Anatomia do medo: bases fisiológicas e psicológicas

Anatomia do medo: bases fisiológicas e psicológicas

outubro 15, 2017 em Psicologia 0 Compartilhados
A anatomia do medo

Thomas Hobbes disse que, no dia em que nasceu, sua mãe deu à luz gêmeos: ele mesmo e seu medo. Poucas emoções nos definem tanto quanto essa matéria obstinada e recorrente que não só garante a nossa sobrevivência, mas também age como um verdadeiro limitador de oportunidades, um voraz inimigo das nossas liberdades e do nosso crescimento pessoal. Por isso é tão interessante conhecer a anatomia do medo.

O medo pode ser incômodo e paralisante, nós sabemos disso. No entanto, eliminá-lo por completo seria como deixar as portas e as janelas da nossa casa abertas, como andar descalço em um chão pontiagudo e acidentado.  Ou seja, um risco sem sentido que afetaria de forma direta o nosso equilíbrio e a nossa sobrevivência.

E mais, diferentemente do que poderíamos imaginar, as pessoas corajosas e ousadas também não apagam esse sentimento das suas mentes. O medo está sempre presente. Só é preciso saber administrar e lidar com ele.

“Acho que é mais corajoso quem vence seus medos do que quem vence seus inimigos, porque a vitória mais difícil é sobre si mesmo.”
– Aristóteles –

Uma coisa interessante que o próprio Alfred Hitchcock – conhecedor desses assuntos psicológicos – sempre dizia é que nada pode ser mais prazeroso do que o “medo controlado”. De fato, uma boa parte da população mundial vai aos cinemas com o simples propósito de sentir medo, angústia, terror. No entanto, o simples fato de saber que estão em um ambiente seguro e que mais tarde vão sair da sala “ilesos”, relaxados e acompanhados por seus amigos proporciona uma estimulante sensação de bem-estar.

Dizer que o medo é necessário e saudável não é nenhum absurdo. Essa emoção primária é muito benéfica ao ser humano sempre quando mantemos um certo controle sobre ela. Contudo, no momento em que essa resposta adaptativa assume o leme e desencadeia toda uma sucessão de tempestades químicas e mudanças fisiológicas no nosso organismo, a história muda por completo.

É nesse momento em que damos lugar ao estresse mais paralisante, aos ataques de pânico e a um “sequestro” emocional, no qual ficamos subordinados a uma série de processos tão complexos quanto interessantes…

Mulher com cabelo de bichos voando

A anatomia do medo: o sequestro da amígdala

Helena sofreu um acidente de trânsito há seis meses quando levava sua filha ao colégio. Ambas saíram ilesas, mas a lembrança do acidente e o impacto psicológico do mesmo continuam na sua mente como uma ferida aberta que está afetando seriamente sua qualidade de vida.

Às vezes, até mesmo o barulho da garrafa de água que fica na sua mesa de cabeceira à noite a faz acordar sobressaltada e em pânico, lembrando-se da batida do outro carro no seu veículo. Hoje em dia, Helena ainda não consegue dirigir seu carro. Apenas o ato de se sentar e colocar as mãos no volante já acelera o coração, provoca ânsias de vômito e o mundo começa a girar ao seu redor como se ela estivesse dentro de um pião.

Ao ler essa história fictícia, mas recorrente, de pessoas que sofreram acidentes de trânsito, sabemos que a nossa protagonista vai precisar pedir ajuda mais cedo ou mais tarde. No entanto, para compreender a origem dos pânicos, das fobias e dos medos mais comuns não basta apenas compreender a origem deles. É necessário ir um pouco mais além, é preciso mergulhar na anatomia do medo em nosso cérebro.

A anatomia do medo no cérebro humano

A camada mais antiga do seu cérebro

Toda a informação que entra através dos sentidos passa pela amígdala, uma estrutura muito pequena do nosso sistema límbico que constitui a área mais antiga do cérebro, regulada exclusivamente pelas nossas emoções. É interessante saber que a amígdala “monitora” tudo o que acontece no nosso interior e no nosso exterior e que, no momento em que detecta uma possível ameaça, ativa uma série de conexões para gerar todo um caleidoscópio de complexas reações.

