A teoria do esquema de gênero e papéis na cultura

20 Janeiro, 2021
A teoria do esquema de gênero propõe que, na sociedade, os indivíduos são forçados a se identificar com um gênero ou outro, o que leva à criação de estereótipos e comportamentos esperados que podem ser errôneos.

A teoria do esquema de gênero foi apresentada pela psicóloga Sandra Bem em 1981. É uma teoria cognitiva que visa explicar como os indivíduos adotam um gênero na sociedade e como as características associadas socialmente a cada sexo são mantidas e transmitidas aos demais membros da mesma cultura.

Sandra Bem afirmou que as crianças aprendem sobre os papéis masculino e feminino a partir da cultura em que vivem. De acordo com essa teoria, as crianças ajustam o seu comportamento para se alinhar às normas de gênero da sua cultura desde os primeiros estágios do seu desenvolvimento psicossocial.

A autora sugeriu que as teorias freudianas estavam muito focadas na influência da anatomia no desenvolvimento do gênero e propôs uma nova concepção. Assim, para Bem, o desenvolvimento cognitivo de uma criança combinado com as influências sociais determina os padrões de pensamento (esquemas) que correspondem a traços masculinos e femininos aceitos.

A teoria do esquema de gênero tenta explicar como adotamos um gênero na sociedade.

Influências culturais no esquema de gênero

Os esquemas de gênero têm um impacto não apenas sobre como as pessoas processam as informações, mas também sobre as atitudes e crenças que orientam o comportamento considerado “adequado ao gênero”.

Por exemplo, uma criança que vive em uma cultura muito tradicional pode acreditar que o papel da mulher é casar e criar os filhos, enquanto o papel do homem se concentra no trabalho e na indústria. Dessa forma, elas constroem um esquema mental interno relacionado ao que homens e mulheres podem ou não fazer.

Engrenagens do cérebro

Os esquemas de gênero também ditam o valor e o potencial de uma pessoa nessa cultura. Por exemplo, uma garota criada em uma cultura tradicional pode acreditar que o único caminho disponível para ela como mulher é se casar e criar filhos. Ao contrário, uma garota criada em uma cultura mais progressista, de acordo com os seus esquemas assumidos, poderia seguir uma carreira universitária, evitar ter filhos ou decidir não se casar.

Muitas dessas influências são evidentes, enquanto outras são mais sutis. Nesse sentido, deve-se destacar que mesmo a colocação de títulos de gênero no vocabulário (geralmente masculino à frente do feminino), coloca sistematicamente as mulheres em uma posição secundária.

Todas essas influências presentes na sociedade, por mais imperceptíveis que possam parecer, influenciam a construção do esquema de gênero de cada indivíduo. Além disso, tanto os homens quanto as mulheres estão tacitamente cientes das consequências de não aderir à norma cultural em relação ao seu gênero.

Portanto, quando se encontram em situação de desaprovação social por não apresentarem os traços esperados de acordo com o seu gênero, podem se sentir pressionados a mudar o seu comportamento ou serão rejeitados por aqueles que não os aprovam.

Estereótipos de gênero

Visto que a teoria do esquema de gênero é uma teoria de processo e não de conteúdo, ela também pode ajudar a explicar outros tipos de processos. Por exemplo, aqueles pelos quais os estereótipos de gênero estão profundamente enraizados em nossa sociedade.

Especificamente, ter fortes esquemas de gênero fornece um filtro através do qual processar todos os estímulos recebidos no ambiente. Isso permite que a pessoa assimile com mais facilidade as informações que ficarão estereotipadas, o que solidifica ainda mais a existência de estereótipos de gênero.

Nesse sentido, e em relação ao desenvolvimento do adolescente, Sandra Bem lança a hipótese de que, apesar de as crianças poderem escolher entre um grande número de dimensões relacionadas ao sexo, os esquemas de gênero levarão à adoção de comportamentos que se conformam com a definição cultural do que significa ser homem ou mulher, quase sem escolha.

Teoria do esquema de gênero

Além disso, a psicóloga afirma que existe um “subesquema da heterossexualidade” original, o que provavelmente levou ao desenvolvimento dos esquemas de gênero que conhecemos hoje.

Na verdade, a maioria das sociedades trata a heterossexualidade como a referência para definir masculinidade e feminilidade adequadas. Ou o que é a mesma coisa: a norma, em muitas sociedades, é a heterossexualidade.

Assim, o subesquema da heterossexualidade implica que homens e mulheres são diferentes uns dos outros. Além disso, os indivíduos do tipo “sexual” (aqueles que se identificam com o seu gênero atribuído e processam informações pelas lentes desse esquema de gênero) estão predispostos a usar esse esquema nas interações sociais, comportando-se de maneira diferente com pessoas do sexo oposto, dependendo do fato de serem mais ou menos atraentes.

Sobre a teoria do esquema de gênero

Sandra Bem acredita que os esquemas de gênero são limitantes para homens, mulheres e para a sociedade em geral. Na verdade, ela considerava que criar os filhos sem esses estereótipos e limitações levaria a uma maior liberdade e menos restrições no exercício do livre arbítrio.

Por sua vez, os críticos da teoria de Bem afirmam que a autora retratou os indivíduos simplesmente como espectadores passivos no desenvolvimento dos esquemas de gênero, ignorando as forças complexas e variadas que contribuem para a construção do gênero.