A dor como professora e não como inimiga

A dor como professora e não como inimiga

24, setembro 2015 em Psicologia 2 Compartilhados
a dor como professora

“Eu sou um espectro da sombra do que eu fui, a pegada da distância que marcou a minha evitação e ainda não entendo o propósito da minha vida. Quem nos trouxe até aqui?

Os anos passam e mudam à medida que o vento sopra, mudam de acordo com meus eventos e, quando eu mais preciso, eu rezo para que o que me disseram seja verdade. Eu me agarro ao pôster, ao guia, aos pilares de sustentação do meu peso, sem perceber, até finca-los no chão frio e duro.

As manhãs tornam-se gigantes e a noite eterna. Eu gostaria de ter a energia de um cometa, embora já me conformasse com seu rastro. Por que o destino nos faz sofrer? E por que sofrem com o meu destino os demais? Talvez eu devesse me manter só, mas o meu egoísmo me impede, preciso me agasalhar nos braços de outrem, me aquecer com a batida de um coração e sentir o vento na respiração de um amigo de alma.

A dor, aprendi que deveria evitá-la, fugir dela, negá-la. No entanto, ela retorna com mais força, nunca me abandona e ainda me agarra.

Dor amarga, eu não a quero, deixe-me e vá.

Dor amarga, por que você me agarra com tanta força?

Me ensinaram a não pensar sobre isso, me ensinaram a procurar sempre um remédio, me ensinaram a tomar medicamentos, pomadas e a utilizar mil curativos. Me disseram para ignorá-la, para que eu focalizasse a minha atenção em outras coisas que me fazem fugir de sua presença, como o diabo foge da cruz”.

Por que fugimos da dor?

Em alguns momentos de nossas vidas, talvez em muitos, este diálogo interno de uma pessoa que sofre possa nos soar familiar. Seja a dor física ou psíquica, nossa cultura nos ensina a fugir dela, a buscar um remédio à custa de tudo o que for necessário.

Às vezes abusamos de drogas e medicamentos que são remédios, não remendos que cobrem o que nos assusta….

A sociedade moderna não suporta a dor; ela é entendida como antinatural, e aí começa o grande problema. Nós a desnaturalizamos e queremos transformá-la em uma inimiga, de quem temos que fugir, e não entendê-la como algo desagradável, mas que é natural.

Alguns problemas físicos têm uma solução, outros não; em muitos casos os medicamentos são necessários, mas as pessoas podem se tornar viciadas e, em alguns casos, os efeitos da medicação geram mais mal do que o que nos machuca.

a dor nos ajuda a aprender

A dor psíquica

Mas e os problemas psicológicos? A dor da alma? O que fazer com eles? Diante o desconforto emocional não há nenhuma pílula, terapia ou remédio que o alivie. O que fazemos? Fugimos e tentamos pensar menos nela ou a evitamos ainda mais, até que reaparecem os pensamentos com mais força.

Para lidar com a dor podemos optar pela fuga, por aquilo que as terapias modernas dão o nome de “Evitação experiencial”, mas isso pode tornar nossa dor algo crônico, adicionando a ela outros aspectos como tristeza, angústia, amargura e desespero.

Se isso não adianta, o que podemos fazer para lidar com a dor? Vê-la como algo natural, algo do qual não precisamos fugir, algo que simplesmente faz parte da vida.

É uma outra maneira de olhar para a dor, olhá-la nos olhos, sem fazer juízos de valor, observá-la, entender como ela é, sem pensar, sem palavras, sem emoções, só olhar e aprender com ela; sem evitar, sem fugir, desmantelá-la pouco a pouco, sem controlá-la.

A dor é apenas a dor

Basicamente, precisamos aprender que a dor é só a dor, e o seu alívio depende simplesmente de como decidimos enfrentá-la: fugindo e transformando-a em algo crônico e prejudicial ou entendendo que esta é uma parte inevitável da vida.

A dor aparece como as marés, vai e vem. Precisamos prender a viver com ela, não a partir da submissão, não a partir do desamparo, mas sim da aceitação, lutando por nossas vidas de uma forma ativa.

Para vencê-la você não deve fugir de si ou dela, mas aprender a lidar com ambos. E, embora em muitos casos seja difícil, diante da dor também podemos aprender a viver, a desfrutar do momento presente e de outras coisas boas que a vida nos dá.

“Com a dor, no final, eu aprendi que embora no início eu não gostasse dela, ela me formou como pessoa e me fez crescer”
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Imagem cortesia de Leon Chong

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