A ínsula, o manancial das nossas emoções e da empatia

O lobo da ínsula é uma região que chama a atenção da neurociência pelo seu possível papel na tomada de decisões, nos processos cognitivos e emocionais e nos níveis de atenção.
A ínsula, o manancial das nossas emoções e da empatia
Valeria Sabater

Escrito e verificado por a psicóloga Valeria Sabater.

Última atualização: 27 abril, 2024

A ínsula é uma área cerebral tão desconhecida quanto essencial para entender o nosso comportamento. Há quem diga que é nela que está localizado o núcleo da nossa “consciência”. Por ora, os neurologistas afirmam apenas que essa estrutura funciona como o manancial das nossas emoções, o lugar da nossa empatia e o cofre da nossa intuição.

A neurociência é sem dúvidas uma disciplina fascinante que nunca deixa de nos surpreender. Há alguns anos se descobriu, por exemplo, que existem pessoas capazes de parar de fumar de uma dia para o outro com total naturalidade e sem passar por nenhuma síndrome de abstinência. A razão? Quando fizeram uma ressonância magnética, descobriram que elas tinham uma pequena lesão na ínsula cerebral.

“O cérebro não é um copo que pode ser preenchido, mas uma lâmpada que pode ser acesa.”
-Plutarco-

Além disso, outro aspecto demonstrado é que a alexitimia também está relacionada com um problema nessa mesma área do cérebro. Essa acentuada dificuldade de ter empatia com as emoções alheias, essa incapacidade de reconhecer as próprias emoções ou de expressar verbalmente algum tipo de sentimento está intimamente vinculada a essa região tão especial do nosso cérebro.

A ínsula é de fato um mágico manancial que umedece com sensações e emoções cada estrutura do nosso cérebro para que possamos reagir, tanto de forma positiva quanto negativa. Porque é ela que nos confere a sensação de nojo, orgulho, luxúria. Também é ela que nos convida a entender o comportamento alheio e inclusive a responder emocionalmente à música…

A ínsula, o manancial das nossas emoções e da empatia

A ínsula, uma estrutura multifuncional

A ínsula é uma pequena região do córtex cerebral localizada no interior do sulco lateral. Para chegar até ela teríamos que seguir para dentro da grande fissura que separa os lobos frontal e parietal do lobo temporal. Se estivéssemos lendo esse artigo nos anos 80, a única coisa que poderíamos informar é que a ínsula é uma área obscura do cérebro, uma estrutura com funções desconhecidas sobre as quais foram construídas centenas de hipóteses ao longo da história.

No entanto, com a chegada da década de 90, fez-se a luz. Graças ao avanço nas técnicas de análise e diagnóstico, essa obscuridade teórica começou a ficar para trás e surgiram descobertas surpreendentes. Como resultado de vários estudos realizados com pacientes que sofreram danos cerebrais nessa região, foi possível observar que, na verdade, a ínsula desempenha um papel muito amplo em muitas das nossas atividades cotidianas.

Assim, e apenas como curiosidade, se perguntássemos agora a vários cientistas quais processos essa área realiza, eles nos dariam uma resposta tão rica que ficaríamos impressionados: na dor, no amor, na emoção, nas vontades, nos vícios, no gosto pela música, na tomada de decisões, na degustação de vinhos e na consciência. Incrível… Não é?

Na verdade, todos esses processos poderiam ser resumidos em apenas um: a ínsula é o lugar da nossa consciência social.

Nuvem em forma de coração sobre lago

A ínsula, a pedra angular da nossa consciência

Os neuropsicólogos afirmam que devemos ter muito cuidado ao atribuir uma função tão grande como a geração de consciência a qualquer região do cérebro. No entanto, dada a participação da ínsula em grande parte do nosso comportamento social e emocional, não é difícil pensar nessa hipótese devido ao apelo do termo e à complexidade de definir com exatidão quais tarefas, funções e processos essa área desempenha.

