A prevenção do suicídio

09 Setembro, 2020
De acordo com estimativas recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), um milhão de pessoas se suicidam no mundo todos os anos. Por isso, o suicídio é considerado a causa de morte violenta número 1 da atualidade. Entretanto, a prevenção do suicídio é possível se os fatores de risco que determinam o comportamento suicida forem devidamente identificados e controlados.
 

A prevenção do suicídio é possível? Podemos ser eficazes na sua previsão? Embora esta conduta, como todo comportamento humano, seja complexa e esteja cercada por muitas variáveis com pesos distintos, existem alguns indicadores que podem nos orientar na sua detecção e prevenção.

Algumas populações podem ser consideradas de risco e determinadas circunstâncias podem indicar fatores de risco, ou possíveis gatilhos de futuras condutas suicidas. Entre elas, destacam-se as enfermidades mentais, principalmente a depressão e a esquizofrenia. Os transtornos de personalidade, principalmente o transtorno limítrofe da personalidade, bem como o transtorno antissocial ou doenças físicas crônicas incapacitantes, provocam vulnerabilidade biológica e/ou psicológica.

A prevenção do suicídio sempre foi uma preocupação. Por isso, existem diferentes protocolos de atuação em quase todos os lugares do mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que cerca de um milhão de pessoas cometam suicídio no mundo todos os anos. Esta é uma das três principais causas de morte em adolescentes e jovens adultos, e a décima na população geral, tendo sua taxa aumentada em aproximadamente 60% nos últimos 50 anos.

“Abandonar a dor sem resistir, cometer suicídio para escapar dela, é deixar o campo de batalha sem ter lutado.”
-Napoleão I-

A prevenção do suicídio
 

Como podemos focar na prevenção do suicídio?

A prevenção do suicídio pode ser focada em dois sentidos:

1) Estratégias para populações de alto risco, tais como casos psiquiátricos com antecedentes de comportamentos suicidas, transtornos afetivos, alcoolismo etc. Nestes casos, propõe-se:

  • Otimizar o tratamento dos transtornos mentais e assegurar a integridade pessoal do paciente;
  • Melhorar a continuidade assistencial e a coordenação sociossanitária em relação aos pacientes de alto risco suicida, uma vez que tenham recebido alta de alguma unidade de hospitalização psiquiátrica — principalmente sem interromper o contato terapêutico;
  • Melhorar a formação psiquiátrica dos médicos de atenção primária para que possam oferecer atendimento precoce e tratamentos eficazes para pacientes afetados por transtornos mentais que aumentam a incidência de condutas suicidas.

2) Estratégias orientadas à população geral, como:

  • Informar o público sobre as condutas suicidas: prevalência, fatores de risco, alterações de comportamento, etc.;
  • Recomendações aos meios de comunicação para prevenir o efeito da imitação, principalmente entre os jovens;
  • Psicoeducação em centros cívicos, escolares e de trabalho sobre a melhoria da qualidade de vida e promoção da saúde, aprendizagem de recursos ou estratégias de enfrentamento de estresse, habilidades sociais, etc.;
  • Reestruturação da disponibilidade de meios para a realização do suicídio e medidas de segurança em lugares utilizados por suicidas;
 
  • Informações e advertências sobre o consumo de álcool e outras drogas.

“Muitas vezes, conservar a vida é um valor”.
-Sêneca-

Crenças errôneas

A seguir, vamos observar uma série de crenças errôneas e influenciáveis que boa parte da sociedade ainda mantém:

