A empatia é o fio com o qual se tece a terapia

· março 18, 2017

Já ouvimos falar diversas vezes sobre a empatia, sua importância nos relacionamentos sociais, seus poderosos efeitos na comunicação com o outro, na necessidade de incorporá-la nas nossas vidas como uma coisa indispensável. Contudo, pouco ouvimos falar sobre o peso que esta ocupa em uma relação psicoterapêutica, e sobre como sem a empatia o barco da terapia fica à deriva. Longe do seu lugar no mundo, se desvia contra o prognóstico.

A empatia do terapeuta para com seus pacientes é tão necessária e vital para o seu bom funcionamento como é para nós o ar que respirarmos. É um bem do qual não se pode prescindir.

Na terapia, como na vida, as pessoas também estão perdidas

Claro que, mesmo estando em terapia, o paciente se sente muitas vezes perdido. Sente que a sua vida anda sem um rumo definido. Sem uma luz bem poderosa e visível sob a qual possa guiar os seus passos. Sua viagem começa a ser cheia de tentativas entre a escuridão do caminho e os pequenos lampejos de luz que vão aparecendo nas suas valetas.

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O terapeuta não pode fazer mais do que acompanhá-lo nesse caminho. Esse caminho que entre as circunstâncias e a sua vontade escolheu para aprender as lições de vida que a construirão como pessoa. Muitas vezes costumamos pensar que o trabalho de um psicólogo é remover a pessoa desse caminho incerto no qual se encontra: facilitar a motivação para que se afaste dos momentos em que justamente precisa viver em benefício do seu próprio crescimento.

A vida às vezes é incerta, e esta é uma realidade que precisamos assumir

Caminhar pela vida de forma incerta é natural e humano. Não deveríamos nos assustar com isso. A vida é como uma corrente de água que muda de direção, mas sempre vai para a frente. Às vezes se transforma num frágil riacho, mas outras vezes, logo depois de uma boa tempestade, recupera a força dos tempos passados.

Inclusive, o caminho que um rio percorre é incerto. O seu impulso e confiança cega na terra que inunda são o motor que o levam a continuar por esse caminho vacilante. Tão mutante como nossas vidas.

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“O menos comum neste mundo é viver. A maioria das pessoas existe, isso é tudo.”
-Oscar Wilde-

Na psicoterapia acontece algo parecido. A pessoa se sentirá perdida muitas vezes. Mas é muito diferente se sentir perdido estando acompanhado, do que sentir-se assim sem a sustentação e apoio de alguém. Apenas a presença do psicoterapeuta não fará o paciente se sentir acompanhado. O paciente se sente acompanhado na medida em que o terapeuta vai lhe retribuindo cada um dos seus fios que este lhe passa. Ter uma atitude empática e respeitar o ritmo do paciente é crucial neste processo.

Uma linda metáfora sobre a empatia

Alguns anos atrás ouvi uma metáfora belíssima sobre o processo de acompanhamento na terapia. Quem a contou foi um psicólogo especialista em luto que aprecio muito e admiro profundamente. Ele dizia que o paciente, ou a pessoa que nos traz a sua dor, vai nos lançando uma série de fios. Sim, como os fios de um novelo de lã. Os lança no seu próprio ritmo. Às vezes demoram para lançá-los, e outras o fazem de repente.

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“A tarefa que precisamos estabelecer para nós mesmos não é estarmos seguros, mas sim sermos capazes de tolerar a insegurança.”
-Erich Fromm-

O terapeuta recolhe esses fios que o paciente lhe lança, mas longe de deixá-los de lado, devolve cada um deles com um feito por si mesmo. Pouco a pouco os fios vão se cruzando e o tear vai sendo formado. Esse tear personalizado será o que servirá de sustentação, e sobre ele, em futuras ocasiões, o paciente poderá se apoiar. O tear que ambos criaram é uma metáfora de como é o relacionamento terapêutico.

Terapeuta e paciente navegam em um mesmo barco

A relação terapêutica não pode ser entendida sem empatia. A empatia é essa sustentação, é esse maravilhoso tear sobre o qual o processo terapêutico avança. Cada gesto, cada emoção, cada pensamento, cada necessidade é ouvida, é entendida e é devolvida de uma forma mais clara, mais nítida e mais ajustada à pessoa que está diante de nós.

O terapeuta não navega em um barco diferente. Está no mesmo barco que o seu paciente. E navegam juntos. Ele o acompanha nessa travessia incerta e cheia de vida.

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Se eu não devolvo cada um dos fios que o paciente me manda, não poderei construir um relacionamento de confiança e segurança com ele. Não estaremos em sintonia e o paciente, longe de me enxergar como alguém próximo, acabará me vendo como uma figura distante e nebulosa na qual não poderá confiar.

O terapeuta também precisa ouvir o que não é dito em palavras

Mas para devolver… é preciso ouvir. É preciso ouvir cada movimento do nosso paciente. As pessoas falam múltiplas e diferentes linguagens. Falamos com cada parte dos nossos corpos sem a necessidade de dizer uma única palavra com a boca. É preciso ouvir cada uma destas linguagens.

“O que significa ajudar? A ajuda é uma arte. Como toda arte, requer uma destreza que pode ser aprendida e exercitada. Também requer empatia com a pessoa que vem em busca de ajuda. Isto é, requer compreender aquilo que lhe corresponde e, ao mesmo tempo, a transcende e a orienta para um contexto mais global.”
-Bert Hellinger-

É preciso dominar esta sabedoria que, em muitas situações, não nos ensinaram nem na profissão nem nos livros. É uma linguagem muito mais sutil e intuitiva. Precisamos entender que o canal da vida também passa por estes lugares, e por isso precisamos permanecer neles junto a nossos pacientes. Somente desta forma seremos capazes de ouvi-los e compreendê-los.

Compreender de forma empática é fundamental na terapia

É nessa compreensão empática que vai se construindo o relacionamento terapêutico. Como disse Mariano Yela no prólogo de um livro de Carl Rogers e Miriam Kinget:

“O psicoterapeuta não sanciona, não censura, não julga o paciente nem age por ele, não lhe mostra caminhos nem lhe fecha caminhos; vive com ele os seus conflitos e problemas, se esforçando para compreender o sentido pessoal que tem para o outro. O paciente não encontra nada que o afaste de si ou o incite a se mascarar”.

O processo de terapia, portanto, é único e pessoal. Não existem pacotes padronizados de respostas nem de técnicas universais. Cada pessoa é única em si mesma e precisamos nos adequar sempre a ela. Precisamos acompanhá-la nesta travessia que a vida implica, com toda a sua diversidade de momentos.