Amo meu filho, mas não a maternidade

· dezembro 2, 2016

Falar da maternidade continua sendo um tabu difícil de ultrapassar porque as opiniões a respeito desse assunto seguem sendo contraditórias. No entanto, a socióloga israelense Orna Donath reuniu depoimentos de mães que se arrependeram de ter tido filhos e publicou sua pesquisa no livro “Regretting Motherhood”. Este livro causou uma grande polêmica em países como a Alemanha e a França, onde a maternidade é venerada e apoiada institucionalmente.

Infelizmente, um estudo que investiga o arrependimento da maternidade não é bem aceito e frequentemente muito criticado, independentemente do quanto essa análise possa ser importante. Apesar de ter um título controverso, as experiências relatadas podem acontecer com qualquer mãe, de acordo com a ampla aceitação e compreensão das histórias de algumas mães que compartilham a sua experiência e da identificação de um grande número de mulheres.

O estudo analisa como algumas mães vivem a experiência da sua maternidade ou parte dela como negativa, causando um impacto inesperado e indesejado em suas vidas. Amam e cuidam dos seus filhos mas, por várias razões, a maternidade, a experiência de como criar um filho, se mostrou frustrante ou insatisfatória para muitas mulheres.

Esse estudo não busca glorificar o arrependimento, mas apenas reconhecer a sua existência.

Com respeito a maternidade, a discussão nem sempre é coerente

Antes de julgar uma mulher em sua experiência como mãe, você deve perguntar o que ela tem a dizer sobre a maternidade. Ouça com boa vontade, pois não existe um roteiro a seguir. Elas são as protagonistas da sua história e não querem ser consideradas heroínas ou supermães, mas simplesmente mulheres que têm opinião própria e escolhem o seu caminho.

Talvez, ao falarmos honestamente sobre a possibilidade de arrependimento, muitas mulheres poderão decidir por si mesmas se querem se tornar mães ou não. Dessa forma, todas as mães vão poder dizer o que estão pensando e sentindo sem que sejam condenadas por isso.

A famosa atriz francesa Anémone declarou na televisão que se identificava com esse estudo polêmico. Ela ama seus dois filhos, mas sente que teria sido mais feliz se tivesse escolhido não ser mãe.

Sincera e honesta, a atriz contou como ela sempre foi fascinada pela ideia de independência, mas tinha de alguma forma sucumbido à pressão de ser mãe e, por isso decidiu ter filhos “sem saber muito bem por quê.”

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Algumas mães anônimas contaram que experimentaram a mais profunda solidão em algumas ocasiões, sentiram que a sua decisão não tinha sido a mais correta quando tiveram a experiência da maternidade. No entanto, as participantes dessa pesquisa enfatizaram a distinção entre o amor pelas crianças e a experiência da maternidade. A maioria enfatizou seu amor pelos seus filhos e a sua raiva pela experiência que requer tantos cuidados.

As mulheres falam de solidão, de um estresse intenso devido à incompatibilidade do seu papel como mulheres, mães e trabalhadoras, mas também revelam detalhes íntimos, como a sensação de ter perdido uma parte da sua liberdade, de não desfrutar a sexualidade da mesma forma e de se sentir estranha em sua própria vida.

As mulheres também apontam para o fato de que pensavam que se não tivessem filhos teriam se sentido muito vazias, e também enfrentariam um sentimento de estigma social, mas só porque não sabiam o que sabem agora, uma vez que agora são mães.

Nas histórias percebemos um sentimento de ressentimento e desconfiança por determinados setores sociais, porque por um lado a maternidade é exigida quase como uma obrigação, mas depois não se sentem apoiadas no seu trabalho com as crianças e se tornam uma espécie de escravas do que se supõe que seja “a melhor experiência para qualquer mulher”.

As possíveis causas desse desencanto

Essas experiências acontecem há muito tempo, mas só agora esse fato começa a ter visibilidade. A exigência da descendência, a pressão do relógio biológico, as enormes demandas sociais e morais sobre a sexualidade feminina e as altas expectativas criadas sempre causaram frustração em um grande número de mulheres que, por escolha própria ou por ceder à pressão dos demais, se tornaram mães.

No entanto, hoje estamos diante de novas realidades: a incorporação das mulheres no mercado de trabalho, a decisão de adiar a maternidade e a desnaturalização do processo das mídias digitais.

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Se antes a maternidade era endeusada como um ato quase místico, agora se tornou uma ideia mesclada com outros conceitos como a supermãe entregue a essa tarefa até o seu limite, mas capaz de recuperar a forma rapidamente e viver a mesma vida que tinha antes de ter os seus filhos.

Atualmente, podemos ver mulheres famosas mostrando no Instagram, nas revistas ou redes sociais a sua gravidez, o parto, a amamentação e recuperação pós-parto. O problema não é que as mulheres não possam mostrar nas redes sociais a sua felicidade pela maternidade, mas é que mostram somente um processo isento de dificuldades e exigências.

Imediatamente um grande número de mulheres são seduzidas pela imagem de poder da gestação, sem levar em conta as suas possibilidades econômicas e o fato de que a vida real é diferente dessa imagem que veneram.

Pare de idealizar e viva a realidade

Atualmente existem muitos movimentos sociais que apoiam a verdadeira conciliação familiar e defendem uma maternidade mais livre, mais protegida e apoiada socialmente. Cada mulher tem sua história e suas próprias características psicológicas que proporcionam uma experiência subjetiva e única sobre a maternidade.

Algumas mulheres podem se arrepender mesmo amando os seus filhos, outras não se arrependem e se sentem plenamente felizes, outras nutrem sentimentos contraditórios e outras podem se sentir oprimidas por aspectos específicos da maternidade ou pela personalidade de seus filhos.

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De qualquer forma, todas as mulheres e cada uma delas deve sentir-se apoiada e respeitada por uma sociedade que integre verdadeiramente um modelo social e de trabalho para experimentar a maternidade.

A longo prazo, uma mulher exausta dificilmente pode suportar o peso de educar uma criança sozinha, se não houver uma divisão de tarefas em casa e apoio institucional com mais creches e salários dignos. Não só porque estamos criando uma nova geração, mas porque a atual geração de mães precisa deste apoio para criar um modelo de maternidade não tão idealizada, mas muito mais respeitada e apoiada.