O amor incondicional realmente existe?

O amor incondicional existe, é real. No entanto, isso não faz com que os limites sejam desnecessários, pois no amor nem tudo vale, e as condições ajudam a proteger a identidade e a resguardar a autoestima.
O amor incondicional realmente existe?
Valeria Sabater

Escrito e verificado por a psicóloga Valeria Sabater.

Última atualização: 15 novembro, 2021

Há quem diga que o amor incondicional é o sentimento mais puro e nobre que existe. É amar sem esperar nada em troca, é querer com cada um dos nossos sentidos, nossas fibras e com cada partícula do nosso ser.

É, além disso, apreciar o outro por ser como é, por tudo que faz, por tudo que diz, mesmo quando esse alguém não está ao nosso lado.

Herman Hesse dizia que aquele que sabe amar sempre acabará ganhando na vida. No entanto, a que nos referimos exatamente com “amar bem”? O amor incondicional é, talvez, uma prática exemplar do bom amor?

A verdade é que não há uma resposta exata e esclarecedora sobre esse aspecto, mas há algumas reflexões que merecem ser levadas em consideração.

Para começar, é muito provável que mais de uma pessoa diga que estabelecer uma relação de casal baseada em uma paixão incondicional tem, em geral, consequências perigosas.

Porque um amor sem limites e condições, como bem sabemos, termina, em grande parte dos casos, cruzando a linha em que as identidades e as autoestimas ficam feridas.

No entanto, serão muitos os que afirmarão com convicção que, se há um afeto profundo, autêntico e incondicional, é o que estabelecemos com os nossos filhos.

Mas o que acontece quando temos diante de nós uma criança narcisista que, além do amor, exige caprichos e privilégios, apesar de nos tratar com tirania e falta de respeito?

A psicologia emocional nos propõe diferenciar duas realidades muito específicas sobre esse assunto. Devemos diferenciar o amor como sentimento e o amor como cenário relacional. Uma coisa é amar e a outra é conviver com quem amamos. Aprofundemos este assunto a seguir.

“O amor incondicional realmente existe em cada um de nós. Faz parte do nosso eu mais profundo. Não é uma emoção ativa, mas um modo de ser. Não é um “eu te amo” por este ou aquele motivo, não é “eu te amo porque você me ama”. É um amor sem motivo, é amor sem um objetivo”.
-Ram Dass-

Amor incondicional pelos filhos

O amor incondicional e as relações com condicionantes

É possível desfrutar de um amor incondicional? A resposta é sim, mas, obviamente, devemos primeiro entender as nuances.

Para isso, nada melhor do que recorrer à neurociência para descobrir algo que pode surpreender muitas pessoas: nosso cérebro é projetado para amar de maneira incondicional.

O cérebro e o amor incondicional

Os doutores Mario Beauregard e Jérôme Courtemanche, da Universidade de Montreal (Canadá), realizaram um interessante estudo para descobrir que o amor incondicional compartilha os mesmos mecanismos neurais que os processos viciantes.

Existe um mecanismo de recompensa comandado pela dopamina, pela serotonina, pela noradrenalina, pela ocitocina e pela vasopressina.

O amor incondicional é, de fato, semelhante ao amor romântico. Há uma mistura de paixão absoluta, de devoção, de apego e de carinho intenso. De alguma forma, nosso cérebro estaria projetado para experimentar esse tipo de amor tão intenso.

Mas nossa parte mais racional, é claro, nos obriga a estabelecer limites.

Uma coisa é o amor e outra as relações

O amor incondicional não deixa de ser um sentimento. No entanto, além desse universo, existem as relações humanas.

Como sabemos, em uma relação de casal, o amor nem sempre é tudo. Não importa o quanto duas pessoas se amem, não se a comunicação é problemática, não se não existe reciprocidade, empatia ou respeito.

Sem dúvida, tudo isso cria situações tão contraditórias quanto dolorosas: pode-se amar profundamente, mas entender que a convivência é impossível.

Te amo incondicionalmente, mas sei que devo te deixar ir

Podemos amar alguém sem limites e de maneira incondicional. É uma realidade inquestionável. Há amores que machucam; são aqueles em que nos tornamos conscientes de que mantemos uma paixão cega por alguém que não nos faz bem.

Sabemos disso e por isso o deixamos ir, por nosso bem, pelo nosso equilíbrio psicológico.

Assim, nessas situações, ainda existe uma realidade que pode parecer familiar a muitos: apesar de ter deixado um relacionamento e ter ganho com ele o bem-estar e a autoestima, o amor incondicional por essa pessoa continua a existir como tal.

Porque, como podemos ver, os  sentimentos às vezes prevalecem, mesmo que o relacionamento não exista mais.

Casal em crise

O amor precisa de limites e condições (saudáveis)

Os limites, além do que podemos pensar, são higiênicos, saudáveis ​​e até poderosos. É verdade que muitas vezes os tememos e temos um pouco de dificuldade em colocá-los à nossa volta, mas são barreiras informativas que oxigenam relações, que melhoram a convivência e que nos permitem ganhar em felicidade.

O amor incondicional como sentimento é real, nós sabemos. No entanto, devemos esculpi-lo de maneira artesanal para que se adeque à nossa relação, para que entenda que, em termos de afeto, os limites e as condições são necessáriosE isso também se aplica à criação e à educação.

Podemos amar nossos filhos como eles merecem: de maneira infinita, profunda e apaixonada. No entanto, isso não significa em absoluto que uma criança deva assumir que pode agir como deseja, que chantagens, demandas excessivas e violações sejam permitidas.

Porque nas relações nem tudo vale, mesmo que o amor exista. Porque na convivência existem regras e barreiras a serem respeitadas, embora o afeto sempre esteja presente, disposto a abrigar e a proteger.


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