A alma, se não se entregar de corpo e alma, vai morrendo

A alma, se não se entregar de corpo e alma, vai morrendo

janeiro 31, 2017 em Psicologia 1700 Compartilhados
A alma, se não se entregar de corpo e alma, vai morrendo

A alma, se não se entregar de corpo e alma, vai secando. Não serve de nada se oferecer com reservas e com reticências, porque a vida se saboreia inteira, com beijos, mordidas e com todas as risadas, com a paixão desses corajosos que sabem que somente os abraços recompõem os espaços quebrados, e que nem os anos, nem o tempo, apagam nossos próprios ânimos.

Existe uma curiosa lenda celta do século XIV que nos dá uma imagem muito simbólica de tudo isto. Nesta cultura existe uma “égua branca” que supostamente habita nosso mundo onírico. Alimenta-se de medos, dos nossos pesadelos e das almas das pessoas tristes. Vai pegando uma por uma para introduzi-las nas fendas das rochas ou nos furos dos telhados.

“A alma se coloca no corpo como um diamante bruto, e precisa ser polido, senão o brilho nunca aparecerá.”
-Daniel Defoe-

Deixar que a tristeza ou o desânimo lance raízes em nosso próprio ser é muito mais do que uma maldição. Assim o entendeu oportunamente o velho folclore de nossos povos e assim dirá a psicologia atual. São muitas causas que resultam neste estado crepuscular levando embora nossos ânimos, a vontade, a paixão… Contudo, precisamos ser capazes de propiciar um novo amanhecer. Um novo ciclo.

Longe de intensificar ainda mais este estado até ser vencido pela égua branca sobre a qual cavalga o cavaleiro da depressão, precisamos sair dos buracos de nossos telhados, desses espaços solitários para sermos capazes de nos abraçarmos novamente com a vida e as oportunidades.

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Quando a alma está cansada

Byung-Chul é um filósofo coreano sediado na Alemanha cujos livros já se tornaram referência. Através de um de seus títulos, “A sociedade do cansaço”, ele fala de uma realidade conhecida. Atualmente o ser humano conta com um inimigo voraz e implacável: ele mesmo e sua incapacidade de amar os outros de forma verdadeira.

Segundo esse interessante autor, o erro está em nosso próprio narcisismo insano. Atualmente, o SER já não tem importância, a única coisa que dá valor ao ser é PARECER, se exibir. Por isso o poder da propaganda, das redes sociais, da moda, habitadas pelo amargo abismo da falsidade… Estamos nos esquecendo, pouco a pouco, de uma coisa fundamental: de valorizar a existência do outro. Precisamos aprender a nos reconhecer a nós mesmos através do amor que damos aos outros, através da amizade, da humildade ou mesmo do altruísmo.

A alma que está cansada é o reflexo de um coração errático, de uma bússola sem norte ou de um trem sem passageiros. Falta alguma coisa, falta paixão e a coragem de se permitir a oportunidade de amar com plenitude. Uma coisa que já vimos, por exemplo, no filme “Melancolia” de Lars von Trier, quando conhecemos Justine, essa personagem deprimida e incapaz de amar que reage somente quando um planeta está a ponto de destruir a Terra. É então quando descobre a existência do outro.

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A paixão do despertar

É possível que muitos de nós nos sintamos desta forma. Adormecidos, apáticos, doentes de mau humor e sem ânimo para amar do fundo da alma. Talvez seja por causa de uma decepção, um fracasso anterior ou até mesmo essa espécie de anedonia de vida que caracteriza muitas pessoas. Cair nessa entropia emocional é perigoso. É iniciar um desapego de vida e uma renúncia, é arrancar dias do nosso próprio calendário.

“Não se fez nada grandioso neste mundo, sem uma grande paixão.”
-Friedrich Hegel-

A paixão é a única coisa que pode nos salvar. É esse combustível para a vontade, essa essência do compromisso do dia a dia para conseguir que tudo ganhe sentido e importância. Porque colocar música nas partituras da nossa vida é uma coisa que pode ser alcançada se começarmos pelas coisas mais simples, as mais elementares.

Vejamos isto melhor a seguir.

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Reiniciar a alma é questão de vontade e criatividade

A paixão requer combustível para crescer. Precisamos ser capazes de encontrar um motivo, alguma coisa que nos encha de esperança, que nos identifique e que nos faça sentir comprometidos. Um jeito de conseguir isto é nos deixando contagiar pela energia vital de outras pessoas: compartilhando os mesmos passatempos, os mesmos espaços e um mesmo projeto.

  • Por sua vez, precisamos também ser conscientes de que a vida rotineira é a que mais enfraquece a nossa alma. Fica evidente que estamos obrigados a dar conta de certas responsabilidades, a cumprir certas coisas. Contudo, estas rotinas anestésicas prejudicam nossos calcanhares até nos tornar mais lentos. Portanto, e na medida do possível, precisamos ser capazes de introduzir ações novas no dia a dia. Alguma coisa pela qual valha a pena se levantar.
  • A paixão é nossa ilha de refúgio. Para alimentá-la são necessários certos nutrientes: o senso de curiosidade e de entusiasmo, a gratidão, a reverencia, a participação…
  • Para viver com paixão, precisamos descobrir também o que a detém. O que impede a sua expressão, a sua vitalidade e quais aspectos definhem a nossa alma. Às vezes é a rotina, em outras situações, são certas pessoas que nos impedem de “renascer”, apreciar a oportunidade do momento. É preciso identificar o que veta nossa felicidade e desativá-lo.

“Nos envelhece mais a covardia do que o tempo; os anos enrugam a pele, mas o medo enruga a alma.”
–Facundo Cabral–

A necessidade de ir além

Abraham Maslow definiu um termo na sua pirâmide de necessidades que não devemos esquecer: a autorrealização. Quando conseguimos cobrir todas as dimensões anteriores relacionadas com a fisiologia, a segurança ou o reconhecimento, chega esse topo onde precisamos ser capazes de “transcender”.

Refiro-me a esse crescimento pessoal e emocional onde nossos esforços precisam ir mais além dos egos. Esse potencial criativo só pode ser alcançado escolhendo a paixão antes do medo, o rumor da vida e o amor antes desses buracos para onde nos leva a égua branca dos nossos temores.

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