Você sabe o que é o apego evitativo?

· setembro 14, 2017

O apego é um vínculo emocional estreito que é construído com as pessoas que cuidam de nós e nos dão segurança. Certamente, o apego é muito intenso no começo das nossas vidas. Nessas primeiras etapas dependemos por completo da proteção das pessoas com que convivemos para conseguir sobreviver. Nesse sentido, o apego se forma de maneira natural como uma garantia ou um seguro de sobrevivência, mas ao mesmo tempo marca, e muito, a natureza dos nossos primeiros relacionamentos.

Quando os adultos que cuidam de nós desempenham bem seu papel, o mais provável é desenvolvermos um tipo de apego seguro, com independência do nosso temperamento. Dependemos do outro, mas isso não dá origem a nenhum sentimento de ansiedade ou frustração. Pelo contrário, quando somos negligenciados, ou rejeitados, o mais provável é desenvolvermos vínculos de apego inseguros. Essa é uma forma de dependência carregada de angústias e de ambivalências.

“Os inimigos como o ódio e o apego carecem de pernas, braços e outros membros. Além disso, não têm coragem nem habilidade. Então, como conseguiram me transformar em um escravo?”
-Shantideva-

A maneira como esses vínculos são construídos nos nossos primeiros anos de vida vai influenciar a nossa forma de nos relacionarmos afetivamente com as pessoas, salvo se fizermos uma intervenção consciente nesse sentido. Assim, podemos dizer que tais vínculos deixam uma marca bastante profunda, quase indelével. Dessa maneira, o que podemos observar na idade adulta é uma tendência a reproduzir o estilo de apego que foi a base para cada pessoa na sua infância: de alguma maneira, os primeiros relacionamentos de apego já nos disseram o que podemos ou não podemos esperar das pessoas, independentemente de ser verdadeiro ou não.

A teoria do apego

John Bowlby, um psicanalista inglês, se interessou pelo tema do apego e desenvolveu uma teoria a respeito. A partir das suas observações, ele estabeleceu que temos uma predisposição filogenética para desenvolver vínculos. Vínculos que se dirigem especialmente a todas as pessoas que nos proporcionam proteção e segurança ou, no caso dessa ausência, que deveriam ter sido proporcionadas.

Teoria do apego evitativo

Posteriormente, a psicóloga Mary Dinsmore Ainsworth identificou três tipos de apego. São eles: o apego seguro, o apego ambivalente ou resistente, e o apego evitativo ou desapegado. Segundo pesquisas, a maioria das pessoas desenvolve o primeiro tipo, mas também há um número considerável de indivíduos que se enquadram nos outros dois tipos.

O apego seguro permite construir vínculos afetivos estreitos e espontâneos. Os inseguros (o ambivalente e o evitativo) dão lugar a fortes repressões e dificuldades para construir laços de intimidade com os outros.

A origem dos tipos de apego

Quando os pais têm uma atitude positiva e uma disponibilidade adequada para seus filhos, são formados vínculos de segurança. Neste caso, as crianças agem de forma previsível. Se a mãe se afasta, os bebês choram e se sentem desconfortáveis por alguns segundos para, em seguida, se concentrar no ambiente. Quando ela volta, eles ficam felizes e expressam carinho e alegria.

Apego evitativo na infância

Se os pais se mostram distantes ou até mesmo dão algum sinal de rejeição em relação ao filho ou, pelo contrário, se mostram muito dependentes, o mais provável é que o bebê (ou a criança) desenvolva um tipo de apego inseguro. Quando isso acontece, as crianças percebem que suas necessidades não serão supridas ou temem que elas não sejam supridas no futuro: daí surge sua ansiedade ou seu evitamento como uma forma de se proteger do abandono ou da indiferença antecipada.

As crianças podem até mesmo aprender que as demonstrações de afeto incomodam os seres que mais amam na vida, seus pais. Os pequenos, então, começam a guardar para si mesmos suas emoções. Nesses casos, quando a mãe se afasta, a criança mal reage. E quando ela volta, a criança também continua distante e absorta em seus pensamentos. Os pequenos desenvolvem, assim, uma falsa independência.

Efeitos do apego evitativo e formas de superá-lo

Os efeitos do apego evitativo chegam até a vida adulta. As crianças que cresceram sob esses padrões viram adultos que são praticamente incapazes de expressar suas emoções. E não apenas de expressá-las, mas também de sentir e identificar as emoções. Eles procuram se afastar afetivamente de tudo e de todos. Podem ser insensíveis em relação às outras pessoas e muito indiferentes em relação aos seus próprios sentimentos.

São pessoas que vão tentar encontrar uma solução para os problemas no mundo exterior, já que a parte interior, de maneira consciente, não importa para elas.

Apego evitativo nas crianças

Essa situação se reflete especialmente na vida de um casal. Essas pessoas sentem angústia de perder a pessoa amada. Acreditam que não demonstrando ou minimizando suas emoções conseguem se proteger contra um eventual sofrimento. Elas fogem de diálogos reais e se espantam com imprevistos. Em vez de expressar sua insatisfação com palavras, o fazem com birras e falsos problemas. Essas pessoas sofrem muito porque não conseguem amar com serenidade, mas o fazem como se uma séria ameaça pairasse sobre elas; uma ameaça que muitas vezes não conseguem identificar.

Embora os padrões de apego tenham a tendência a se manter, sempre é possível atenuar e melhorar tais padrões. Às vezes uma experiência de perda de uma das figuras amadas proporciona reflexões e mudanças a respeito. Às vezes se consegue por meio da psicoterapia. Também é possível se conscientizar dessa situação e trabalhar individualmente para aprender a se relacionar com o mundo de uma maneira mais construtiva.

Superar o apego evitativo inclui restaurar a relação que existe entre a pessoa e seu interior. Em muitos casos envolve recuperar uma autoestima muito danificada e que provoca uma dor surda (não identificada). Apenas quando a pessoa cura essa relação, é possível considerar o interior das pessoas com que convive. Assim, apenas quando as próprias emoções são consideradas nasce a possibilidade da empatia para com as emoções das outras pessoas.

Nesse sentido, é muito importante mudar os padrões de comunicação. Abrir a mente tanto para o bom como para o mau, de maneira que possa existir uma expressão controlada dessas emoções, de maneira que os outros tenham a chance de aceitá-las, validá-las e, em alguns casos, acompanhá-las.

Dizendo dessa forma parece muito fácil, mas se aprender já é difícil, desaprender o que foi aprendido é mais ainda. Pense que aquilo que aprendemos na infância, ou grande parte do que aprendemos, é a base sobre a qual fomos construindo o resto do conhecimento adquirido e dos hábitos que nos caracterizam hoje. Por isso, em muitos casos é recomendável a ajuda de um profissional, senão o terremoto que podemos causar movimentando uma peça tão importante quanto o estilo de apego pode acabar nos destruindo.