Por que alguns adolescentes são seduzidos por comportamentos de risco?

outubro 7, 2019
O antropólogo David Le Breton ressalta que cerca de 15% dos adolescentes estão adotando comportamentos de risco. É impressionante que a porcentagem seja praticamente a mesma em todo o mundo.

O antropólogo David Le Breton estudou os comportamentos de risco na adolescência. Ele o fez a partir de uma perspectiva humanista, levando em consideração os múltiplos fatores de vazio e pressão aos quais os mais jovens são submetidos no mundo atual.

Falamos de comportamentos de risco quando uma pessoa, voluntária e repetidamente, se expõe ao perigo. Esse perigo tem a ver com a possibilidade de colocar em jogo a sua integridade física ou mental e até mesmo a própria vida.

No entanto, aqueles que têm esse tipo de comportamento não têm uma razão clara que os motive.

A adolescência é uma etapa especialmente caracterizada por comportamentos de risco. Entre eles, sexo sem proteção, “esportes radicais”, desafios entre colegas e diferentes tipos de comportamentos suicidas, como dirigir em alta velocidade ou entrar em áreas ou grupos perigosos.

“Os jovens sempre tiveram o mesmo problema: como ser rebeldes e se conformar ao mesmo tempo”.
– Quentin Crisp –

Adolescente em crise

Os comportamentos de risco e a adrenalina

Frequentemente, os adolescentes se envolvem em comportamentos de risco caracterizados como experiências nas quais liberam muita “adrenalina”.

Eles veem como positivo o fato de experimentar emoções intensas, pois, aparentemente, isso faz com que se sintam mais vivos. Para eles, este é um sinônimo de “viver a vida intensamente”.

Embora a adolescência possa ser um estágio difícil, em que a exploração é um componente fundamental, nem todos os jovens sentem a mesma motivação para explorar os seus limites. Nem todos têm a sensação de que estão “perdendo a vida” se não o fizerem.

Existem várias notícias que aparecem ao longo do ano e que incluem a morte de um adolescente devido a qualquer um desses comportamentos de risco.

Tomar uma garrafa de tequila em um só gole, por exemplo. Ou pular do andar mais alto para uma piscina. Alguns até se envolvem com gangues ou grupos ilegais, tudo isso “para viver uma experiência diferente”.

A evolução dos comportamentos de risco na adolescência

Até algumas décadas atrás, esse desejo era canalizado de outra maneira (os comportamentos de risco também são sensíveis à moda). Além disso, segundo o antropólogo David Le Breton, esse tipo de comportamento começou a se tornar mais popular nos anos setenta.

Na sua opinião, o primeiro comportamento de risco a se manifestar foi a dependência de drogas. As drogas começaram a ser sinônimo de juventude a partir dos anos sessenta, e nos anos setenta já haviam se tornado uma prática comum.

Logo depois, seguiu-se o tipo de “epidemia” de anorexia que ocorreu nas últimas décadas do século XX.

Por sua vez, as primeiras notícias de adolescentes executando massacres datam dos anos 90. O vandalismo generalizado também data dessa época.

Também foi nessa década que surgiu o costume de marcar rou fazer incisões na pele. As tatuagens e os piercings tornaram-se uma moda dolorosa, mas tolerada.

Além disso, outras modas de comportamentos de risco apareceram nos últimos anos. Por exemplo, os desafios sinistros que são propostos nas redes sociais. Finalmente, há aqueles que tendem a entrar em contato e se juntar a grupos radicais.

Questões da adolescência

O que acontece com esses jovens?

Le Breton ressalta que o mundo de hoje produz comportamentos de risco por uma razão fundamental: no fundo, cada um trava a sua batalha sozinho.

Existe uma desinstitucionalização generalizada na sociedade. A primeira das instituições que está em declínio é a família. Ela não é mais um núcleo que enquadra os jovens em uma classe, em valores e em limites.

Algo semelhante ocorre com outras instituições sociais, como a igreja, a escola, o poder político, etc. Todos esses agentes sociais não formam mais um quadro de referência para as novas gerações.

Muitos jovens procuram, com os comportamentos de risco, encontrar esses limites que eles não conhecem. Encontrar os limites do tolerável e do intolerável. E nem assim eles os encontram.

Quando uma criança não tem referências ou elas não são adequadas, o seu relacionamento com o mundo é construído em bases muito frágeis. Assim, começa uma jornada em busca de significados, que muitas vezes culmina nessas explorações perigosas.

Muitas crianças crescem nas mesmas casas que seus pais, mas muito distantes deles. Elas não precisam tê-los ao seu lado o tempo todo, mas é essencial que estejam em suas vidas. E em muitos casos, isso não está acontecendo.

  • Santander, S., Zubarew, T., Santelices, L., Argollo, P., Cerda, J., & Bórquez, M. (2008). Influencia de la familia como factor protector de conductas de riesgo en escolares chilenos. Revista médica de Chile, 136(3), 317-324.