Alta inteligência e herança genética: qual é a relação?

· agosto 29, 2018

O que determina a inteligência de uma pessoa? Muitas personalidades e estudos defendem a ideia de que nosso coeficiente intelectual é determinado ou muito condicionado pelo código genético. No entanto, embora exista uma relação entre inteligência e herança genética, ela nem sempre é tão direta e clara quanto parece. Na verdade, devem existir outros muitos fatores para que essa predisposição intelectual se manifeste.

Quando falamos de altas capacidades, somos quase obrigados a nos referir a um nome em particular: William James Sidis. Este jovem que faleceu em meados dos anos 40 nos Estados Unidos é considerado até hoje o homem com as habilidades intelectuais mais surpreendentes já documentadas. De fato, estima-se que seu QI estivesse acima de 250 pontos.

“O que sabemos é uma gota d’água; o que ignoramos é o oceano”.
-Isaac Newton-

O mais impressionante de Sidis foi sua educação. O fato de ter entrado para a Universidade de Harvard aos 9 anos de idade não foi apenas por sua herança genética. Sua mãe, Sara, era médica, e seu pai, Boris, psiquiatra e especialista em psicologia do desenvolvimento. Assim, se tinha algo que estes dois cientistas ucranianos sabiam era é que desenvolver um elevado coeficiente intelectual não dependia exclusivamente dos nossos 23 pares de cromossomos.

Uma alta inteligência é resultado de um entorno facilitador somado a um cérebro receptivo. O casamento deste casal de cientistas orientou a vida de seu filho em direção a um único objetivo: potencializar ao máximo suas capacidades cognitivas. O resultado superou suas expectativas. No entanto, este jovem foi mais do que uma simples criança prodígio: foi uma pessoa claramente infeliz.

William James Sidis

Alta inteligência e herança genética: pais inteligentes, filhos brilhantes?

A inteligência, assim como o comportamento humano, é um traço complexo. Defini-la, no entanto, não é difícil, pois inclui todas aquelas experiências nas quais uma pessoa demonstra uma clara habilidade para aprender, raciocinar, planejar, resolver problemas, pensar de forma abstrata, compreender ideias complexas e dar respostas altamente criativas.

No entanto, saber com exatidão o que produz diferenças individuais em cada uma dessas competências sempre foi um desafio. Hoje em dia podemos dizer que sim, a herança genética é quem dá forma a cada uma dessas habilidades. E mais, a Universidade de Glasgow realizou um estudo em 2016 onde foi demonstrado que os genes associados às funções cognitivas são herdados principalmente das mães. O cromossomo X, por assim dizer, determinaria em grande parte o nosso potencial.

Mas estamos falando de possibilidades, porque nem tudo está tão claro assim. Um estudo recente publicado na revistaGenetic Reference demonstrou algo que está na intuição dos especialistas há quase um século.  Os círculos sociais nos modelam, dão as condições para que possamos alcançar ou não todo o nosso potencial cognitivo. A herança genética, por sua vez, determina aproximadamente 40% da equação.

A inteligência (e a alta inteligência) está fortemente influenciada pelo ambiente. Fatores como a criação, a educação, a disponibilidade de recursos de aprendizado e a nutrição formam e constroem nosso potencial intelectual.

Criança inteligente lendo um livro

A inteligência, uma dimensão sensível a uma infinidade de fatores

Os neurologistas costumam comentar o seguinte: nós superestimamos a ideia da alta inteligência. Quando uma cirurgia cerebral é feita, não existe uma área específica que permita distinguir a inteligência. Não existe uma estrutura especializada em nos fazer ser mais brilhantes que o resto.

Na verdade, tratam-se de inúmeros processos agindo em harmonia, um mundo sináptico hiperconectado que resulta em um cérebro mais ágil, mais sensível, mais eficaz que a média.

A alta inteligência pode depender dos nossos genes, mas diversos outros fatores também são importantes:

  • Um apego seguro com a mãe no qual exista uma troca emocional constante;
  • Uma criação positiva;
  • Uma nutrição adequada;
  • Assistência nos estudos e oportunidade de ter uma educação com bons recursos.
  • Um círculo social favorecedor e estimulante (uma boa família, professores preparados, uma comunidade adequada e segura, etc.)
Alunos em sala de aula

Criação desfavorável e plasticidade cerebral

Chegando a este ponto, é provável que algum dos leitores faça a si mesmo a seguinte pergunta: O que acontece se a minha herança genética está associada a uma alta inteligência, mas eu não tive uma infância propícia para desenvolvê-la? O que acontece se o meu entorno não foi favorável e meu rendimento acadêmico foi baixo? Isso significa que nunca vou poder melhorar meu coeficiente intelectual?

Todo psicólogo ou apaixonado por psicologia tem em sua mente uma figura chave nesse assunto. Estamos falando de Kurt Lewin. O pai da psicologia social moderna nos deu um termo que lançou as bases de muitas teorias e estudos posteriores: a teoria do campo ou do poder do contexto.

Essencialmente, o que Lewin demonstrou foi que o ser humano é resultado da interação de todas as suas experiências, as passadas e principalmente as presentes. Nós somos nossas atitudes, o que escolhemos fazer com tudo que vivemos.

Assim, algo que pôde ser visto ao estudar a trajetória de gêmeos separados ao nascer e criados em contextos diferentes é que um ambiente desfavorável, com recursos econômicos escassos, influencia de forma notável o desenvolvimento da inteligência.

No entanto, nosso potencial não fica completamente diminuído ou apagado por estas condições estéreis. Não se a pessoa tem, em um determinado momento, a oportunidade de construir um entorno que lhe permita recuperar o “território perdido”.

Conexões cerebrais

Lewin descobriu que quando um gêmeo criado num entorno desfavorável se distanciava dos pais adotivos, ele era livre para deixar que seus genótipos se expressassem. Suas capacidades cognitivas melhoravam ao encontrar uma motivação, um objetivo que concordasse com seus interesses e um entorno que facilitasse suas metas.

O cérebro, no fim das contas, não é uma entidade física e estável. A plasticidade, nossa curiosidade e nossa vontade são capazes de produzir verdadeiros milagres.