A amígdala, por sua vez, tem o mau hábito de não reparar nos detalhes. Não há tempo de sobra quando se trata de garantir a nossa sobrevivência e por isso, muitas vezes, ela nos faz reagir a estímulos pouco lógicos ou pouco racionais.
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Seu sistema de “alerta” ativa imediatamente o sistema nervoso para que ele coloque em prática uma resposta muito específica: a fuga, e para isso vai preparar o nosso organismo.

  • Sentiremos aumento na pressão arterial, haverá maior metabolismo celular, aumento da glicose no sangue, maior coagulação sanguínea e até mesmo aumento na atividade mental.
  • Ao mesmo tempo, boa parte do nosso sangue vai se dirigir aos músculos maiores, como as pernas, para que possuam, assim, energia suficiente para escapar se necessário.
  • A adrenalina chega a todo o nosso organismo, fazendo inclusive com que o nosso sistema imunológico interrompa suas tarefas porque o cérebro não considera seu trabalho essencial. O que importa nesse momento é poder fugir ou, caso contrário, nos preparar para a luta.

Assim como podemos ver, toda essa sucessão de alterações fisiológicas e químicas podem ser de grande ajuda para escapar de um perigo objetivo, de uma ameaça real. Contudo, quando o medo é psicológico e inatingível, quando temos o caso de alguém como a Helena, que associa qualquer som brusco à lembrança do seu acidente desencadeando uma resposta de pânico, podemos entender o desgaste que viver dessa maneira durante meses ou anos pode representar.

A psicologia do medo e a importância de lidar com essa emoção

Se existe uma dimensão realmente desgastante para o ser humano é o medo psicológico. Esse que constitui a complexa anatomia do transtorno de ansiedade generalizada, da angústia sem sentido, das fobias, da hipocondria ou dos transtornos obsessivos compulsivos… O medo aparece, como vemos, em muitas tonalidades obscuras de cinza e preto, momentos nos quais a pessoa perde por completo sua capacidade de controle, sua qualidade de vida, sua dignidade…

Podemos dizer, de fato, que nos dias de hoje os medos que mais estão presentes na nossa sociedade são, sem dúvidas, os que estão na nossa mente, os que não correspondem a predadores externos, mas a essas sombras internas das quais é tão difícil de escapar, de dissuadir, de desinfetar.  No entanto, conseguir fazer isso é uma obrigação vital.
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A seguir, propomos que você reflita sobre algumas simples estratégias que você pode usar para tentar.

A anatonia do medo

5 segredos para dissuadir seus medos

Agora que já entendemos a anatomia do medo, vamos ver alguns segredos que podem nos ajudar a permitir que essa emoção condicione o nosso comportamento apenas para o nosso bem:

  • Você não é o seu medo: identifique seus medos, não os condicione ao silêncio nem ao sigilo. Nomeie-os.
  • Declare “guerra” aos seus medos. Entenda que eles invadiram a sua intimidade, assuma uma atitude ativa frente a eles para recuperar o controle da sua vida.
  • Conheça os seus medos, entenda por que eles estão aí. Lembre-se de que os medos correspondem a fatores internos e externos, ou seja, há um fator subjetivo mas também algo externo que incomoda você, que tira sua tranquilidade e que rouba sua coragem…
  • Deixe de alimentá-lo: entenda que se a cada dia dermos mais poder aos nossos medos, eles acabarão nos conquistando por completo. Não hesite em “racionalizá-lo”, em acumular mais recursos pessoais, técnicas de respiração, fazer exercício físico, distrair sua mente… Tudo isso vai ajudar você a reduzir a angústia.
  • Fale com você como se você fosse seu treinador: comece a falar consigo mesmo como se você fosse seu próprio treinador, desenvolva estratégias para eliminar comportamentos limitantes, encoraje-se com firmeza para conquistar pequenos objetivos cotidianos, parabenize a si mesmo quando conseguir e não se esqueça de que esse é um trabalho constante.

Para concluir, como podemos perceber, o tema da anatomia do medo e de como lidar com este sentimento é uma área complexa e muito ampla, uma área que precisa, sem dúvidas, ser entendida para podermos cuidar um pouco melhor de nós mesmos. Porque no final das contas, como se diz, para almejar uma felicidade real, é preciso primeiro derrubar os muros do medo.

Referências bibliográficas:

André, Cristoph (2010), Psicología del miedo: temores, angustias y fobias. Kairós

Hütler, Gerald (2001) “Biología del miedo: el estrés y los sentimientos” Plataforma actual

Gower, L. Paul (2005) “Psychology of fear”: Nova Biomedical Books

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