A Bela e a Fera: a renovação de um clássico

· fevereiro 16, 2018

‘A Bela e a Fera’ é um conto de origem francesa que guarda certa relação com o mito da Psique e Cupido que aparece no clássico latino O burro de ouro. Hoje todos nós lembramos dele graças à adaptação cinematográfica da Disney de 1991.

Recentemente ele foi trazido de volta para a telona, desta vez em uma versão não-animada, sob a direção de Bill Condon e com um elenco que conta com atores do nível de Ewan McGregor, Ian McKellen e Emma Thompson, com Emma Watson no papel de Bela e Dan Stevens no de Fera.

Bela, a primeira estranha de uma longa lista

Nos anos 90 houve um verdadeiro furor pelas princesas da Disney. A maioria delas nasceu nesta década, embora algumas já fossem veteranas, como a Branca de neve ou a Cinderela. A verdade é que se ordenarmos as princesas cronologicamente até os nossos dias, nos daremos conta da grande evolução que elas vivenciaram.

A maioria dessas princesas, especialmente a primeira, responderam à imagem da dona de casa ideal: eram lindas, jovens e gostavam de fazer as tarefas da casa, refletindo a mulher exemplar de um tempo. Todas elas têm em comum um passado sombrio (perderam a mãe ou o pai), uma situação tempestuosa e um final feliz com seu príncipe. A Disney levou muito tempo para perceber que tinha que renovar essas histórias, por isso os passos foram dados pouco a pouco.

Bela seria a primeira a se desviar um pouco (apenas um pouco) do caminho que havia marcado as suas antecessoras. Bela era especial. Fisicamente ela era uma mulher jovem e bonita, mas não uma Branca de Neve de beleza inatingível. Seus traços eram mais semelhantes aos das “mortais”. A escolha da cor de seus olhos e cabelos (castanhos) é uma quebra com o padrão de beleza.

Cena de 'A Bela e a Fera'

O castanho é o eterno esquecido no mundo do cabelo, pense por um momento nos padrões de beleza; em canções, ou poemas que aludem aos cabelos das mulheres. Em anúncios de tintura… Enfim, quando queremos representar a beleza nós vamos ao cabelo louro ou ao preto, mesmo ao ruivo, que é o menos comum, mas o castanho é quase invisível.

Bela vem de uma pequena aldeia francesa, um lugar onde as pessoas estão pouco ou nada interessadas em ler. Ela tem uma paixão pela leitura que lhe rende o apelido de “estranha”. A leitura permite-lhe escapar um pouco de sua vida na aldeia, conhecer outros mundos e ampliar seus horizontes; ela é uma menina com muitas preocupações e sede de conhecimento.

Como vemos, Bela é uma menina inteligente, confiante, que quebra um pouco com os estereótipos que a Disney vinha desenhando… Mas, é claro, não estaríamos falando de uma princesa da Disney dos anos 90 se ela não tivesse um príncipe. Bela não seria uma exceção, ela também cairia nas garras do amor e, embora o propósito do filme seja mostrar o poder da beleza interior, não deixa de cair sobre o tema da princesa que tem seu final feliz com seu príncipe que, embora costumasse ser um animal, se torna um homem muito bonito.

‘A Bela e a Fera’, um novo enfoque

A intenção do filme 1990 era boa, sem dúvida, e é certo que a mensagem de que a beleza está no interior foi transmitida a todos (ou quase todos). Bela se apaixona pela Fera e por isso deixa de lado as aparências, portanto, acho que devemos tomar a transformação da Fera como a libertação do seu verdadeiro eu, como um reflexo de sua beleza interior. Essa beleza, além de ser subjetiva, também é influenciada pelo interior da pessoa.

A verdade é que a Disney está progredindo em termos da representação feminina em seus últimos filmes, mas é muito interessante esta nova versão de ‘A Bela e a Fera’, lançada em 2017, uma vez que inclui algumas pequenas piscadelas que conferem um toque fresco a uma velha história.

É inevitável que esta nova versão nos lembre de sua irmã em animação, porque visualmente as semelhanças são inquestionáveis, desde os figurinos e a escolha dos atores até os cenários e os objetos do castelo; também nos referimos à versão dos anos noventa graças à trilha sonora, onde mal se notam as mudanças.

Penso que a essência desta nova versão tem sido, principalmente, esse respeito em relação a sua antecessora, porque, quando uma adaptação de um clássico é feita, devemos estar muito conscientes de que o público terá muito presente a versão anterior. Às vezes podemos cair em renovação extrema e criar algo completamente diferente e muito longe da ideia original.

‘A Bela e a Fera’ respeita o enredo principal, acrescentando algum elemento que esclarece as lacunas da versão animada, como o que aconteceu com a mãe de Bela. Assim, ele nos aproxima dos personagens e sentimos uma simpatia maior por eles.

Por outro lado, inclui inúmeros personagens negros que se misturam aos brancos com normalidade total, alguns ainda têm sotaques normalmente não associados a pessoas negras como Madame de Garderobe, que tem sotaque italiano e é negra; provando que a cor da pele não tem necessariamente de estar ligada à origem. Na mesma linha, encontramos inúmeros casais inter-raciais, como a referida Madame de Garderobe e seu marido, Maestro Cadenza; Ou Lumière, o candelabro mítico, e sua amada Plumette, que também é negra.

Cena de 'A Bela e a Fera'

Além disso, ao longo de ‘A Bela e a Fera’ percebemos que o personagem LeFou, cujo nome francês significa louco ou maluco, mudou muito desde a versão de 1990. No filme anterior, ele era um personagem que honrava ao seu nome e era um súdito de Gaston; neste, percebemos que esta devoção a Gaston talvez vá mais além e que, provavelmente, não seja tão louca como parece.

Le Fou mostra alguns sinais de paixão em relação a Gaston, mas quando descobre o que ele realmente é, se revela. Há uma cena muito significativa em que Madame Garderobe, ainda um armário, veste três jovens de mulheres e dois deles ficam bravos com isso; no entanto, um deles parece sentir-se confortável e sorri em gratidão. É algo muito sutil, um pequeno piscar de olhos, mas muito importante. Além disso, no final do filme, vemos como este personagem acaba dançando com LeFou e ambos estão felizes.

Assim, ele normaliza o que deveria ser normal e reafirma o propósito da obra, que é a beleza interior. Não importa o gênero, raça ou proveniência, nada disso é importante, o amor vai além e não entende de barreiras ou imposições.

Considero que esta nova versão de ‘A Bela e a Fera’ era realmente necessária, era necessário incluir este tipo de relação em um clássico como este que, precisamente, fala de amor sem se importar com as aparências. Este é um pequeno passo, mas muito significativo e muito necessário hoje. Se continuarmos assim, talvez um dia e em futuras versões de princesas da Disney, ser bonita não seja mais uma exigência para ser “princesa”.

“Não é errado ser bonita, errada é a obrigação de sê-lo”.
-Susan Sontag-