A arte de ser covarde

· julho 18, 2017

Você conhece alguém que poderia definir como covarde? Quais são os motivos que fazem com que você defina essa pessoa assim? É possível justificar a maneira como ela age? No trabalho, na família, nos grupos de amigos… todos nós temos por perto alguém que podemos rotular de covarde. A covardia é uma das características essenciais do ser humano. É muito disseminada, facilmente identificada nos outros, mas pouco reconhecida. No entanto, e isso talvez seja surpreendente, em determinados casos continua sendo uma estratégia adaptativa para nós.

Em várias ocasiões, todos nós já olhamos para trás e nos deparamos com uma dúvida: saber qual teria sido o resultado se tivéssemos agido de outra forma em determinado momento. E ao analisar, vemos que a covardia está por trás de muitos dos nossos “e se…”. A covardia anda de mãos dadas com o medo e o conformismo. Eles são inseparáveis. Se não houver medo por trás, não é covardia; talvez comodismo ou preguiça, mas não covardia. É possível ser covarde em várias dimensões desse aspecto. No nível emocional, no nível comportamental ou, inclusive, no nível do pensamento.

 “Os covardes são os que se escondem por trás das normas.”
-Jean Paul Sartre-

Como ser covarde?

Existem várias formas de demonstrar covardia. A mais evidente é a que se percebe nos comportamentos. Mais além do que podemos sentir ou pensar, há momentos em que a situação exige a nossa ação e nós não agimos. É um reflexo de “não reação” por paralisação, por insegurança… podemos colocar mil justificativas. Essa é a forma mais conhecida e visível de covardia. Podemos reconhecer nas outras pessoas ou em nós mesmos vários momentos nos quais não dizemos um “amo você”, “me deixe em paz”, “não, esse trabalho é seu, faça você mesmo”…

Casal discutindo

Quantas vezes já afastamos pensamentos da nossa mente para não pensarmos sobre eles? Também podemos ser covardes de pensamento. Pode ser que exista uma ideia, uma situação ou, inclusive, uma lembrança que nos incomoda ou nos provoca medo e nós a afastamos. Nem sequer nos questionamos porque sabemos que pode nos dar um “nó” no estômago ou deixar nossa respiração acelerada. Quando somos incitados a falar sobre isso, nós fugimos, mudamos de tema ou mostramos uma indiferença forçada.

 “Um covarde é uma pessoa na qual o instinto de autopreservação ainda funciona com normalidade.”
-Ambrose Bierce-

E por último, o covarde emocional. Não sentir para não sofrer. Fugir das emoções é a solução para muitas pessoas. Elas entendem uma emoção como uma complicação. Aquelas pessoas que se deixam levar pelas emoções não os entendem. Mas por trás daqueles que fogem das sensações de medo, tristeza, carinho, raiva, há motivos específicos. Estes podem estar relacionados a dificuldades de reconhecimento, expressão e empatia na infância ou na adolescência, experiências ruins quando adultos e, inclusive, o medo de perder o controle dos impulsos.

Por que nos comportamos dessa forma?

Tanto se somos nós os covardes, ou se é alguém que conhecemos, o sentimento em relação à covardia é de incompreensão, decepção e, inclusive, raiva. Por que essas pessoas se comportam assim? Por que eu me comporto assim? Tanto para os valentes quanto para os covardes, a resposta é a mesma. Um modulador fundamental da nossa valentia está relacionado à quantidade e à qualidade das ferramentas e do treinamento pessoal que possuímos e realizamos.

 “É evidente que há apenas dois tipos de covardes: os que fogem para trás e os que fogem para frente.”
-Ernesto Mallo-

Manipulação

O medo é uma emoção compartilhada por todos, no entanto, a covardia é uma atitude: a posição que adotamos frente a esse medo. Além disso, é possível agir mesmo com medo. É algo lógico e humano. As ferramentas com as quais aprendemos a lidar com nossas emoções para responder de uma forma equilibrada ou para colocar em prática estratégias de pensamento voltadas à solução de problemas, à geração de alternativas, vão orientar o nosso comportamento em uma direção ou outra.

A partir de então, a covardia é um elemento com o qual teremos que lidar. Seja em relação a nós mesmos ou a outras pessoas, faríamos bem se nos apoiássemos na empatia, tentando compreender (não necessariamente respaldar) os motivos que nos levaram a ser covardes. Se há medo, desenvolva ferramentas para aprender, ouça as outras pessoas, reflita, compartilhe seus medos e pratique.

No trabalho, nas relações pessoais ou, inclusive, em alguma atividade da qual você sabe que sente muito medo… lute contra a covardia. Parta da ideia de que não existe branco e preto, os “tudo ou nada” são exceções e não a regra. Há graus para ir avançando pouco a pouco e deixar para trás essa sensação de pensar, agir ou se sentir inundado pela covardia.