Apenas como curiosidade, um aspecto que ficou comprovado foi que as pessoas que sofreram um dano grave na ínsula são o claro exemplo de um ser humano completamente desvinculado do ambiente e, inclusive, de si mesmo. Estaríamos falando de alguém caracterizado por uma profunda apatia, alguém carente de empatia, incapaz de aproveitar qualquer aspecto da vida e incapaz até mesmo de sentir “nojo”; ou seja, a pessoa não conseguiria, por exemplo, diferenciar um alimento fresco de um podre…

A ínsula nos oferece uma percepção do que somos

Os cientistas afirmam que a ínsula é como se fosse a confluência do nosso ser, onde cada um toma consciência do corpo e da mente. No entanto, para compreender melhor, um detalhe precisa estar absolutamente claro: nenhuma estrutura cerebral trabalha de maneira isolada.  Quando embarcamos na clássica conversa de dizer que tal pessoa utiliza o hemisfério direito porque é muito criativa, na verdade estamos enganados porque o cérebro é “um todo”, todas as áreas cerebrais estão conectadas entre si e esse órgão trabalha em perfeita harmonia através de infinitos circuitos e maravilhosas conexões.

A mesma coisa acontece com a ínsula. Ela está conectada fisiologicamente ao nosso corpo, participa na percepção do olfato, gera sentimentos subjetivos para despertar a fome, recebe informação dos receptores da pele e dos nossos órgãos para que possamos reagir quando estamos com frio ou calor ou quando sentimos uma ardência ou uma picada, e também é ela que nos diz coisas como “saia desse quarto porque você precisa de ar fresco para limpar a sua mente”.

Pessoas navegando por mar de cérebros

Por outro lado, é importante destacar mais um fator: os animais também têm essa estrutura maravilhosa nos seus cérebros. Portanto, eles também têm esse sentido de consciência física e emocional. Assim, quando um gato, um cachorro, um demônio-da-tasmânia ou um lêmure sentem calor, buscam uma sombra. Quando encontram alimento, vão preferir o fresco ao podre. Quando um animal se encontra com outro, sua intuição vai dizer se este está com boas ou más intenções, se pode ser uma presa ou, pelo contrário, se é alguém com quem pode estabelecer determinado vínculo.

Paralelamente, assim como nos dizem os neurobiólogos, os seres humanos, os grandes primatas, as baleias e os elefantes possuem ínsulas muito mais complexas e sofisticadas.

A ínsula e os nossos vícios

A ínsula possui várias áreas diferenciadas. Sabe-se, por exemplo, que a ínsula frontal está relacionada com as nossas emoções, com o amor e o ódio, com a gratidão e o ressentimento, com a vergonha e a desconfiança, com a empatia e o desprezo… Dito isto, existe um ponto entre a área frontal e o córtex cingulado anterior no qual se concentram todos os processos associados aos vícios.

“A energia da mente é a essência da vida.”
– Aristóteles –

Por exemplo, quando uma pessoa está parando de fumar, há alguns estímulos que aumentam o desejo e a síndrome de abstinência. Determinados cheiros, situações sociais e cenários intensificam essa ansiedade que secretamente regula a nossa ínsula cerebral. Tudo isso se deve a um aspecto muito relevante, isto é, o fato de que a ínsula está intimamente vinculada ao sistema límbico.

São muitas as pesquisas que nos mostram como essa pequena estrutura contribui para manter o comportamento viciante, que é conhecido como fenômeno “craving” ou o intenso desejo de consumo.

A ínsula, o manancial das nossas emoções e da empatia

Para concluir, assim como pudemos ver, a ínsula é capaz de nos conduzir ao melhor de nós mesmos como espécie (a empatia e o valor das emoções positivas) e também a esse lado mais negativo, como o estabelecimento de determinados processos de dependência. É muito provável que nos próximos anos sejam feitas novas descobertas sobre ela, sobre esse pequeno manancial cerebral que nos presenteia várias e complexas sensações que nos transformam em seres humanos.

Assim, e como curiosidade final, sempre que curtimos uma música ou apreciamos uma taça de vinho, nos lembremos de quem nos permite aproveitar esses prazeres: a ínsula.

Referências bibliográficas:

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Imagens cortesia de Vladimir Kush


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