A arte japonesa da aceitação: como abraçar a vulnerabilidade

A arte japonesa da aceitação: como abraçar a vulnerabilidade

5, julho 2017 em Psicologia 474 Compartilhados
A arte japonesa da aceitação: como abraçar a vulnerabilidade

Para os japoneses, sentir-se desprovido de tudo em determinado momento da vida pode implicar dar um passo em direção à luz de um conhecimento incrível. Assumir a própria vulnerabilidade é uma forma de coragem e o mecanismo que inicia a saudável arte da resiliência, para não perder nunca o ponto de vista ou a vontade de viver.

No Japão, existe uma expressão que começou a ser usada com frequência após os bombardeios atômicos sobre Hiroshima e Nagasaki. Esta expressão de alguma forma voltou a adquirir um alcance notável após o desastre do tsunami de 11 de março de 2011. “Shikata ga nai” significa “não tem solução, não existe alternativa ou não há nada a fazer”.

“A sinceridade e a transparência o tornam vulnerável. De qualquer forma, seja sempre honesto e sempre transparente.”
-Teresa de Calcutá-

Longe de compreender esta expressão do ponto de vista derrotista, submisso ou negativo como qualquer ocidental faria, os nipônicos se nutrem dela para entendê-la de uma forma mais útil, mais digna e ampla. Nestes casos de injustiça existencial, a ira e a fúria não servem para nada. Também não serve a resistência ao sofrimento onde a gente fica eternamente cativo de um pensamento como “por que eu ou por que aconteceu tamanha desgraça”.

A aceitação é o primeiro passo para a libertação. A gente nunca poderá se desfazer totalmente da pena e da dor, é evidente, mas aceitando o acontecido permitiremos a nós mesmos continuar avançando retomando uma coisa fundamental: a vontade de viver.

Passarinho em arvore florida

“Shikata ga nai” ou o poder da vulnerabilidade

Desde o terremoto de 2011 e o posterior desastre nuclear na central de Fukushima, muitos são os jornalistas ocidentais que costumam viajar ao noroeste do Japão para descobrir como as marcas da tragédia persistem e como essa gente conseguiu pouco a pouco emergir do desastre. É fascinante entender como enfrentam a dor da perda e o impacto de se ver desprovidos do que até então havia sido a sua vida.

Contudo, e por mais curioso que pareça, os jornalistas que fazem esta longa viagem, levam de volta para seus países muito mais que uma reportagem. Algo além de testemunhos e fotografias impactantes. Levam consigo sabedoria de vida, voltam às ruínas dos seus mundos ocidentais com a clara sensação de serem diferentes por dentro. Um exemplo desta coragem existencial é revelada pelo senhor Sato Shigematsu, que perdeu sua esposa e filho no tsunami.

Todas as manhãs ele escreve um haiku. É um poema composto de três versos onde os japoneses fazem referência a cenas da natureza ou da vida cotidiana. O senhor Shigematsu encontra grande alívio neste tipo de rotina, e não hesita em mostrar aos jornalistas um destes haikus:

“Desprovido de bens, nu

Contudo, abençoado pela natureza

Acariciado pela brisa do verão que marca o seu início”.

Japão

Como explica este sobrevivente, e ao mesmo tempo vítima do tsunami de 2011, o valor de abraçar a sua vulnerabilidade todas as manhãs através de um haiku lhe permite se conectar melhor consigo mesmo para se renovar como a própria natureza. Entende também que a vida é incerta, às vezes implacável, cruel quando assim o deseja.

Contudo, aprender a aceitar o acontecido ou dizer para si mesmos “Shikata ga nai” (aceite-o, não há nada a fazer) lhe permite deixar de lado a angústia para se concentrar no necessário: reconstruir a sua vida, reconstruir a sua terra.

Nana koroki ya oki: se você cair sete vezes, levante-se oito

O ditado “Nana-Korobi, Ya-Oki” (se você cair sete vezes, levante-se oito) é um velho provérbio japonês que reflete esse modelo de resistência tão presente em praticamente todas as facetas da cultura nipônica. Esta essência de superação pode ser vista nos seus esportes, no seu modo de realizar negócios, de encarar a educação, ou mesmo em suas expressões artísticas.

“O guerreiro mais sábio e forte está armado do conhecimento da sua própria vulnerabilidade.”
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Agora, cabe apontar que existem importantes nuances nesse sentido de resistência. Entendê-los será de grande valia e, por sua vez, nos permitirá nos aproximarmos de uma forma mais delicada e igualmente eficaz na hora de enfrentar a adversidade. Vejamos isto em detalhe.

Mulher com lanterna japonesa

As chaves da vulnerabilidade como forma de alcançar a resistência existencial

Segundo um artigo publicado no jornal “Japan Times”, praticar a arte da aceitação ou de “Shikata ga nai” provoca mudanças positivas no organismo da pessoa: a tensão arterial se equilibra e se reduz o impacto do estresse. Assumir a tragédia, entrar em contato com a própria vulnerabilidade presente e a própria dor, é uma forma de parar de lutar com o que já não pode ser mudado.

  • Depois do desastre do tsunami, a maioria dos sobreviventes que podiam cuidar de si mesmos começaram a ajudar-se entre si seguindo o lema “Ganbatte kudasai” (não se dê por vencido). Os japoneses entendem que para enfrentar uma crise ou um momento de grande adversidade, é preciso aceitar as próprias circunstâncias e ser útil tanto para si mesmo quanto para os outros.
  • Outro aspecto interessante para olhar é o seu conceito de calma e paciência. Os japoneses sabem que tudo tem o seu tempo. Ninguém pode se recuperar de um dia para o outro. A cura de uma mente e um coração leva tempo, muito tempo, assim como leva tempo erguer novamente um povo, uma cidade e um país inteiro.

É preciso, portanto, ser paciente, prudente, mas ao mesmo tempo, persistente. Porque não importa quantas vezes viermos a cair na vida por causa do destino, da sorte ou da sempre implacável natureza com seus desastres: a rendição nunca terá lugar nas nossas mentes. A humanidade sempre resiste e persiste, aprendamos então com esta sabedoria útil e interessante que a cultura nipônica nos presenteia.

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