A arte surrealista e a psicanálise

fevereiro 9, 2019

O surrealismo (arte surrealista) é um estilo artístico muito conhecido e pouco compreendido. Este estilo trouxe uma revolução nas artes. As suas origens estavam no mundo literário, embora as suas expressões mais conhecidas estejam na obra de alguns grandes mestres, como Salvador Dalí.

É uma arte ilógica, sem sentido aparente e cheia de motivos fantásticos. Além disso, tentou capturar o mundo dos sonhos e do inconsciente, por isso também era conhecida como arte dos sonhos.

É o movimento estético que mais se interessou em fazer uma representação da psique humana e do inconsciente. O seus trabalhos pretendem confrontar o indivíduo com seus pensamentos mais complexos. Dessa forma, a arte surrealista era muito mais do que a beleza visual. Ela visava libertar o homem de tudo o que era racionalmente entendido e levá-lo a mundos fantásticos. Mundos cheios de símbolos e significados que o conectavam com o seu ‘eu’ mais profundo.

“Com a psicanálise, os médicos começaram a se interessar pela alma das pessoas, mas os artistas já o faziam há muito tempo”.
-S. Freud-

Arte surrealista e psicanálise: Salvador Dalí

“Os gênios não têm o direito de morrer porque são necessários para o progresso da humanidade”.
-Salvador Dalí-

Arte surrealista

Dalí foi um desses gênios, profundamente admirado por suas obras e altamente criticado pela sua natureza excêntrica e narcisista. Era visionário e místico. Onde terminava o gênio e começava o louco é difícil saber.

Ele não era psicótico, mas tinha tendências paranoicas. E um dos mecanismos de defesa mais comuns nesse tipo de transtorno é a projeção. Isto é, os próprios medos e pensamentos são inconscientemente atribuídos a alguém ou a algo. Esse gênio da pintura tinha a incrível capacidade de projetar externamente a sua realidade interior.

Na década de 1920, Dalí leu a obra de Freud, ‘A interpretação dos sonhos’. Uma leitura que o marcou profundamente e com a qual ele entrou em uma nova fase artística. Ele inventou o que chamou de método crítico-paranoico através do qual pretendia alcançar e moldar a informação do subconsciente.

“Eu devo ser o único da minha espécie que dominou e transformou em um poder criativo, em glória e júbilo, uma séria doença mental”.
-Salvador Dalí-

Técnicas em comum entre a arte surrealista e a psicanálise

A técnica pictórica mais utilizada na arte surrealista foi o automatismo, provavelmente inspirado na livre associação psicanalítica. Os surrealistas utilizavam o automatismo como o espelho do interior, o reflexo do inconsciente. Muitos argumentavam que o automatismo não era uma técnica em si, mas sim um movimento artístico.

“O surrealismo é um automatismo psíquico puro, através do qual se tenta expressar verbalmente, pictoricamente ou de qualquer outra forma o funcionamento real do pensamento”.
-André Breton-

Duas realidades subjetivas

Dentro do mundo interior de Dalí, cheio de símbolos, os fetiches se proliferavam. Objetos, às vezes impossíveis, aqueles que gostavam de abrir espaço em suas obras e cuja interpretação nem sempre chegava a um consenso entre os especialistas.

Destacavam-se figuras como a lagosta, que foi uma das obsessões de Dali ao longo de sua vida e que parecia ser representada como uma fonte de fobias. As gavetas, símbolo dos segredos da mente que só a psicanálise poderia abrir. Os crânios como símbolo da transitoriedade da vida.

As borboletas como símbolo de metamorfose e transformação; as moscas, que parecem representar o medo. A muleta, que para Dalí representava autoridade, a magia e o mistério. Os olhos, que faziam referência ao observador. Ou os relógios derretidos, um dos símbolos mais conhecidos de Dalí, representam a passagem do tempo e sua irrelevância.

“A linguagem simbólica do mundo subconsciente é a única linguagem verdadeiramente universal e comum a todos os homens”.
-Salvador Dalí-

Quadro de Salvador Dalí

Uma expressão longe do racional

O gênio Dalí muitas vezes inventou os seus próprios termos para definir pictoricamente (através da pintura) conceitos da psicanálise como o complexo dos dióscuros, que ele chamou de “fenixologia”, um processo simbólico pelo qual um dos irmãos deve morrer para que o outro se torne imortal. Ele tentou simbolizar o desejo edipiano ou o poder do pai.

Salvador Dalí buscou na psicanálise uma explicação para as obsessões que o seguiram ao longo da sua vida, e não encontrou em sua arte somente uma forma de analisar os seus próprios conflitos à maneira das escolas psicanalíticas. Ele também inventou todo um mundo imaginário para refleti-lo em suas obras.