Anos de educação e ainda não sabemos amar a nós mesmos

· junho 18, 2016

Bagunceiro. Inapto. Hiperativo. Desmotivado. Difícil. São muitos, muitíssimos os rótulos que as crianças recebem ao longo da sua educação escolar, e poucos os olhares que se detém para compreender qual emoção se esconde por trás de cada aluno difícil.

É curioso como em cenários como o empresarial ou o político já se valoriza a inteligência emocional como uma coisa imprescindível e estruturadora para qualquer profissional, enquanto as instituições educacionais, deficientes neste aspecto, não contemplam a inteligência emocional como uma competência a potencializar.

A educação precisa nos dar competências para sermos capazes de dar conta de nós mesmos, e de nada serve formar crianças aptas em ciências ou literatura se primeiro não lhes ensinamos o que é a autoestima, o respeito e a empatia.

O peso das competências cognitivas continua sendo algo essencial para o sistema acadêmico. Por sua vez, as emoções são vistas como esse aspecto “tabu” que é melhor restringir ao âmbito privado, à solidão de cada criança na sua delicada tentativa de conhecer a si mesma em um mundo cada vez mais complexo.

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Uma educação que forma mentes, mas não pessoas

As crianças e adolescentes de agora são hábeis estrategistas nas novas tecnologias. Os emoticons nas suas mensagens de texto muitas vezes são a sua única aproximação ao mundo das emoções. Mas quando se afastam dos dispositivos móveis, são incapazes de administrar ou prevenir situações como, por exemplo, o bullying.

Begoña Ibarrola, psicóloga e pesquisadora, explica que nos institutos onde a inteligência emocional foi integrada às salas de aula e ao currículo escolar as condutas de assédio desapareceram e o rendimento acadêmico melhorou de forma notável. Isto nos dá esperança, sem dúvida alguma.

A educação tem como propósito formar pessoas que mudarão o mundo no dia de amanhã: precisamos instruir, então, pessoas felizes, aptas em alegria, mestras no respeito e brilhantes na esperança.

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Se nos perguntarmos agora a razão pela qual não se dá o passo para esta transformação tão necessária na nossa educação, teremos que pensar um pouco nestes aspectos para refletir alguns minutos:

  • O projeto curricular está determinado, em muitos casos, por uma tendência política que define o tipo de plano de estudo que considera mais adequado.
  • O peso do cognitivo continua muito arraigado em nosso sistema escolar apesar de teorias como “as inteligências múltiplas de Gardner” falarem da clara necessidade de trabalhar cedo a inteligência emocional nas crianças.

Além disso, é preciso considerar que toda mudança a nível institucional requer tempo. É necessária uma clara conscientização social, porque investir em emoções é investir em convívio, é aprender a ser mais apto em relações humanas, em respeito, e nessa mudança de enfoque onde se deixe de lado a necessidade de educar crianças perfeitas para formar pessoas felizes.

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Eduquemos crianças únicas, não alunos iguais

Em uma sociedade cheia de mudanças como a nossa e com uma altíssima concorrência profissional, não serve para muita coisa formar alunos iguais, especialistas nas mesmas matérias. É preciso primar o valor humano, potencializar capacidades naturais da criança para que, por si só, descubra o que é o seu melhor e o ofereça ao mundo para que “seja único”.

Um aspecto a considerar é que muitas vezes deixamos cair sobre as instituições acadêmicas todo o peso da educação de uma criança. É uma abordagem errada: todos somos agentes educadores, sendo a família esse cenário essencial que precisamos valorizar muito.

A família, primeiro cenário de inteligência emocional

O âmbito da neurociência deixa isso muito claro: o contexto emocional e facilitador no qual uma criança cresce nos seus primeiros anos de vida determinará em grande parte o seu desenvolvimento posterior e inclusive a sua personalidade.

  • O reconhecimento, a reciprocidade, o apego seguro e a comunicação emocional são fios de equilíbrio que permitirão à criança crescer em liberdade e maturidade.
  • Se você deseja dar ao mundo uma criança capaz de respeitar os outros, de ouvir e de usar o afeto acima da agressão, sirva de modelo. Cuide das suas palavras, dos seus julgamentos e das suas atitudes, seja o melhor exemplo.

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A escola, um microcosmo do cenário social

A escola será para a criança um claro exemplo desse mundo que terá que enfrentar no dia de amanhã. Os relacionamentos com seus pares e com a figura da autoridade (professores e docentes) lhe servirão para adquirir novas e importantes competências.

  • Nos institutos onde já se aplicam hábitos e ferramentas emocionalmente saudáveis vemos que as crianças são muito receptivas a esse tipo de conhecimento.
  • São integrados no dia a dia porque veem que funcionam, que são estratégias úteis com as quais melhorar seus relacionamentos e serem mais assertivos na hora de prevenir agressões ou estabelecer amizades.
  • A inteligência emocional se transforma em um hábito capaz de otimizar a sua forma de aprender, de canalizar a ansiedade e o nervosismo. Tudo isso propicia que os seus resultados acadêmicos sejam melhores e que a sua personalidade seja muito mais segura.

Educar é aprender a deixar marcas no coração das crianças.

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