Biografia de Friedrich Nietzsche, o pensador que foi além do bem e do mal

Nietzsche aparece, em muitas ocasiões, como o filósofo que envenenou culturalmente o povo alemão, embora na verdade seu legado tenha sido tratado de forma enviesada e enganosa pelas forças políticas predominantes da época.
Biografia de Friedrich Nietzsche, o pensador que foi além do bem e do mal

Última atualização: 28 Maio, 2021

Quando pensamos em filosofia, normalmente nos vêm à mente nomes de autores clássicos como Aristóteles, Platão e Epicuro. No entanto, se pensarmos em autores mais recentes, provavelmente um dos nomes que surgirá com mais frequência é o de Friedrich Nietzsche, cuja biografia vamos expor a seguir.

Friedrich Nietzsche se interessou profundamente por três temas que desenvolveu amplamente ao longo de toda a sua obra: a ideia do super-homem, o fim da religião como modelo de valores na sociedade moderna, e suas reflexões sobre o bem e o mal.

Sua influência chegou a muitos outros pensadores, escritores e figuras influentes do século XX. A reinterpretação livre de algumas partes dos seus textos foi utilizada como justificativa de muitas ações do partido nazista nos anos 30. As ideias de Nietzsche foram revolucionárias e se transformaram em uma fonte para o nazismo, que as adaptou à sua ideologia.

Nietzsche publicou inúmeros trabalhos e suas contribuições para a filosofia tiveram um peso considerável. Seus textos, apesar de tratarem de questões filosóficas, são leituras excepcionais e embaçam, de alguma maneira, a linha tênue que existe entre o literário e o puramente filosófico.

Durante a última fase da sua vida, sofreu de uma doença mental que o afastou por completo do seu trabalho. A seguir, vamos falar sobre a sua biografia e mostrar por que Friedrich Nietzsche é considerado um pensador brilhante.

Nietzsche é um dos autores mais revolucionários da história da filosofia. Suas ideias marcaram um antes e um depois, rompendo de forma drástica com a tradição anterior.

Foto de Nietzsche

O início da biografia de Friedrich Nietzsche

Friedrich Nietzsche nasceu em Röcken bei Lützen, Prússia, em 15 de outubro de 1844. Era filho de um pregador luterano que lhe transmitiu um amor incondicional por Deus e pela vida religiosa. Seu pai morreu em meio a grandes sofrimentos e uma for profunda quando Friedrich tinha apenas quatro anos de idade.

Isso parece ter deixado uma marca intensa no menino, que ele nunca conseguiu curar completamente. O amor imenso que sentia pelo pai, a quem considerava uma boa pessoa, e a provação enviada por Deus na forma da sua morte fizeram tremer as bases da vida de Nietzsche, que ficou preso em uma profunda dissonância cognitiva desde uma idade muito precoce.

Ele nunca conseguiu entender como um Deus bondoso poderia enviar um tormento tão grande a alguém que havia lhe servido como seu pai.

Na Universidade de Leipzig, estudou uma combinação de Literatura, Letras e História. Em sua vida universitária, conheceu Richard Wagner, por quem desenvolveu uma profunda admiração. Foi nesta mesma época que se sentiu fortemente atraído pelos textos de Arthur Schopenhauer.

Wagner e Nietzsche compartilhavam uma paixão por Schopenhauer, embora, de forma paradoxal, ela tenha sido parte dos motivos que levaram ao declínio da sua amizade.

Os trabalhos de Friedrich Nietzsche

Após terminar os estudos, Friedrich Nietzsche deu aulas como professor de Filologia na Basileia, começou a se distanciar do pensamento de Schopenhauer e a escrever seus primeiros trabalhos focados nos novos valores da sociedade moderna.

A amizade que mantinha com Wagner foi se deteriorando à medida que as ideias do compositor se voltavam para o processo moral que redime o ser humano da vida.

Wagner era abertamente antissemita e tremendamente egocêntrico. Parece que Nietzsche acabou considerando as ideias de seu amigo como uma traição ao princípio da estética que enaltece a vida acima de tudo.

Durante a década de 1889, Nietzsche enfrentou um transtorno nervoso que o obrigou a se isolar por completo por uma longa temporada. No entanto, este isolamento levou a um período muito frutífero, que permitiu o desenvolvimento dos pontos-chave que marcariam as bases do seu pensamento filosófico.