Critério equivocado Critério científico
“A pessoa que quer se matar não diz isso” De cada dez pessoas que cometem suicídio, nove dizem claramente qual é o seu propósito e a décima dá indícios das suas intenções.
“A pessoa que diz, não faz” Toda pessoa que se suicida expressou com palavras, ameaças, gestos ou mudanças de comportamento o que estava acontecendo.
“As pessoas que tentaram suicídio não desejavam morrer, só fazer alarde” Embora nem todas as pessoas que tentaram suicídio desejassem morrer, é um erro dizer que elas só queriam chamar a atenção. Os mecanismos úteis de adaptação falharam para essas pessoas e elas não conseguiram ver outra alternativa além de tentar tirar a própria vida.
“Se ela quisesse se matar de verdade, teria se atirado na frente de um trem” Toda pessoa com risco suicida encontra-se em uma situação ambivalente, ou seja, com desejo tanto de morrer quanto de viver. O método escolhido para o suicídio não reflete os desejos de morrer de quem o faz, e proporcionar outra opção de maior letalidade é considerado um crime de auxílio ao suicida (caso alguém ajude a pessoa a cometer), condenado pelo Código Penal Brasileiro no Artigo 122.
“Quem se recupera
de uma crise suicida não corre risco algum de recaída”
Quase metade das pessoas que atravessaram uma crise suicida e consumaram, de fato, o ato, fizeram isso durante os três primeiros meses após a crise emocional, quando todos pensavam que o perigo já havia passado.
“A pessoa que tenta cometer suicídio levará esse perigo para a vida toda” Entre 1% e 2% das pessoas que tentaram suicídio conseguiram logo no primeiro ano de tentativa, e entre 10% e 20% consumaram o ato em outro momento de suas vidas. Uma crise suicida dura horas, dias, raramente semanas, por isso é importante reconhecê-la para alcançar sua prevenção.
“Toda pessoa que se suicida está deprimida” Embora toda pessoa deprimida tenha a possibilidade de realizar uma tentativa de suicídio ou um suicídio de fato, nem todas sofrem desse transtorno. Pode ser que sofram de esquizofrenia, alcoolismo, transtorno de personalidade, etc.
“Toda pessoa que se suicida é um doente mental” As pessoas com enfermidades mentais se suicidam com maior frequência do que a população geral, mas não é necessariamente obrigatório sofrer de um transtorno mental para fazer isso. No entanto, não existem dúvidas de que toda pessoa com risco é uma pessoa que sofre emocionalmente.
“O suicídio é herdado” Não existe comprovação de que o suicídio seja herdado, embora seja possível encontrar vários membros de uma mesma família que tenham terminado suas vidas por meio de suicídios. Nestes casos, o que é verdadeiramente herdado é a predisposição a sofrer de uma determinada enfermidade mental na qual o suicídio é um sintoma importante, como, por exemplo, os transtornos afetivos e as esquizofrenias.
O suicídio não pode ser prevenido porque ocorre por impulso Toda pessoa, antes de cometer suicídio, mostra uma série de sintomas que foram definidos como síndrome pré-suicídio, consistindo em repressão de sentimentos e intelecto, inibição da agressividade, que não é mais direcionada a outras pessoas, mas para si mesma, e a existência de fantasias suicidas. Tudo isso pode ser devidamente detectado a tempo, impedindo que seus objetivos sejam executados.
Ao falar sobre suicídio com uma pessoa em risco, é possível incitá-la a realizar o ato Está comprovado que falar sobre o suicídio com uma pessoa em risco, em vez de incitar, provocar ou introduzir essa ideia em sua cabeça, na verdade reduz o perigo de realização e pode ser a única possibilidade de oferecer uma análise de seus propósitos autodestrutivos para a pessoa.
Aproximar-se de uma pessoa em crise sem a devida preparação para isso, somente com o conhecimento geral, é prejudicial e perda de tempo comparado a uma abordagem mais adequada Se o senso comum nos faz assumir uma postura de atenção e de escuta paciente, com desejos reais de ajudar a pessoa em crise a encontrar outras soluções que não sejam o suicídio, a prevenção terá sido iniciada. Portanto, é valido sim!
Apenas os psiquiatras podem tomar medidas para prevenir o suicídio É verdade que os psiquiatras são profissionais experientes na detecção do risco suicida e em como lidar com ele, porém, não são os únicos que podem preveni-lo. Qualquer pessoa interessada em auxiliar pessoas em situação de risco pode ser uma valiosa colaboradora em sua prevenção.
 

“O suicídio é a pior espécie de assassinato, pois não deixa espaço para arrependimento.”
-John Churton Collins-

Homem pensando em suicídio

Onde buscar ajuda para a prevenção do suicídio?

Quando uma pessoa começa a ter ideias suicidas, ela pode buscar diversos recursos para obter ajuda:

  • ABP: Associação Brasileira de Psiquiatria;
  • Centros da saúde: Atenção primária e CAPS – Centro de Atenção Psicossocial;
  • Cartilha “Suicídio: informando para prevenir“, uma parceria entre o Conselho Federal de Medicina – CFM e a Associação Brasileira de Psiquiatria – ABP.

Outras organizações úteis:

  • Rede Brasileira de Prevenção ao Suicídio;
  • Associação Brasileira de Estudos e Prevenção de Suicídios;
  • Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio;
  • CVV – Centro de Valorização da Vida: rede de apoio emocional e prevenção do suicídio que presta atendimento voluntário e gratuito a todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, email e chat 24 horas todos os dias.
  • Profissional de saúde.

Estes recursos possuem um valor incalculável, mas não adiantam muito se não chegarem a quem, de fato, está em risco. Por isso, todos nós, enquanto sociedade, possuímos o papel fundamental de comunicar e promover ajuda.

 
  • Mingote, Adán, José Carlos, et al. Suicidio: asistencia clínica, Ediciones Díaz de Santos, 2004.
  • Pérez, Barrero, Sergio, and Plaza, Jesús Guerra. Prevención del suicidio: consideraciones para la sociedad y técnicas para emergencias, Servicio Editorial de la Universidad del País Vasco, 2016.