentagem cai para 18% aos 16 anos, e mais ainda antes de entrar na universidade.

“A educação de nossos filhos implica o entendimento de que ela é um processo que se desenvolve a longo prazo, e de que a paciência é fundamental”.

Além disso, a exigência exagerada em relação às crianças incide diretamente sobre sua autoestima. Elas sentem que não podem cumprir todas as nossas expectativas, e isso é levado durante todo o processo de crescimento até a vida adulta, causando problemas no futuro, quando podem se tornar adultos desmotivados.

“Ficar entediado no momento certo é sinal de inteligência”.
-Clifton Fadiman-

2- Colocar todo o foco no estudo

Quando tornamos os estudos o centro da nossa vida familiar, a mensagem que damos aos nossos filhos não é muito boa. Eles passam a acreditar que os vemos com esse foco, não acreditam que os tomamos como pessoas e que levamos em conta sua vida pessoal ou emocional. As perguntas que fazemos no jantar giram ao redor de como foi a escola no dia? As notas? As lições? O resto das circunstâncias parece não ser importante, e isso é um perigo.

Podemos chegar a não pedir a ajuda das crianças ou casa, ou não dar outras responsabilidades, porque entendemos que sua única responsabilidade é estudar. Concentramos tudo nessa questão mas descuidamos de outras áreas, como se relacionar, adquirir habilidades e responsabilidades, suas vontades e sonhos.

“Focar a educação de nossos filhos unicamente no estudo é um erro que implica deixar de lado outras áreas importantes, como o fomento da responsabilidade”.

3- Premiar ou castigar notas

Agora vem o tema das notas. Costumamos premiar as notas altas e castigar as baixas. Por um lado, deixamos de fora fatores internos e externos que influenciam a nossa concentração, rendimento e atenção. Por outro, quando damos constantemente um reforço externo, a motivação interna acaba se perdendo.

Como disse Joan Domenech, professor de uma escola de Barcelona, na Espanha, “O melhor estímulo é descobrir coisas novas e desenvolver seu interesse; se a criança precisa de um estimulo material, algo não está funcionando”. Até mesmo Marx nos chama a atenção para os perigos do materialismo, de fazer tudo apenas para conseguir um objetivo e converter nossos filhos em pequenos capitalistas.

O melhor que podemos fazer é premiar seus bons resultados com frases como “estou muito orgulhoso de você” ou “você deve se sentir muito orgulhoso pelo seu esforço e seus resultados”. Por outro lado, quando as notas não foram muito boas, tentar analisar o que aconteceu junto com eles é o ideal.

Por exemplo, se é difícil para a criança se concentrar, se não se organiza ou se não entende a lição de casa, pode estar precisando de um reforço adicional, como aulas particulares. Nesse caso, a mensagem deve ser “o que eu posso fazer para te ajudar a ter um desempenho melhor?”

“Longo é o caminho do ensinamento por meio de teorias, breve e eficaz por meio de exemplos”.
-Séneca-

4- Estudar e fazer a lição com eles ou para eles

Ainda nesse aspecto dos estudos, muitos pais estudam e fazem as lições de casa com os filhos. Essa ação pode ter muitas consequências, presentes e futuras. Em função da maneira como fazemos isso, podemos gerar uma dependência e fazer com que as crianças sejam incapazes de enfrentar qualquer tarefa escolar sem a nossa ajuda.

Além disso, uma ajuda não muito eficiente com as lições pode gerar conflitos e brigas porque os pais, apesar de serem os principais educadores, nem sempre contam com as melhores ferramentas para ajudar em todas as matérias.

Devemos deixar que cometam erros e que os professores sejam os responsáveis por corrigi-los. A lição pode ser uma excelente forma de fomentar a autonomia. Como disse Piaget, a autonomia é a capacidade de governar a si mesmo e de tomar as próprias decisões.

“Aprender sem pensar é um esforço perdido; pensar sem aprender, perigoso”.
-Confúcio-

Pai pintando com a filha

5- Não respeitar as diretrizes e exigências escolares

Outro aspecto, não menos importante, é que muitos pais questionam constantemente a linha que o colégio segue. Criticam a quantidade de tarefas de casa, o conteúdo delas, os trabalhos que mandam, etc. Supõe-se que quando escolhemos um colégio, estamos de acordo com a ideologia do mesmo, e se o criticamos, estamos enviando uma mensagem confusa e cometendo um dos grandes erros na educação de nossos filhos.

É verdade que muitas vezes os professores mandam muita lição de casa, e isso pode deixar nossos filhos atordoados. Mas isso depende de cada método de ensino, das características das crianças, entre outros aspectos. É importante aceitarmos, porque escolhemos aquela escola e, dessa forma, estaremos dando um bom exemplo para os nossos filhos. Deixemos que, a partir de uma certa idade, sejam eles os responsáveis por tomar a iniciativa para solucionar as dificuldades escolares.

“Eu não sou um professor, sou só um companheiro de viagem a quem perguntar o caminho”.
-George Bernard Shaw-

Não existem receitas para ajudar, mas existe um horizonte que pode nos orientar. Por exemplo, um plano canadense chamado Movimento 24 horas recomenda entre 9 e 11 horas de sono por dia, pelo menos uma hora de exercício diário, e menos horas de ócio diante de telas.

Esse movimento, por sua vez, também conclui: “Descobrimos que mais de duas horas de ócio recreativo com telas estão associadas a um pior desenvolvimento cognitivo em crianças”. Por isso, as horas de ócio deveriam ser voltadas para brincadeiras diversas, sem telas e escolhidas por eles.

Quanto aos estudos, é importante que sejamos flexíveis, pacientes, escutemos nossos filhos e nos coloquemos em seu lugar. Também que não foquemos exclusivamente nos estudos e descuidemos de outros aspectos de suas vidas. Que não prejudiquemos nossa relação ao nos tornarmos professores ou supervisores de lição de casa.

Devemos deixar que eles fracassem. Que eles fiquem entediados. Tirar notas baixas é normal, e eles sempre podem aprender com os seus erros. Ser autônomo é importante porque isso fortalece e dá referências para o futuro, e essa é a melhor educação que podemos dar a eles.