As feridas que cicatrizam com sorvete

· março 8, 2017

Um sofá, um cobertor e um grande pote de sorvete. Na cabeça uma tempestade de nuvens carregadas e a sensação de que nesse pequeno cantinho macio está o único lugar longe dos terremotos, bombas, atentados ou outras catástrofes emocionais.

É o sabor frio e doce do sorvete, frente ao calor do cobertor, que serve como uma tinta para escrever a primeira e singela tentativa de reconciliação com o mundo. Uma balsa onde é possível identificar e recalibrar todos os planos que foram ameaçados.  Planos que, sejam muitos ou poucos, eram com certeza importantes.

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O poder do frio

O gelo é um dos anti-inflamatórios e anestésicos mais potentes que conhecemos. Quando temos os pés frios, é como se nem os sentíssemos. Quando temos uma lesão muscular, a primeira coisa que nos recomendam é gelo para diminuir a inflamação, evitando que o sangue se concentre ainda mais na região machucada.

Tomar distância, sair desse estado “quente”, também nos permite cortar uma corrente de pensamentos incessantes que só aumentam o tamanho e o exagero da nossa ferida emocional. Além disso, sair de situações conflitantes, nas quais sentimos que a dinâmica da atmosfera nos arrasta, também impede que digamos aquilo que não queremos dizer, ou ao menos dizer com raiva ou falta de cuidado.

Se você pensa em todas as palavras que disse e das quais depois se arrependeu, certamente a maioria delas foi em um estado quente, no meio dessa inércia da qual falávamos antes. Um aborrecimento ou uma tristeza que às vezes te cega e elimina o cuidado e o carinho da maneira como você se expressa.

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O frio serve para retomar a calma, mas depois impede que as feridas cicatrizem

Se mantemos de maneira permanente o gelo sobre uma lesão muscular o sangue não entrará, e portanto esse tecido não receberá os nutrientes necessários para cicatrizar. Com as feriadas emocionais acontece o mesmo: o frio do sorvete é bom para a primeira tarde, para as primeiras horas, depois é o contato humano quente e enriquecedor que melhor pode nos ajudar a curar essa ferida.

Até mesmo o contato com nós mesmos, uma olhada para nosso interior, esse que levamos tempo sem observar porque nos dá medo. De fato, se mantivermos esse frio, a preocupação e a tristeza ficam: fazem morada na gente. Depois será mais difícil removê-las. Daí surge a importância de ter um círculo social que esteja atento a nós e faça parte do nosso sistema imunológico social.

Nossa mente, tão maravilhosa e mágica, funciona dessa maneira. Conta com mecanismos que são adaptativos quando são utilizados em um espaço de tempo limitado, como pode ser a negação diante da perda de um ente querido, mas que se voltam contra nós quando ameaçam se instalar perpetuamente. Assim, como o gelo, qualquer desconexão da realidade tem que ter um prazo de validade para que o rendimento que nos oferece a curto prazo não seja superado pelo prejuízo de mantê-la.

Nós utilizamos a analogia da tarde de pijamas, com sofá e sorvete, mas há escapes mais sutis como os longos passeios em solidão ou a irritabilidade com a qual tentamos afastar tudo aquilo que tenta se aproximar. Na verdade, não estamos zangados, mas não queremos que ninguém traga de volta aquilo contra o que estamos em guerra.

Não queremos ter de aturar isso, é então quando a culpa é acrescentada. Por que não sabemos como fazê-lo, ninguém nos ensinou a pedir espaço, e se nos ensinaram, algumas pessoas entendem que por baixo desse pedido reside justamente o contrário. Por isso a inteligência emocional reside nas pessoas sutis, porque é uma questão de nuances e de padrões que dobram até que alcançam o ponto de ruptura. Utilize-a a seu favor e pense que, quando o sorvete acabar, é hora de voltar para o mundo, não de comprar outro.