Bohemian Rhapsody: a música dá sentido às nossas vidas

novembro 25, 2019
O filme Bohemian Rhapsody nos dá a oportunidade de apreciar a música novamente, de reviver um dos grupos mais emblemáticos e inovadores do século XX. Mais do que uma cinebiografia, ele nos lembra que a música deve nos mover, nos fazer vibrar e sentir.

Muito já foi dito sobre o filme Bohemian Rhapsody. As opiniões são muito diversas e apontam para questões da vida de Freddie que foram deixadas no ar, que não foram abordadas ou que foram amenizadas.

A verdade é que o mundo da música e, principalmente, o rock de meados do século XX estão profundamente ligados a excessos, drogas e destruição. Alimentamos a figura do rockstar rodeado por excessos. Elevamos essas estrelas para o nível dos gênios sombrios e incompreendidos, que passavam o tempo com orgias, álcool e qualquer tipo de droga.

Parece impossível quebrar a associação entre estrela do rock e excessos, embora sempre haja exceções. Algumas estrelas, como Bruce Springsteen, são exemplos de astros que ficaram de fora. Mas, sem dúvida, parece que pensar em rock é pensar em sexo desenfreado, em festas loucas e extravagantes.

Talvez seja isso que alguns esperavam ao ver Bohemian Rhapsody. Da mesma forma, talvez fosse esperada uma visão mais profunda da doença de Mercury: o HIV. Além disso, como essa doença o levou a perder um pé e a um sofrimento que não é visto no filme.

Nesse ponto, podemos nos perguntar se o longa deve ser considerado uma cinebiografia de Freddie ou do Queen, e a única resposta possível é que se trata de uma cinebiografia do grupo britânico.

Sim, é verdade que a maioria das cenas pertencem a Freddie, mas também que ele é a figura mais conhecida do grupo. A sua voz espetacular, a sua conexão com o público, as suas extravagâncias e a sua morte precoce fizeram dele uma figura que, imediatamente, associamos ao talento e à genialidade.

Portanto, não é de surpreender que seja a alma do filme.

Bohemian Rhapsody: um filme que vai além de Freddie

Se quisermos ver um filme completamente fiel e detalhado da vida de Freddie Mercury, é melhor não ver Bohemian Rhapsody. Como qualquer adaptação, parte de uma história e constrói algo totalmente diferente.

Não devemos esquecer que o cinema, por mais fiel que seja à realidade, é uma narrativa, uma criação artística que, por sua vez, é profundamente limitada pelo tempo. Por esse motivo, a cronologia é deixada por conta da imaginação e são tomadas determinadas licenças criativas. Tudo isso pode se transformar em um grande sucesso ou em uma catástrofe.

Deixando de lado as questões cinematográficas, nos deparamos com um filme que surgiu em um momento totalmente necessário. A música, como todas as artes, está em constante mudança desde o seu nascimento. Muitos artistas se aprimoram ao longo dos anos, enquanto outros caem no esquecimento.

No final, o que sobrevive são os clássicos; aquelas obras que, por algum motivo, marcaram um antes e um depois.

A música expressa o que não pode ser dito e aquilo sobre o qual é impossível permanecer calado”.
– Víctor Hugo –

Nos últimos anos, a música se tornou, mais do que nunca, um objeto de consumo. A quantidade importa mais do que qualidade, o que se ouvia há um ano já é considerado velho.

Os jovens conhecem Freddie? No caso de uma figura tão popular, poderíamos dizer que a grande maioria sim. No entanto, a realidade é bem diferente. E se perguntarmos aos seus contemporâneos, ouso arriscar que a resposta será, em sua maioria, negativa.

Bohemian Rhapsody é uma ode à música, àquela música em que o auto-tune não era o protagonista e a criatividade do artista era fundamental (desde que o produtor consentisse).

A imagem diabólica das gravadoras também está presente no filme, a sociedade de consumo avançava enormemente e ninguém se interessava por ópera e muito menos por uma música cuja duração ultrapassava 3 minutos.

