A Última Gargalhada: estereótipos associados à velhice

15 Julho, 2020
Um filme magistral que fala sobre os preconceitos em relação ao que é ou não conveniente, apropriado, saudável ou indicado quando as pessoas atingem a última etapa de suas vidas.
 

Das mãos da Netflix, hoje vamos analisar A Última Gargalhada, um filme que, como quase todas as histórias interessantes, mostra uma realidade bem distante dos clichês mais ou menos aceitos. Desta vez, é o diretor Greg Pritikin que, através de dois grandes nomes do cinema, Chevy Chase e Richard Dreyfuss, nos oferece um “road movie” em tom de comédia. O filme nos convida a refletir sobre os preconceitos e estereótipos associados à velhice.

A ideia não é nova. A indústria cinematográfica começou há alguns anos com o bom hábito de nos oferecer, de tempos em tempos, uma dessas comédias nas quais colocam dois, três ou mais atores idosos que já foram grandes lendas do cinema. Quem não ficou chocado com os Space Cowboys?

É impactante ver os nossos heróis, atores ou atrizes favoritas atingirem a velhice. Aqueles que marcaram as nossas memórias de juventude quando também eram jovens. Ficamos impressionados com a proximidade. Isso nos afeta porque os vimos jovens, bonitos, ágeis e até nos apaixonamos por eles.

Mais uma vez, com A Última Gargalhada, o cinema nos oferece um bom assunto para refletir. O que deve ser feito ou não após uma certa idade? Não é preciso ser um grande ator de Hollywood para se fazer essa pergunta. Acontece conosco ou acontecerá com todos nós algum dia.

A verdade é que existem muitas ideias estabelecidas em referência ao que é ou não conveniente, apropriado, saudável ou indicado quando as pessoas atingem a última etapa de suas vidas. Algumas pessoas se sentem totalmente perdidas tentando encontrar papéis próprios para a sua idade e o significado que parecem ter perdido em sua evolução.

 

O enredo de A Última Gargalhada

Chevy Chase encarna neste filme um aposentado, Al Hart, representante de atores cômicos ao longo de sua carreira profissional. Um trabalho pelo qual ele é apaixonado. Por insistência de seus parentes mais próximos, preocupados com a sua idade avançada, ele decide se mudar para um complexo residencial para aposentados.

Lá ele encontra uma pessoa que foi o seu primeiro cliente há muitos anos: Buddy Green (magistral, Richard Dreyfuss). Nessa época, ele era uma jovem promessa da comédia que desistiu de uma potencial carreira brilhante nos palcos para seguir uma profissão mais séria e formar uma família.

O tempo no lar de idosos varia entre programas chatos de segunda categoria, jogos de cartas, histórias antigas e resignação. Al Hart não consegue se acostumar com aquilo. Ele acaba convencendo Buddy a retomar a sua carreira como comediante que abandonou em sua juventude.

Eles pegam a estrada juntos com destino a Nova York. Não dizem nada para suas famílias e seus colegas de quarto acham que ficaram loucos. Al, como seu representante, consegue para Buddy apresentações em inúmeras cidades e pequenos vilarejos que cruzam a estrada para a Big Apple com um objetivo: um importante show de comédia na televisão.

Os estereótipos associados à velhice em A Última Gargalhada

Diferentes pesquisas destacam que os estereótipos associados ao envelhecimento são progressivamente internalizados e que os indivíduos acabam projetando essas ideias sobre si mesmos. Levy, Slade, Kunkle e Klas (2002) descreveram esse processo. Quando crianças, aprendemos sobre estereótipos etários e geramos expectativas sobre o nosso próprio processo de envelhecimento, sem questionar a sua validade.

 

Frequentemente, cada vez que atingimos a idade de categorização de um grupo, os estereótipos já estão integrados em nossos esquemas e começamos, inconscientemente, a aplicá-los aos outros e a nós mesmos. Dessa forma, modificamos as nossas percepções sobre o envelhecimento e as ajustamos ao estereótipo correspondente. Inconscientemente, introduzimos mudanças comportamentais que têm consequências físicas e psicológicas.

Geramos novos comportamentos e deixamos de lado outros que adquirem um caráter discriminativo (o que é “normal” de fazer) e prescritivo (o que deve ser feito). E assim vamos moldando o estereótipo. A verdade é que indivíduos que não estão em conformidade com o estereótipo da sua idade são estranhos para nós e, em muitos casos, provocam rejeição. Este seria o caso de pessoas com mais de 65 anos que mantêm relações sexuais regulares, um esquema que associamos como “normal” em outras faixas etárias.

Uma atitude nada saudável

Um estudo de Cuddy, Norton e Fiske (2005) verificou que foram atribuídas menos características de competitividade a pessoas mais velhas e mais cordialidade. Em outras palavras, o estereótipo da velhice inclui menos habilidades e mais simpatia. Eles replicaram os resultados obtidos nos Estados Unidos em 6 outros países de culturas diferentes.

Eles descobriram que as pessoas com percepções mais negativas do seu próprio processo de envelhecimento tiveram uma vida mais curta do que aquelas com percepções mais positivas desse estágio da sua vida. Especificamente, uma média de 7 anos e meio a menos de vida. Esse fato ocorreu igualmente em ambos os sexos e em diferentes grupos étnicos, não encontrando diferença alguma devido ao status socioeconômico ou ao nível educacional.

 

Bargh, Chen e Burrows conduziram outro estudo (1996) com resultados surpreendentes baseados em estereótipos para diferentes faixas etárias. Eles tentaram ativar estereótipos dos esquemas da velhice em um grupo de jovens. Eles o fizeram através de frases e palavras confusas e fotografias. Observou-se que os jovens que haviam ativado as categorias de pessoas idosas passaram a andar muito mais devagar.

Idosos passeando em parque

Pensar em tom de humor

A Última Gargalhada plasma magistralmente a necessidade de algumas pessoas de se sentirem vivas até o último momento. A identidade das pessoas é construída ao longo da vida. É extremamente cruel chegar à última etapa da vida renunciando ao que sempre fomos, perdendo a razão de ser e a autoestima. Envelhecer é um privilégio, desde que não paremos de nos sentir vivos.

A Última Gargalhada nos oferece outro privilégio: ver esses dois magníficos atores no palco novamente, talvez pela última vez.