As emoções não têm gênero

As emoções têm gênero? Homens e mulheres têm uma capacidade diferente de gerenciar emoções?
As emoções não têm gênero

Última atualização: 05 Junho, 2021

Muitos de nós crescemos ouvindo frases como: “Meninos não choram” ou “Você chora como uma menina“. Podemos ter recebido comentários como: “Essas coisas são para meninos. Não seja uma moleca” ou “Essas coisas são para meninas. Não seja um maricas”. Permitimos que as crianças expressem suas emoções naturalmente independentemente do gênero?

As meninas são mais hábeis em expressar seus sentimentos? Homens e mulheres têm uma capacidade diferente de controlar as emoções? Existem muitas afirmações sociais que giram em torno dessa questão, e vários estudos que tentam fornecer evidências para o tema. Somos realmente tão diferentes emocionalmente? E, em caso afirmativo, quais são os motivos?

Emoções proibidas e papéis de gênero

Desde o momento em que nascemos, aprendemos a regular nossas emoções a partir das relações que estabelecemos com as pessoas que cuidam de nós. As suas palavras, gestos e voz servem de modelo e promovem a capacidade de identificar emoções em nós e nos outros. Da mesma forma, aprendemos a expressar como nos sentimos e a criar relacionamentos com outras pessoas.

As frases que ouvimos desde que éramos crianças, como “Seja homem” ou “Não seja histérica“, refletem uma clara diferenciação nos papéis de gênero, ou seja, nos comportamentos e emoções que podemos expressar dependendo do fato de sermos meninos ou meninas. Estamos falando sobre o esperado, o socialmente desejável.

Isso significa que, desde pequenos, adotamos certos comportamentos e regulamos nosso próprio caráter para nos adequar ao que é socialmente aceito, ou seja, ao que o externo nos pede para que possamos ser validados e amados. Dessa forma, as fortes influências culturais causam diferenças na aprendizagem emocional entre meninos e meninas no que diz respeito a expressar e controlar suas emoções.

“Uma emoção não causa dor. A resistência ou supressão de uma emoção causa dor”.
-Frederick Dodson-

Crianças brincando

As emoções não sabem o que é gênero ou sexo

As mensagens transmitidas por contos, piadas, jogos ou programas de televisão influenciam, entre outros aspectos, a diferente socialização do mundo emocional de meninos e meninas. Por exemplo, as palavras usadas com meninas tendem a ser mais carregadas de emoção. Há estudos que corroboram que tanto as mães quanto os pais utilizam uma fala mais emocional com as meninas. Da mesma forma, foi demonstrado que, ao longo do desenvolvimento escolar, os meninos tornam-se menos expressivos, enquanto o contrário ocorre com as meninas.

Enquanto as meninas crescem com maior motivação para atender às suas emoções e comunicá-las, os meninos apresentam deficiências no que diz respeito ao aprendizado emocional e à possibilidade de expressar seus sentimentos. Como resultado, os meninos tendem a expressar e administrar seus estados emocionais por meio de comportamentos, talvez com brigas ou outros tipos de ações que aprenderam em detrimento das ferramentas verbais de comunicação de seus estados internos.

O problema é que a falta de conhecimento do próprio mundo emocional repercute não apenas na individualidade psicológica do menino e, posteriormente, do adulto, mas também na capacidade de compreender e identificar estados emocionais nas pessoas ao seu redor.

Esse fato se deve à diferenciação que ocorre. desde muito cedo, na aprendizagem das emoções. Não porque meninos e meninas tenham capacidades diferentes. Descobriu-se, na verdade, que meninos com pais que promovem a expressividade emocional têm as mesmas habilidades que meninas da sua idade.

Nesse sentido, como Leire Gartzia e seus colegas apontam no artigo Inteligência emocional e gênero: além das diferenças sexuais, a maioria dos estudos sobre gênero e Inteligência Emocional (IE) tem se concentrado em analisar as diferenças a partir do sexo, ao invés de propor referenciais de identidade de gênero menos estereotipadas. Qualquer criança tem o direito de expressar seus afetos e de se relacionar de forma natural, independentemente do papel de gênero que queira atribuir a si mesma.

A expressão de emoções em crianças não deve ser punida ou reprimida. Enquanto as mulheres veem sua emotividade fortalecida desde meninas, os meninos aprendem que isso é um sinal de “fraqueza” ou, pior ainda, de “feminilidade”. Isso bloqueia sua capacidade de desenvolver um mundo emocional igualmente amplo e valioso. Esse tipo de distinção pode gerar repressão e a incapacidade de identificar e verbalizar emoções em fases posteriores, como a adolescência ou a idade adulta, com seus correspondentes sofrimentos psicológicos e em relacionamentos.

Os laços reais, os nossos pensamentos e as emoções compartilhadas são o que nos mantém conectados de maneira autêntica.

As emoções têm gênero?

A educação como ingrediente principal

Ninguém duvida do valor da educação formal. Da mesma forma, ninguém deve duvidar da importância da educação emocional. Esperamos que as crianças cresçam em um ambiente saudável, onde se desenvolvam como pessoas e se formem no nível intelectual, deixando o nível emocional para o curso da própria natureza.

Por outro lado, o aprendizado emocional – bom ou ruim – começa nos primeiros anos, de modo que vamos acumulando e atualizando conhecimentos ao longo de nossas vidas. Quando somos crianças, existem dois ambientes fundamentais que nos apoiam nesse sentido: um é a nossa família e o outro é a escola. O problema é que, em muitas ocasiões, os ambientes educacionais não dão atenção suficiente à formação emocional das crianças.

A incapacidade de controlar nossas emoções pode nos prejudicar. Ao distorcer o mundo emocional das crianças, estaremos frustrando o potencial afetivo de suas vidas adultas. Assim, a capacidade de desenvolvimento e expressão emocional não é limitada geneticamente pelo sexo, é uma capacidade humana maravilhosa que nos permite desfrutar das nossas relações e sentir-nos em equilíbrio com a nossa saúde psicológica.

“É muito importante entender que a inteligência emocional não é o oposto da inteligência, não é o triunfo do coração sobre a cabeça, é a intersecção de ambas”.
-David Caruso-

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  • Gartzia, L., Aritzeta, A., Balluerka, N., y Barberá, E. (2012). Inteligencia emocional y género: más allá de las diferencias sexuales. Anales de Psicología, vol. 28, nº 2 (mayo), 567-575
  • Sánchez Núñez, M.T., Fernández-Berrocal, P., Motañés Rodríguez J., y Latorre Postigo, J.M. (2017). ¿Es la inteligencia emocional una cuestión de género? Socialización de las competencias emocionales en hombres y mujeres y sus implicaciones. Revista Electrónica de Investigación Psicoeducativa. ISSN. 16962095. Nº 15, Vol 6 (2) 2008, pp: 455–474
  • Brody, L. R., y Hall, J. A. (2000). Gender, emotion, and expression. In M. Lewis, y J. M. Haviland-Jones (Eds.), Handbook of emotions (2nd ed.). New York: Guilford Press
  • Young, L. D. (2006). Parental influences on individual differences in emotional understanding. Dissertation Abstracts International: Section B: The Sciences and Engineering, 66(9), 5128B