Automutilação: o que há por trás dessa terrível conduta?

Automutilação: O que há por trás dessa conduta?

agosto 21, 2017 em Psicologia 987 Compartilhados
Automutilação: O que há por trás dessa conduta?

A lâmina de aço de um apontador ou de um aparelho de barbear, tesouras ou mesmo as próprias unhas servem para traçar uma linha horizontal no antebraço, no abdômen ou nas coxas. A automutilação é, para muitas pessoas, a válvula de escape da dor emocional, uma forma de preencher o vazio, mas acima de tudo, é também a tradução de um mal-estar psíquico mal administrado.

A primeira pergunta que vem à mente, quando vemos essas marcas, algumas recentes mas outras testemunhando uma prática crônica de automutilação terrível, é “Por quê?”. Por que alguém gostaria de se machucar intencionalmente? Às vezes são cortes, outras vezes são queimaduras, e algumas vezes é o resultado de se coçar de forma constante e insistente com o fim de provocar uma ferida.

“Você escolhe o lugar da ferida onde falamos do nosso silêncio.”
-Alejandra Pizarnik-

A resposta para esta pergunta é complexa, em primeiro lugar porque apesar de grande parte da população afetada por este transtorno ser formada por pacientes jovens, os adultos também o sofrem muito mais do que pensamos de início. Por sua vez, também não podemos deixar de lado um fenômeno crescente e alarmante: o impacto que as automutilações têm nas redes sociais e o grande poder de contágio que têm nos adolescentes.

Cabe dizer, além disso, que embora na quarta versão do “Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais” (DSM) as condutas de automutilação sejam encaradas como um sintoma e não como um transtorno, na sua quinta edição passou a ser considerada uma condição independente com a sua própria sintomatologia. Ela também pode se apresentar em comorbidade com outros transtornos, como os de estado de ânimo, de ansiedade, os alimentares, etc.

Por sua vez, a American Psychiatric Association fala do “transtorno suicida por autolesão”, e o define como uma estratégia onde a dor serve como forma de extravasar, para aliviar as emoções negativas, a sensação de solidão, o vazio, o isolamento, para distrair a atenção de outros problemas, para diminuir os sentimentos de raiva, liberar a tensão ou controlar o pensamento acelerado.

Mulher que pratica automutilação

Automutilação: a forma errada de escapar da dor emocional

Uma coisa que muitos especialistas questionam diante da definição clínica que este transtorno recebeu é se estamos realmente diante de uma conduta suicida. Sabe-se, por exemplo, que entre 50 e 70% das pessoas que se autolesionam tentaram ou tentarão se suicidar em algum momento do seu ciclo de vida. É possível que o fim em si mesmo destes cortes, destas queimaduras ou lacerações, não seja de tirar a própria vida, é claro, mas por trás dessa conduta existe um pensamento e um mal-estar psicológico que, em algum momento, pode ter um mau resultado.

Apesar disso, sabemos que cada caso é único, que cada pessoa apresenta características próprias e excepcionais, mas pressentimos acima de tudo que as automutilações são a ponta de um iceberg, são apenas o telhado de um fenômeno social soterrado e cada vez mais intenso diante do qual todos deveríamos ser mais sensíveis. As autoridades e organizações sociais, por sua vez, deveriam também estar mais atentas e mais interessadas em investigar o que há por trás de tudo isso.

Automutilação

“Quando me corto acaba a ansiedade e o drama, então relaxo”. Esta frase é a mais repetida pelos adolescentes entre 12 e 18 anos que praticam o cutting, ou as automutilações. Esta forma de autodestruição é uma adaptação ruim ao estresse ou aos desafios da vida, e é quase a mesma conduta de um viciado que procura consumir para “esquecer”.

Embora seja verdade que tais feridas são apenas cortes epidérmicos e que estes jovens, na sua maioria, não apresentam nenhum transtorno limítrofe da personalidade, muitos deles apresentam problemas emocionais, de relacionamento, escolares, baixa autoestima e uma clara rejeição pela sua imagem física.

Por outro lado, ainda que existam profissionais que opinam que muitas vezes se trata de “chamar a atenção” ou de evidenciar diante dos outros o mal-estar interior, cabe dizer que estamos diante de um problema muito mais profundo e que, como apontamos, também afeta a população adulta.

Como abordar as condutas de automutilação?

Marcos tem 56 anos de idade. É uma pessoa com uma vida profissional muito estressante e chama a atenção por uma coisa muito especial: no verão sempre anda de manga comprida, cuida demais para que o botão do seu punho nunca desabotoe. Caso arregaçasse as mangas da camisa em algum momento, ficaria em evidência todo um mapa de feridas horizontais, marcas antigas e algumas novas.

“Toda alma tem suas feridas.”
-Doménico Cieri Estrada-

Marcos é um exemplo qualquer de uma boa parte da população adulta. De fato, segundo as universidades de Oxford, Manchester e Leeds, a cada 100.000 habitantes, 65 adultos se auto lesionam (também é preciso fazer especial menção aos idosos). Este dado é de grande relevância, porque também se comprovou que o risco de suicídio, nestes casos, é muito elevado. Se nos perguntarmos agora o que há por trás dessas condutas, a resposta é simples: emoções negativas intensas e persistentes, uma elevada autocrítica e uma grande dificuldade na hora de expressar e administrar as próprias emoções.

Mão segurando pequenas flores

A abordagem do transtorno por automutilação implica saber, em primeiro lugar, o que há por trás dessa conduta. Pode haver transtornos encobertos (distúrbios alimentares, depressões, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de ansiedade…). São realidades que somente os profissionais poderão determinar.

Mesmo assim, apesar de que muitas vezes se recomende a hospitalização, esta opção deveria ser sem dúvida o último meio, principalmente quando já aparecem condutas ou pensamentos suicidas. A terapia cognitivo-comportamental, por exemplo, é altamente eficaz nestes casos, reduzindo tanto as automutilações quanto as cognições suicidas e os sintomas de depressão e ansiedade.

Por outro lado, as terapias familiares, as dinâmicas em grupo, as terapias baseadas na consciência plena ou mesmo a terapia comportamental dialética, para aprender a tolerar a angústia, a frustração, a controlar as emoções e a melhorar os relacionamentos com os outros, costumam ser abordagens muito positivas na hora de enfrentar o tema das autolesões.

Portanto, é melhor procurar saídas mais úteis, sensíveis e razoáveis à dor da vida.

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