Durante esta etapa, começou a desenvolver uma das suas declarações mais famosas: “Deus morreu, Deus continua morto e nós o matamos”. O niilismo pelo qual seria conhecido começava a se fortalecer no seu pensamento. Sua rejeição pelo cristianismo e os seus valores como força significativa da sociedade aumentava cada vez mais.

Por que o niilismo? Por que Deus havia morrido? Não é que Deus estivesse morto no sentido mais estrito da palavra, mas sim que, para Nietzsche, não há nada em que acreditar, já que não existe uma universalidade dos valores morais.

Nietzsche destruiu os antigos valores, rejeitou a autoridade e a submissão do rebanho. Construiu sua ideia do super-homem, da vontade de poder, da criação e destruição de valores.

Nietzsche se afastava de toda a filosofia tradicional, falava da ideia do eterno retorno e situava a vontade de poder em um ponto além do bem e do mal. Desse modo, foi se formando o pensamento de uma das figuras que mais contribuíram para a filosofia contemporânea.

Foi neste período da biografia de Friedrich Nietzsche que ele escreveu algumas das suas obras mais reconhecidas: Assim falou Zaratustra, Além do Bem e do Mal, Genealogia da Moral e Crepúsculo dos Ídolos.

As ideias do super-homem, do indivíduo que se esforça para existir além do considerado como bem e mal, foram propostas em Assim falou Zaratustra e acabaram de ser desenvolvidas em O Anticristo. Nesta última, se tornaria ainda mais latente a sua absoluta rejeição pelo rebanho, pela submissão.

Livro antigo aberto

Biografia de Friedrich Nietzsche: últimos anos e doença

Em 1889, Nietzsche sofreu um colapso nervoso que levou a uma deficiência mental da qual ele jamais se recuperou. Sua doença não pôde ser diagnosticada corretamente na época, embora alguns autores a tenham atribuído a causas hereditárias, a um tumor cerebral, à sífilis e até ao uso excessivo de substâncias sedativas.

Na época em que se viu recluso por causa da sua doença mental, ficava isolado na casa da família que compartilhava com sua irmã em Weimar, Alemanha. Era o momento em que o partido nazista começava a ganhar simpatizantes na Alemanha, e a irmã de Nietzsche era uma das mais fervorosas seguidoras das novas ideias do nazismo.

Parece que foi ela que, aproveitando a deterioração das faculdades mentais do irmão, entregou boa parte do seu trabalho a suas amizades do partido nazista. Inclusive, acredita-se que ela organizava visitas à sua casa para mostrar o estado lamentável em que seu irmão estava, como se fosse uma espécie de espetáculo macabro. Sem nunca ter se recuperado, Friedrich Nietzsche faleceu no dia 25 de agosto de 1900.

Legado e influência

Nietzsche foi considerado um dos personagens com maior influência na filosofia do século XX. Seus conceitos sobre o significado da existência, a moralidade e a individualidade das pessoas influenciaram significativamente o trabalho de outros grandes pensadores do século XX, como Sigmund Freud, Carl Jung e Michel Foucault, entre outros.

Durante os anos imediatamente posteriores à sua morte, parte do seu trabalho e algumas das suas ideias mais importantes foram utilizados pelo partido nazista de forma enganosa, seletiva e fora de contexto,

É verdade que a polêmica ideia do super-homem, ao cair nas mãos erradas, pode ser utilizada de forma negativa e interpretada como a superioridade de alguns em relação a outros. Sim, Nietzsche criticava o rebanho, mas suas ideias estavam muito distantes daquelas do pensamento nazista.

Nietzsche também contribuiu enormemente com a sua interpretação do Apolíneo e o Dionisíaco, aplicando-a a diversas artes.

Louco ou são? Racional ou irracional? Nietzsche estava além desses rótulos. Ele foi um daqueles autores que combinam racionalidade e irracionalidade, que embaçam os conceitos do bem e do mal.

Poderíamos escrever uma infinidade de páginas sobre a biografia de Nietzsche e suas contribuições para a filosofia, mas não há uma forma melhor de mergulhar em Nietzsche do que por meio do próprio Nietzsche. Ou seja, se perder em seus textos, em sua obra e em seu legado fundamental.

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