Contra todas as probabilidades, o Queen conseguiu cativar uma audiência das mais heterogêneas, demonstrando que a qualidade não precisa ser um antônimo de vendas.

Queen gravando

Bohemian Rhapsody: a música como um fio condutor

A música é uma disciplina que, se você entende, se sabe o que está acontecendo, desfruta em um nível que é difícil explicar. No entanto, mesmo a pessoa que não entende de música consegue se divertir. A música tem a capacidade de transmitir emoções, sensações e evocar memórias.

Dependendo do nosso estado emocional ou do momento do dia, estaremos mais predispostos a ouvir um determinado estilo musical. Quando assistimos a um concerto, as sensações se multiplicam e, diante de um grupo como o Queen, deve ser uma experiência excepcional.

Nos últimos anos, está ocorrendo uma padronização. A inovação não é premiada, mas sim as vendas. Isso, na realidade, não é uma novidade, mas aumentou bastante.

A música não entende de fronteiras… Algo que vemos claramente em uma cena em que Mercury mostra a Mary um vídeo de um show no Rio. Mercury expressa a incerteza de tocar diante de uma plateia que não entende as suas letras e, no entanto, fica surpreso ao descobrir que a multidão canta ‘Love of my Life’.

A linguagem da música vai além das palavras. Às vezes, não é necessário entender o que uma música diz para entender o que ela transmite.

Numa época em que parecia que tudo o que era antigo foi relegado a um baú empoeirado, Bohemian Rhapsody resgata essa torrente de emoções que a música desencadeia. Ele nos convida a cantar, dançar, celebrar a vida, sem pensar muito e esquecendo os problemas.

Portanto, o trágico não tem lugar, a música cria unidade, nos emociona… É isso o que sentimos quando assistimos ao filme, onde Malek e Live Aid se destacam.

Cena de Bohemian Rhapsody

O amor

Bohemian Rhapsody é amor pela música, pela arte. Além disso, é também o amor pelas diferenças, pela família e amigos. A unidade do grupo, as discussões, as diferenças e a família estão muito presentes ao longo do filme.

Tampouco foi deixada de lado a relação única entre Freddie e Mary Austin (nem com os gatos), a principal herdeira da fortuna do músico e uma das pessoas mais importantes de sua vida.

Vindo de uma família de tradições profundamente enraizadas, que contrastava com o estilo de vida britânico do momento, Mercury adotou uma nova identidade, desvinculando-se da anterior. No entanto, assistimos a um momento muito emocionante perto do final do filme: a reconciliação com o pai e a aceitação das diferenças.

A homossexualidade do cantor é tratada naturalmente, embora observemos uma imprensa predatória que quer saber mais sobre com quem Freddie compartilha sua cama do que sobre questões musicais.

Cena do filme Bohemian Rhapsody

Algumas considerações

Sem muitas palavras, o mundo homossexual é mostrado como algo obscuro, escondido nos bares, no mais sombrio das cidades… E isso é algo que, infelizmente, também não mudou muito.

Por ser algo não normativo, algo que tem sido muito perseguido e criticado duramente, foi, de certa forma, excluído, relegado a determinados lugares onde, além de permanecer na sombra, tende a cair em promiscuidade ou em práticas menos saudáveis.

A coletiva de imprensa do filme é realmente reveladora. Vemos um Mercury angustiado e determinado a não revelar a sua orientação sexual.

O filme também oferece a oportunidade de desfrutar de alguns dos shows mais emblemáticos, como o Live Aid, para quem não pôde assistir em sua época. Por sua vez, é uma descoberta para as novas gerações, algo que se reflete no número de reproduções que a banda britânica obteve desde a estreia do longa.

Bohemian Rhapsody não é um filme para pensar demais, é um filme para celebrar a vida e, definitivamente, a música e tudo que ela evoca.

“Sem música, a vida seria um erro”.
–  Nietzsche –